20 fevereiro 2010

Ayutthaya, 1767: aqui lutou-se até ao último grão de pólvora

Maquete de Ayutthaya fora-de portas no século XVII. À direita, o bandel dos portugueses.

A convite da nossa leitora de Português em Banguecoque, a activíssima e já muito respeitada Luísa Dutra, passei hoje o dia em Ayutthaya, antiga capital do Sião onde, até 1767, residiu forte comunidade católica luso-siamesa. A visita de estudo inscreve-se nas actividades culturais da nossa embaixada e foi largamente correspondida por uma quarentena de amigos de Portugal, luso-descendentes, alunos de língua portuguesa e até funcionários da nossa embaixada. Tudo está a ser feito para, em crescendo de actividades, se celebrar aqui em 2011 o meio milénio de relações entre a Tailândia e Portugal. Pediram-me - a Luísa Dutra e a Pralom Bunrasamee, tradutora de português e também professora - que apresentasse sumariamente aos participantes o bandel português e fizesse o historial daquele que foi, até à sua completa destruição, um dos mais fortes núcleos de população católica em terras da Ásia até finais do século XVIII.

Nas ruínas do Ban Protuguet

Ao invés de uma aula de história, preferi, como é meu timbre, fazer um exercício de "patriotismo científico" e contar-lhes, sem lenda nem ficção, os derradeiros dias dessa orgulhosa gente numa luta sem quartel e sem esperança na defesa do seu Rei (o Rei do Sião), da sua religião (o catolicismo) e da sua casa (Ayutthaya). A aldeia portuguesa situava-se fora de muralhas e tinha como edifícios axiais o templo dominicano, a igreja franciscana e o seminário-templo dos Jesuítas. Quando a sorte se inverteu contra Portugal em meados do século XVII e um a um caíram os grandes centros da actividade portuguesa na Insulíndia, populações católicas luso-descendentes de Celebes e Malaca afluíram a Ayutthaya em busca de segurança. A população do Ban Protuguet ascendeu a 4000 ou 5000 pessoas devidamente comandadas por um Capitão eleito pelo povo cristão e confirmado pela corte siamesa.

Evocação de uma das glórias militares portuguesas em terras do Sião

A Este do Ban Protuguet, na margem oposta do rio Chao Phrya, situava-se a aldeia japonesa, quase inteiramente integrada por católicos fugidos às perseguições anti-cristãs do Japão dos Tokugawa. A Oeste, encontrava-se o seminário-igreja de Saint Joseph, que os padres missionários franceses haviam estabelecido na década de sessenta do século XVII após inúteis tentativas de submissão dos portugueses. Os franceses, coitados, com ou sem bula papal, pouco ou nada conseguiram fazer no Sião e resignaram-se a intrigar junto da Santa Sé, da corte do Rei Sol e dos reis siameses contra aquela gente que recusava trair a fidelidade ao Padroado. Como lembrou recentemente Alain Forest, a missão francesa no Sião entreteve-se em receber e formar catecistas vietnamitas no Sião e a ensinar a língua vietnamita aos sacerdotes franceses. Nunca foram obedecidos nem estimados pelos católicos siameses, pois desde cedo exibiram uma confrangedora ignorância sobre as características do meio e dos mecannismos profundos da organização social siamesa, para além de confundirem o seu papel de missionários com os objectivos da diplomacia francesa.

