27 fevereiro 2010

Os portugueses que fizeram Banguecoque

Levantei-me às sete da manhã para organizar a documentação necessária para mais um encontro com os amigos luso-tailandeses do bairro da Conceição, em Sam Sén, que dista cerca de três quilómetros do palácio real. Cheguei cedo e pedi ao guarda do cemitério que me deixasse entrar e fotografar alguns jazigos e campas no livro em pedra desta comunidade radicada nas margens do rio desde 1674. Aqui construíu o Padroado uma igreja, em torno da qual foi crescendo uma aldeia católica que hoje alberga uma população de três mil pessoas de ascendência variada - portugueses, siameses, cambojanos, malaios, vietnamitas e chineses - chegados em sucessivas vagas ao longo dos últimos trezentos anos. Aqui quase se pode ouvir o eco das memórias gloriosas das gerações que fizeram a guerra pelo Sião, desde os tempos de Ayutthaya às campanhas na península de Malaca, batalhas contra os vietnamitas pela posse do Camboja ou contra os irrequietos birmaneses. Aqui repousa Phraya Wisset Songkram, ou antes, Pascoal Ribeiro de Albergaria, que atingiu a mais alta posição no Tahan Klang - exército de primeira linha - entre 1824 e finais da década de 1850.


Aqui estão militares, mas também diplomatas, administradores e funcionários da coroa em cujas mãos residiu, durante quase um século, a sorte do Sião nos tempos difíceis em que o país, cercado por agressivas potências colonialistas, corria de sobressalto em sobressalto para impedir a absorção no Raj britânico ou na Indochina Francesa.

Como disse noutra ocasião, aqui a regra não é fazer dinheiro nem business. São todos, sem excepção, funcionários do Estado e ainda revelam qualidades que fizeram dos seus antepassados objecto do interesse dos reis: são médicos, oficiais da armada, professores universitários, funcionários superiores do Ministério dos Negócios Estrangeiros, directores de serviço, chefes de divisão, directores de empresas e serviços do Estado. Fui encontrá-los reunidos na sala de trabalho do edifício anexo à escola primária da paróquia. Hoje prepararam-me uma surpresa. Para além da dezena de membros da comunidade, do bom café da boa fatia de bolo, convidaram um canal de televisão, uma jornalista e o historiador Krairoek Nana, que conheci na nossa embaixada há um ano e com quem tenho mantido contacto regular. Informou-me Krairoek que está a preparar para o MNE tailandês uma obra sobre as relações entre Portugal e a Tailândia, com publicação prevista para 2011; ou seja, para entroncar no conjunto de iniciativas várias que as duas partes estão a calendarizar para o próximo ano.

O tema de conversa para hoje era difícil, pois exigia-me cruzar dados de proveniência vária e proceder a cálculos sobre a expressão demográfica da população católica no Sião entre finais do século XVIII e finais do século XIX. Para respaldar a minha argumentação, servi-me de uma dezena de memórias de viajantes ingleses, franceses e norte-americanos, de censos populacionais mandados fazer pelos primeiros quatro reis da dinastia Chakry, pela correspondência dos padres franceses das Missions Étrangères, por documentos dos arquivos portugueses e outra inserta em monografias sobre a história de Banguecoque. Disse-lhes que a sua paróquia fora o berço de Bangkok - o Azeitão do Sudeste-Asiático - e que funcionou como cadinho de reunião e distribuição da população católica após a queda de Ayutthaya, que o seu terreno fora do Padroado Português até 1825, quando os franceses dele se apossaram - tal como o fizeram nas outras paróquias de Santa Cruz de Thonburi e do Bandel de Nossa Senhora do Rosário dos Portugueses - e que as igrejas primitivas, em estilo luso-siamês, com excepção de uma, haviam sido demolidas com a invocação da sua decrepitude. Falei-lhes na luta do povo cristão contra a intolerância dos bons padres franceses, que desde Ayutthaya não deixaram de recorrer aos mais variados recursos para abafar a memória da ancestralidade portuguesa da população católica, como, aliás, o fizeram na Birmânia, no Camboja e no Vietname.
Ali estivemos em interessante charla por quatro horas. Depois, saí e passei pela Igreja, onde se faziam os preparativos para a missa das cinco e meia da tarde. Disse-me a Irmã Maria que a missa das 17.30 horas é concorrida, que ali acorrem cerca de 200 pessoas para o ofício e que até há um organista que tem vindo a estudar o reportório sacro em latim que havia caído no esquecimento. Na Conceição, a população continua a recitar a novena em latim, coisa rara num país onde o latim só terá sido estudado por meia dúzia de académicos, bem como pelo Rei Mongkut (r. 1851-1868).