Dois luso-descendentes, satisfeitíssimos

Ora, quando nas primeiras décadas do século XVIII Ayutthaya perdeu a força de grande potência no Sudeste-Asiático e emergiu a belicosa e expansionista dinastia Konbaung na Birmânia, as populações do mandala siamês foram expostas a um inimigo que fazia tábua-rasa da cultura política das relações internacionais da região e que exercia a guerra como única modalidade da acção externa. O fundador dessa dinastia, Alaungpaya, conhecido pelos métodos brutais de aniquilamento dos estados vizinhos, após reduzir a cinzas o Pegú, invadiu o Sião em 1759 e assediou Ayutthaya. A investida, brutal e sem qualquer respeito pelas convenções da guerra, plasmadas pela doutrina budista que aconselhava batalhas-torneio entre voluntários, em vez de choque entre exércitos, deixou os siameses aterrorizados. A guerra que o gigantesco exército birmanês trazia era inteiramente nova. Não visava troféus, mas o aniquilamento completo do adversário, lançava mão de massacres sistemáticos, destruição integral de cidades, vilas e aldeias e redução à escravidão dos sobreviventes; em suma, uma guerra norteada pelo intuito de infundir terror e desertificar regiões. Em 1760, já às portas de Ayutthaya, o exército birmanês foi detido precisamente no Bandel Português. A oposição que encontraram foi tão dura, as perdas dos atacantes tão grandes que Alaungpaya deu instruções de retirada. Nas últimas horas, já as suas tropas retiravam desordenadamente ante a contra-ofensiva dos portugueses, o rei birmanês caiu por terra, fulminado pelos estilhaços de uma peça de artilharia que explodira ao fazer fogo sobre o Ban Protuguet. Ayutthaya salvara-se pela resistência e grande sangue frio dos católicos ante o mar birmanês.


Os restos do grande templo no coração de Ayutthaya
Os birmaneses lamberam as feridas e reorganizaram-se. Em 1765, um imenso exército, agora comandado por Hsinbyushin, filho de Alaungpaya, invadiu de novo o Sião disposto a reduzir a pó a capital do Sião. A cidade estava exangue, o seu comércio declinante e lutas intestinas haviam enfraquecido Ayutthaya, pelo que, de novo, os birmaneses avançaram sem dificuldade até às muralhas da grande capital. Os bastiões foram guarnecidos com católicos do Ban Protuguet, mas os restantes habitantes do bandel, fora de muralhas e expostos a grande perigo, recusaram-se abandonar os seus templos e aí se barricaram. Resistiram a todas as investidas birmaneses, causando-lhes milhares de mortos. Incapazes de derrotar os católicos, atacaram o aldeamento japonês na outra margem, reduzindo-o a escombros, destruindo depois as feitorias inglesa e holandesa da VOC. Muitos japoneses, holandeses e ingleses atravessaram a nado o rio e procuraram refúgio na aldeia portuguesa. A esta afluiram também muitos peguanos e chineses que tinham os seus bairros nas proximidades. Ayutthaya ardia e os soldados siameses já não obedeciam, fugindo para evitar o extermínio. O Ban Protuguet resistiu durante seis meses a bombardeamento de artilharia e ataques frontais da infantaria, elefantes e cavalaria birmanesas. Nos últimos dias de Março de 1767, sem víveres e sem munições, os portugueses aceitaram depor armas. Era o último reduto de resistência. Ao contrário das promessas do inimigo, mal entregaram as armas, homens, mulheres e crianças foram severamente agredidos, alguns mortos ali mesmo e os restantes reduzidos à escravidão. Dessa outra história, também exaltante, daremos conta noutra ocasião.

Monge budista no Wat Phra Ram (Templo de Buda-Rei)


Hoje, junto do cemitério onde jazem cerca de 200 restos mortais de luso-siameses, evoquei essa tragédia. Aquela gente lutou até ao último grão de pólvora e não vacilou ao decidir lutar pela sua liberdade. Uma lição de heroísmo que integra as mais vibrantes páginas da saga portuguesa nos confins desta Ásia que celebrará proximamente a aliança na paz e na guerra entre dois povos. Os luso-siamses terão compreendido perfeitamente o sentido daquela façanha que hoje evocámos. Os tailandeses, todos falando um excelente português, compreenderam, também eles, que os portugueses não vieram aqui apenas para fazer business pois, chegada a hora decisiva, lutaram ombro a ombro com os siameses na defesa da terra comum, não deixaram cair a bandeira e não tentaram, como outros, fugir e salvar os cabedais. Morreram pela sua liberdade; é tudo. Isto merecia uma coprodução épica luso-tailandesa ou o nome de uma avenida lisboeta: Avenida dos Heróis de Ayutthaya.Há quem pretenda espezinhar, ridicularizar e até fazer esquecer aos portugueses a grandeza e a honra de o serem. Só quem não for digno do nome de Portugal pode persistir em negar a esta nação as mais vibrantes páginas da história da nossa civilização.