Nas traseiras do templo, os vestígios muito alterados daquela que deve ser o último exemplar de igreja luso-siamesa, poupado à sanha demolidora da vaga de "igrejas à Normandia" que a França semeou por toda a região. Num andor, à esquerda na nave, uma Nossa Senhora que é, nem menos, a imagem de Nossa Senhora de Vila Viçosa ostentando a coroa de soberania de Portugal. Nas mãos em prece, um arranjo de flores que me lembrou as cores da nossa bandeira de outrora.

As pessoas começavam a chegar e não quis, com a minha presença, criar-lhes incómodo, pelo que saí para o adro da igreja em conversa com a Irmã Maria. Cabe aos jovens da paróquia preparar os vasos de flores que se colocam numa ampla mesa e são vendidos por uma ninharia aos familiares de doentes e idosos que não podem comparecer aos ofícios. As flores são aspergidas pelo padre e levadas como oferta para fazer lembrar aos ausentes os mistério da vida, da beleza e da morte, ou seja, da transitoriedade e da eternidade.
Senti que 2011 é aguardado como a restauração da memória e da identidade de uma comunidade que jamais se rendeu, que calou fundo todas as humilhações, cerrou punhos de indignação e sobreviveu às maiores provações. Os Franceses partiram. Terá chegado a hora do regresso de padres e missionários portugueses ao velho Sião ?

26 fevereiro 2010

Uma cascata de estupidez

As mulheres republicanas, cidadãs de segunda, sem direitos na tal "República Emancipadora"




Confesso que me belisquei duas vezes ao ler o textozinho que o Centro Nacional de Fotografia fez publicar no seu sítio-web, pois coisas tão patetas raramente têm o topete de sair a público e exibir-se com tamanho despudor. É mentirosa, é rente de ignorância cavalar e um monumento à propaganda. É confrangedora a demissão da inteligência. Resigno-me assistir à longa procissão de manicurismo doutoral, de cultura inculta e de encomendas que sujam os turiferários do elogio mercenário.

Quando o grande exprime grandes desígnios

Os projectos arquitectónicos para o novo parlamento tailandês estão patentes ao público em exposição. A arquitectura de Estado deve exprimir segurança, força e autoridade, deve ser espelho da vontade de uma comunidade em preservar a sua diferença, pelo que qualquer edifício que abriga instituições do poder não se pode reduzir apenas aos objectivos e funcionalidades elencados nos termos do concurso público. Esta série de imagens demonstra com eloquência como os tailandeses captam a sua relação com o Estado, como se relacionam com o mundo contemporâneo e como exaltam o sistema representativo, instrumento da soberania popular (democracia) e da soberania real (monarquia). A Tailândia é um regime misto monárquico-democrático, pelo que a democracia e as liberdades de cidadania convivem sem atropelo com a presença protectora da imagem do Rei, aquela que junta e supera as diferenças, os interesses e os partidos.

25 fevereiro 2010

A via da salsicharia e a via da cultura. Aqui, Portugal quer dizer qualidade !

O noticiário português na Tailândia não arreda pé deste blogue. A verdade é que as coisas acontecem em sucessão e sinto o elementar dever patriótico de dar a conhecer aos leitores desta tribuna eventos raramente noticiados na comunicação social de Lisboa, que parece apenas vocacionada para deprimir os portugueses. Longe dos escândalos e escandaletes, aqui faz-se o que se deve fazer, sem políticas e sem lóbismo, sem intuitos mercenários e dando o melhor para dignificar a nossa pátria, distante e desatenta. Parece que a notícia aqui divulgada anteontem deixou mossa entre as termiteiras do despeito, os adeptos do quanto pior melhor e os habituais "arrenegados" - como se chamava no século XVII aos soldados práticos que abandonavam o serviço da Coroa para emprestar a espada aos inimigos do seu Rei - mas isso assim sempre foi. Quando um português faz bem, há sempre meia dúzia de biliosos impacientes e frementes tentando impedir a todo o custo o curso ascendente das coisas.


Estava sentado na minha secretária preparando uma comunicação sobre a comunidade luso-siamesa em Banguecoque, que apresentarei no próximo sábado. Tinha a televisão ligada e, de repente, ouvi falar de Portugal. Na pantalha, outra vez a nossa embaixatriz Maria da Piedade Faria e Maya, agora convidada especial num programa sobre o Bazar da Cruz Vermelha - um dos maiores eventos Banguecoque - para falar sobre o programa deste ano. Defendeu a imagem de Portugal e disse que Portugal se associa a esta iniciativa com o propósito de ajudar os desfavorecidos e divulgar os seus melhores produtos industriais e artesanais. Pois, cultura, para nós quer dizer cristais, porcelanas, vinhos das melhores adegas, colchas de linho puro bordadas e até doçaria. O mesmo não pensarão outros, derrancados no mais vil mercantilismo de comes-e-bebes e convertidos, difinivamente, ao espírito do souk ou do Xipamanine. Numa demorada sucessão de imagens sobre as mais de quarenta representações que estarão presentes no Paragon de Banguecoque, foi clara a separação entre esses dois mundos irreconciliáveis: de um lado, os países bufarinheiros, transformados em chocolatarias, charcutarias, salsicharias, peixarias e Lojas de 300; do outro, os países preocupados em preservar e divulgar uma imagem civilizada. Felizmente, Portugal apresenta-se como uma das excepções civilizadas.

A Alemanha, que se vai extinguindo ano a ano, de si já só repercute a imagem de comedora de enchidos, bebedora de malte fermentado e promotora da diabetes, doenças coronárias e AVC's. Senti pena, pois ali não vi joalharia Guthmann de Pforzheim, a boa relojoaria, as porcelanas de Meissen e da Königliche Porzellan Manufaktur, nem mesmo os engraçados objectos da cultura völkisch da Floresta Negra. Só salsichas, mais salsichas, pirâmides de salsichas.
Terminado o programa, liguei à nossa embaixada e pedi a uma das secretárias se me podia enviar imagens da sessão de apresentação do Bazar da CV, que teve lugar há uma semana. Recebi-a de imediato, com o esclarecimento adicional que na mesa só está patente uma pequena amostra, pois que a restante mercadoria só chegou anteontem a Bangkok e está a ser desempacotada e preparada para a exposição. Assim se vai fazendo o melhor, sem alarde e sem que Lisboa disso dê conta, com quase inexistentes meios humanos, logísticos e materiais. Assim fossem todas as embaixadas !

Azeitão do Sudeste Asiático


Os thais chamam à sua capital Krung Thep Mahanakhon (กรุงเทพมหานคร), pelo que se o caro leitor se referir a Bangkok (Banguecoque em português) em frente de um tailandês comum, este não compreenderá de que lugar se está a falar. Isto tem uma explicação. Bangkok foi criada por portugueses em meados do século XVII e, traduzido para português, quer dizer tão só Azeitão ou "aldeia das azeitoneiras" (Ban = aldeia + Kók/กอก = oliveira). Originárias da América do Sul, as azeitoneiras Spondias mombin (cajá-manga para os brasileiros) foram introduzidas no Sudeste-Asiático pelos portugueses em inícios do século XVII e usadas como base para molhos e conservas, ou seja, com a mesma finalidade do azeite de oliveira na Europa da Antiguidade e Idade Média. A aldeia de Bangkok nasceu no actual distrito de Samsen, três quilómetros a norte do complexo religioso-administrativo do palácio real, que só seria erigido a partir de 1782. Ali havia uma igreja em madeira que servia o Padroado e era em Bangkok que as embarcações que subiam o Chao Phrya (rio de Bangkok) em direcção à antiga capital (Ayutthaya) interrompiam a sua viagem para receberem pilotos experimentados na navegação fluvial. Estes pilotos eram luso-siameses católicos, os únicos siameses que falavam a língua franca comercial e diplomática da região entre os séculos XVI e XIX, a língua portuguesa. Aqui fica o pequeno esclarecimento pedido pelo João Cabral.

23 fevereiro 2010

Orgulho português nos confins do país dos Karen

O pequeno Chai, três anos de idade, benjamim da aldeia com a suas irmãs, que aprenderão a ler na escola portuguesa

Entre as minorias que vivem sob protecção do Estado tailandês, os Karen são os meus preferidos: um povo manso, belo, humilde e simpático que carrega indizíveis provações e luta desde há quase dois séculos pela sobrevivência da sua cultura. Vivem na cordilheira de montanhas que separa a Tailândia da Birmânia, são oito milhões e travam desde há décadas uma guerra de guerrilhas contra a opressão do regime militar de Rangún. Na Tailândia são cerca de meio milhão e aqui podem viver sem o perigo dos bombardeamentos e dos massacres. A minha estima por esta tribo reforçou-se há tempos, quando um amigo karen, residente em Banguecoque, me revelou um dos segredos da sua cultura: "nunca aceitamos dinheiro de ninguém; uma sopa sim, dinheiro, nunca".