19 fevereiro 2010

Disfuncionar


Greve geral da função pública marcada para dia 24. O Estado comendo a sua própria cauda, os postos de trabalho mais seguros dando o exemplo. Aumentos ? Claro. Descongelar acesso a carreiras ? Naturalmente. Em 1973 eram 150.000. Nessa altura fazia-se tudo com caneta na mão, teclado de aço e papel químico. Portugal tinha 2.000.000 km2 e 25.000.000 de habitantes. Hoje, com 89.000 km2, soberania evacuada e muito computador, são 700.000. Pedem aumentos. É a soltura. O país pode andar aos caixotes de lixo, mas o Estado é rico e os seus funcionários pedem mais. Uma vergonha.

18 fevereiro 2010

Exaustos, já sem a azeitona e a cortiça


Aquilo que caracteriza os portugueses neste fim de década é a exaustão. Depois de quarenta anos de caprinas exaltações, nervos à flor da pele, objectivos jamais alcançados, rios de teoria - ah, como somos bons nas abstrações, no poetar e na filosofice sem dabedoria - descobrimos que não demos um só passo consequente, que tudo foram palavras mascarando fantasias e fantasias mascarando inconfessáveis interesses, bem comezinhos, de conforto, promoção de mediocridades, apossamento e potlatch. Ao longo desses trinta e três anos que por aí vivi, assisti ao desfile interminável de homens do destino, de grandes estadistas, grandes ideias e programas, cada um acenando com a promessa da próxima vinda do "país novo", do "tempo novo", do "agora é que é". O país mudou, sim senhor: tornou-se mais provinciano, mais pequeno, mais medroso, mais alienado, mais dependente. O comportamento dos portugueses sofreu, também, uma metamorfose: irritabilidade, desconfiança, maledicência, inveja, impotência. Depois, o poder das baratas - baratas para todos os gostos - trepando, impondo a sua visão do mundo e de um Portugal reduzido à dimensão das baratas. Vi tudo isso. Assisti à morte daquela brilhante geração nascida nos anos 20, à sua substituição pela geração nascida nos anos 40 - aquela que dizia poder fazer do país uma Suécia e nos deixou atrás do Chipre - e, depois, ao triunfo da "Geração Rasca" que, helás, aí está para mandar. Foi como se tudo sofresse encolhimento, uma redução de escala: pessoas pequenas tiranizando pessoas pequeníssimas, ideias pequenas manipulando aspirações miniaturais embaladas no celofane das europas, das cidadanias, do Estado de Direito, dos rendimentos mínimos garantidos, mais a crendice das "novas tecnologias", das inovações e das novas oportunidades. A tecnocracia só podia trazer disto a um país que se regera sempre pelo princípio da hierarquia, da cadeia do comando e da necessidade de uma elite que nascera com a cultura de mandar. Isso perdeu-se. Brincávamos, em 1975, com a perspectiva de ver um grande território como Moçambique submetido a um auxiliar de enfermagem. No fundo, nós estávamos condenados ao mesmo. Quem em nós passou a mandar foram os auxiliares de tudo e mais alguma coisa. Agora, há que pagar a factura, mas já sem a azeitona e a cortiça que foram o nosso petróleo e o nosso ouro.Tirem-nos deste filme de horror !