São pobres - diria, são muito pobres - mas não exibem no rosto, como acontece com os cambojanos, as marcas das tragédias que os assolaram. Há qualquer coisa de infantil na confiante docilidade com que se entregam à conversação com os forasteiros. Os pais trabalham nas hortas e nos arrozais em socalcos, recolhem frutos silvestres e madeira das florestas; as crianças percorrem quatro ou cinco quilómetros a pé, sapatos cambados e rotos, para conquistar o direito à instrução. Hoje levantei-me às seis da manhã e dirigi-me, na companhia da nossa embaixatriz em Banguecoque a uma remota aldeia Karen situada nos confins de Suphanburi, no extremo ocidental do país. Foram horas de caminho para cumprir uma promessa de anos. A Embaixada de Portugal ofereceu a esta comunidade cerca de 800.000 bath - que na Europa não é nada, mas para os Karen uma fortuna - para a edificação de uma escola dotada de biblioteca com ligação à internet, luz eléctrica, ventoínhas e até um pequeno laboratório de físico-química para aulas de introdução ao meio natural.

Ao chegarmos à aldeia, fomos recebidos com júbilo por professores, autoridades locais e miudagem. Sem que ninguém o pedisse, retiraram da parede a bandeira portuguesa, aglomeraram-se no centro da sala e deixaram-se fotografar com a bandeira do longínquo país dos "farangues" para lá dos montes e oceanos que lhes quis oferecer uma migalha de dignidade que tantos outros, ricos e poderosos, lhes recusam. Confesso que me senti orgulhoso, pois desta gente nada temos a ganhar: aqui não temos interesses geopolíticos a defender, não somos candidatos à mercearia das barganhas comerciais nem seguimos o calculismo da intriga diplomática. Portugal veio a esta aldeia no fim do mundo só e apenas para fazer o bem. Isto lembrou-me a velha história que aqui venho contando sobre o sentido profundo e transcendente da missão portuguesa no mundo, uma ideia de fraternidade que outrora aqui trouxe missionários, capitães e soldados em busca de um novo lar português.

Pediram os professores às crianças que, com as canetas, os lápis de cores e o papel que Portugal lhes ofereceu, exprimissem o que lhes ia na alma. Sem excepção e absolutamente livres - falo tailandês e prestei a máxima atenção aos professores - os miúdos traduziram esse sentimento desenhando com espantosa criatividade a sua versão da bandeira portuguesa. O Kái ("galinha"), um rapaz de 11 anos, perguntou-me o que significava aquela cruz no centro do pavilhão. Quando lhe disse que era a cruz dos cristãos, disse-me que o avô também era cristão; logo, nós eramos amigos do avô !

Receberam escola nova, centenas de livros e até bolas de futebol e raquetes de badminton que decerto constituirão por muito tempo os seus únicos brinquedos. Depois, foram bolos, chocolates, bolachas e sumos, coisas que não conhecem, pois aqui não há supermercados e o dinheiro, quando o há, serve para comprar um machete, uma alfaia agrícola ou um par de meias.

A Embaixatriz Maria da Piedade Faria e Maya lembrou a todos que Portugal está nesta parte do mundo desde 1511, que aqui viveram gerações de portugueses e que a velha aliança entre a Tailândia e Portugal é coisa sagrada, indiscutível e perpétua. Grandes sorrisos, palmas prolongadas e reconhecimento por este gesto abriram passo à inauguração do complexo.

A árvore da vida, plantar o futuro e a esperança de melhores dias, parece ter sido este o significado do momento mais marcante do dia, tudo isto feito sem fotógrafos contratados, jornalistas em rodopio e falsa solenidade. A árvore escolhida - o Pleuk - é um dos símbolos da realeza thai.


A placa evocativa, descerrada pela Embaixatriz de Portugal, foi mandada esculpir pelo YWCA de Banguecoque. O YWCA organizou a cerimónia, que contou com a presença de diplomatas de outras representações.

O edifício é simples mas confortável, protege da chuva, do vento e do sol e dará a esta comunidade novo alento. Paredes caiadas, quadros e marcadores novos, cortinas garridas, chão em azulejo branco fazem desta casa um palácio aos olhos desta pobre gente que vive em cabanas de palha e colmo.

Na sala de aula, a trilogia que a nação tailandesa escolheu como divisa do Estado: Budismo, Rei e Pátria, lembrando aos cidadãos Karen que a origem étnica ou religiosa de cada um será sempre protegida. Foi um dia feliz para nós portugueses, mas principalmente para os Karen, que contarão a partir de hoje a história daqueles farangues de um distante país que aqui um dia vieram, sem interesse e sem agenda, dar-lhes um pouco do seu futuro. Há que mudar de rumo, abandonar o remoer de ódios e lançar de novo pelo mundo o bom nome de Portugal. Esse é o único caminho, o mais lavado e orgulhoso dos patriotismos. Ainda vamos a tempo !

Uma pergunta adicional:
- Quando se lembrará a Igreja Portuguesa de enviar, de novo, missionários portugueses para a Tailândia ?
NB: Não vão as más línguas e os entusiastas da difamação encapelar-se com a utilização "indevida dos dinheiros públicos em tempos de crise", aqui fica o esclarecimento que o dinheiro aplicado nesta obra foi total e exclusivamente angariado num jantar promovido pela Embaixada de Portugal em 2007. Outros se seguirão. A caridade - não se tema a palavra - faz-se com o coração, mas também com dinheiro.

22 fevereiro 2010

1767: a revolta dos portugueses escravizados


Cena do quotidiano em Ayutthaya. Um mundo desaparecido.
Nos últimos dias de Ayutthaya assistiu-se à dissolução por inteiro do corpo de uma sociedade. A capital de 300.000 habitantes entrou em colapso, incêndios que ninguém combateu comeram até às fundações templos, palácios e armazéns, houve saque generalizado das reservas de víveres , brutais matanças às mãos dos invasores birmaneses e muita gente fugindo em grupos para os bosques infestados de animais selvagens ou percorrendo os caminhos dominados por bandos de ladrões. O rei siamês foi abandonado pelo séquito nas imediações da sua capital e morreu de doença e desidratação. O exército desintegrou-se. Ao ocuparem as últimas bolsas de resistência, os birmaneses deram aos sobreviventes duas semanas para que se preparassem para evacuar a região e rumassem em direcção ao cativeiro na Birmânia. Os sobreviventes da missão francesa, dirigidos pelo bispo Mgr. Brigot, concentraram-se no campo português, já então completamente calcinado pelos birmaneses. Aos católicos juntaram-se outras comunidades - Mon, Peguanos, Vietnamitas católicos e Japoneses - tendo-lhes sido transmitida análoga ordem de evacuação. Os católicos luso-siameses fizeram saber aos birmaneses que recusavam submeter-se à autoridade do bispo francês e que tinham como líderes espirituais os padres portugueses Isidoro da Conceição e Bernardino Salema.

Quinze anos ininterruptos de guerra anti-birmanesa. Os mosqueteiros são, obviamente, cristãos luso-descendentes.
Os padres franceses juraram ali fidelidade aos novos senhores e aceitaram a ordem de evacuação e cativeiro. Esperava-os, porém, uma marcha da morte de oitocentos quilómetros por montanhas e alcantilados densamente arborizados. As colunas de prisioneiros foram avançando penosamente em direcção a Oeste, atormentados pela fome, pela sede e sempre agredidos pelos seus carcereiros. A via sacra durou seis meses e nela padeceram milhares. Ao chegarem a Tavoy, na costa do Mar de Andaman, tamanha era a fome que ocorreram casos de canibalismo. A coluna de Brigot só sobreviveu graças à ajuda caridosa recebida das missões católicas portuguesas em Tenasserim. Os adversários reconciliavam-se na hora da dor. Ao invés de aceitarem o infortúnio, partilhando-o com o seu rebanho, os padres franceses conseguiram transporte para Pondicherry- colónia francesa no sudeste indiano - e abandonaram à sua sorte aqueles que neles haviam confiado; em suma, uma excelente lição de abnegação e dedicação missionárias.


Museu Nacional de Banguecoque. Objectos recuperados no bandel português de Ayutthaya.