Thin Red Line

17 fevereiro 2010

66: o dia em que mataram o espírito da Europa

A Europa não morreu num dia: foi sangrando ao longo daqueles quatro anos e meio que precederam a morte ritual que ontem cumpriu o cabalístico 66º aniversário. Naquela manhã, o mosteiro de Cassino, que fora o último altar de Apolo antes de se transformar na glória do monasticismo ocidental e da reconquista da potência do espírito sobre a bruta força da barbárie que destruíra a civilização latina, desapareceu sob uma chuva de bombas. Em Varsóvia, Roterdão, Londres, Hamburgo, Berlim, Hanôver, Frankfurt, as bombas romperam ruas, arrasaram prédios, bibliotecas, museus, hospitais e fábricas, queimaram gente viva refugiada em cisternas e tunéis; uma guerra total - a primeira guerra integral onde não contava o direito da guerra, a separação entre frente e rectaguarda, a distinção entre militares e civis - feita contra as pessoas, os seus objectos, afectos e meios de subsistência. Nas batalhas do Leste, choque entre as duas "causas sagradas" do nazismo e do comunismo - duas formas do mesmo gene, como lembra Besancon - perdera-se em definitivo a velha ideia medieval que lembrava serem os inimigos, os prisioneiros e os feridos portadores de direitos. No Arquipélago de Hitler, em tudo análogo ao Gulague, a tecnologia do absurdo, no conforto da racional assepsia dos gabinetes de gestão, com os seus arquivos, horários de comboios, pontualidade, método e logística irrepreensíveis, a aplicação da morte passou a ser entendida como uma forma de produção.

A morte de Cassino foi mais, muito mais que isso. Foi a confirmação que o mundo ocidental se preparava para abandonar o palco da história, que os fundamentos mais sólidos da Europa se quebravam e que não mais se poderia voltar atrás. Foi, em tudo, um crime perpetrado com o mais insensível e grosseiro praticismo aprendido nas academias militares: meios, objectivo, acção.

Era como se os alemães se tivessem entrincheirado na Acrópole ateniense, na Praça de S. Pedro, na Biblioteca de Paris ou na Pinacoteca de Munique e alguém, indiferente ao valor patrimonial daqueles lugares, não vacilasse um segundo que fosse na emissão da ordem de extermínio. Há quem diga que o espírito a tudo sobreleva. Mentira, o espírito também morre. Morreu ali, naquela manhã o espírito do Ocidente. O que ficou ? Muito pouco no meio da abundância de mercados, consumo e dessa "felicidade" que termina onde se levantam as grandes e eternas questões que assaltam qualquer homem.

14 fevereiro 2010

"Destruam os portugueses"


Os padres franceses detinham as bulas do Vaticano e invocavam ordens expressas pontifícias que determinavam que os cristãos luso-siameses se deviam submeter aos vicários apostólicos gauleses. O povo cristão queria padres portugueses, queria o catecismo e as homilias em português, não confiava nos missionários enviados de Paris. A guerra durou mais de um século. Começou em Ayutthaya, capital do Sião conquistada e destruída pelos birmaneses em 1767, propagou-se para Thonburi, nova e efémera capital do Sião entre 1768 e 1782 e continuou em Banguecoque. Foi uma luta tremenda, com os bons padres franceses a administrarem punições, impedirem o acesso dos "cismáticos" aos lugares de culto, recusando todos os sacramentos e, até, sepultura cristã para os desobedientes.


O povo cristão recorreu à ocupação das igrejas, chamou um padre português e declarou guerra aos representantes das Missions Étrangères, numa tal sucessão de altercações que o governo siamês foi obrigado a intervir na contenda, tomando partido dos protuguet. Em Abril de 1789, o conflito atingiu o auge. Os protuguet recusaram-se ir à missa, deixando os padres franceses sós celebrando a liturgia, não obstante todas as tentativas de apaziguamento do sacerdote português em encontrar um modus vivendi. Cinco anos passaram e a Missão do Sião era, de facto e de novo, uma missão portuguesa: de um lado a comunidade, do outro padres sem rebanho. O bispo francês, Monsenhor Coudé, já dera provas suficientes de inabilidade em Kedah e em Pukhet. Queria impor, queria limpar a igreja católica siamesa de todas as "impurezas" de "desbragamento" e "idolatria"; em suma, queria católicos segundo o cânone tridentino. Em 1784 dissera, ufano, que "je me suis appliqué à détruire leurs idées, leurs manières et leur langue portugaise".

Assim se fez no Sião, como no Tonkin, no Camboja e na Birmânia: a Igreja Católica declarando guerra aos católicos, matando o esforço de séculos de missionação e tratando os luso-descendentes - os únicos católicos, pois que os budistas jamais se convertiam - como inimigos. Foi um etnocídio. Matar a língua, insultar as crenças e destruir a cultura acaba por matar um povo e é, por vezes, mais eficaz que um massacre.