A coluna portuguesa iniciou marcha em direcção à Birmânia em Maio de 1767. A comunidade mantivera-se unida e mantinha a liderança, pelo que ao longo do trajecto foram discutindo a melhor forma de se furtarem à vigilância do batalhão birmanês que os acompanhava. Após três semanas, numa noite escura, os portugueses manietaram os guardas, mataram-nos e puseram-se em fuga. Ao ser informado desta rebelião, o comandante birmanês da região foi acometido de grande ira e deu ordens às tropas para que massacrassem todos os portugueses internados nas matas. Dois generais birmaneses, com numerosos efectivos, foram lançados no encalço dos fugitivos. Para os portugueses foram nove longos meses de marchas nocturnas e pausas diurnas. O inimigo rondava e o silêncio e a imobilidade constituiam a melhor máscara. Ao cair do sol, retomavam o caminho em direcção a leste. A morte foi reclamando vidas. Dos mil saídos de Ayutthaya, só sobreviveriam 300 quando, em Abril de 1768, andrajosos e famintos, chegaram à actual Banguecoque.

No Sião, um novo homem forte revelara-se. O general Sin, mestiço sino-thai, organizara a resistência ao ocupante e instalara o seu quartel-general em Thonburi, hoje cidade satélite de Banguecoque situada na margem oposta do rio. Os portugueses de Ayutthaya instalaram-se provisoriamente em torno de uma igreja em Sam Sén pertencente ao Padroado. Este templo alberga hoje uma das mais sólidas comunidades luso-descendentes e dá pelo nome de Igreja da Conceição. Thaksin (Sin) foi informado da chegada desses portugueses e deu ordens expressas para que se apresentassem em Thonburi. Deu-lhes terra (Campo de Santa Cruz) e materiais para que ali erigissem uma igreja. Os membros da comunidade depressa se destacaram pelo destemor nas batalhas, pelo que o rei Taksin entre eles escolheu os setenta e oito mais bravos e deles fez a sua guarda pessoal. A guerra que faziam sem pausa nas hostes do rei não era, porém, reconhecida pelos padres franceses que, de novo, haviam aparecido para reclamar os direitos sobre a Missão do Sião. As mais agrestes, injustas e infames páginas foram então escritas e enviadas para França pelo padre Corre e companheiros. A estas intempestivas considerações, a comunidade virou-lhes as costas. Imaginemos, pois, a fúria de tão bons pastores quando, em Maio de 1770, o Rei siamês em pessoa visitou o campo cristão e fez aos franceses os mais rasgados elogios aos "meus portugueses". Disse: "estes homens nada sabem de saques, são fiéis e bravos e têm a protegê-los a mais antiga religião do mundo" (Carta de M. Corre aos directores do Seminário das Missions Étrangères. AME, vol 886, p. 445).
Depois, foram doze anos de campanhas militares no norte, no sul e leste. O Sião ia despertando e reapossando-se das regiões que se haviam furtado à sua autoridade após o colapso de Ayutthaya. Nessas batalhas sem fim, a comunidade luso-siamesa esteve sempre na dianteira e pagou pesado tributo à morte. Na correspondência dos missionários franceses evidencia-se este estado permanente de mobilização. Numa das cartas, o padre francês afirma que "em Thonburi só há mulheres e crianças, pois os homens [cristãos] estão permanentemente fora, entregues a missões de guerra longe de casa".
Esses Rebelos, Cruz, Martins, Soares, Silvas, Baptistas e Fernandes morreram um pouco por todo o Sião. Ao regressarem, os sobreviventes encontraram as suas famílias entregues a pobreza extrema mas, como lembra o insuspeito padre francês, sempre com o mesmo incorrigível orgulho português. "Uma jovem rapariga foi pedida em casamento por um rico mandarim (funcionário do Rei). Ao receber o convite, respondeu-lhe generosamente que a posição de cristã era superior à sua [do mandarim] e que ela não sacrificaria a sua qualidade a todas as riquezas do mundo e que mais facilmente se casaria com um pobre cristão que com um rei gentio".Dizimada e reduzida a 1/5 do seu efectivo inicial, esgotada pelas provações e isolada do mundo exterior, a comunidade não desertou, recusou-se servir o inimigo e manteve-se leal ao poder siamês. Carregando prestígio de cicatrizes e louros de vitória, seria ao longo dos próximos oitenta anos um dos mais vigorosos pilares do Sião pré-moderno.Pena que esta e outras histórias não tenham acolhimento nos manuais escolares portugueses.



André, pescador, 75 anos de idade, um dos últimos portugueses residentes no Ban Protuguet em Ayutthaya.