
เพลงมหาชัย
*: Os ordenados que Chitralada paga aos seus funcionários é superior em 50% aos vencidos pela generalidade dos trabalhadores agrícolas do país.



Disse-me que a Alemanha está perdida, que do velho prussianismo já pouco ou nada resta, que da ordem, do culto do trabalho e da respeitabilidade outrora obtidos pelo esforço já só subsistem migalhas. Vivemos em preiamar do multitudinarismo, somos todos iguais, já não há regimentos que protejam as instituições que fizeram o orgulho e a força da Europa, tudo está contaminado pela preguiça, pelo trepadorismo e pela cobiça. Em suma, foi o que deu a colonização cultural americana. Ao chegar a casa, um mail do Nuno, perguntando-me se conhecia um texto, recentemente publicado, que versa, precisamente, o desaparecimento da Europa nos palcos das grandes negociações.
Khun Jakkrit Wang Ngam é daquelas pessoas que aliam uma espantosa cultura enciclopédica - o homem fala de Filosofia, de arte e literatura ocidentais, de história siamesa e de cultura popular, de espiritualidade budista e de arquitectura com a desenvoltura de académico - à luta pela preservação da cultura thai, tão emeaçada pelo avanço da parvalhização globalizadora. Tenho passado horas discutindo um dos temas que mais o apaixonam e que se cruza com o trabalho que vou realizando em Banguecoque sobre o encontro de duas culturas que em 2011 se celebrará por ocasião dos 500 anos de relações diplomáticas entre Portugal e o Sião. Jakkrit trabalha no magno projecto de inventariação, estudo, restauro e preservação da arquitectura vernacular siamesa e tem-se debruçado ultimamente sobre o "sino-português" na região. Os seus estudos, croquis e desenhos, de um pormenor que excede as possibilidades da mera fotografia, são tecnicamente admiráveis, mas transportam igualmente uma consciência identitária que vai somando argumentos para destronar os mitos do "desenvolvimento", do "progresso" e da "modernidade" que tantos males causaram à paisagem urbana tailandesa.
O trabalho que vai realizando nos núcleos urbanos ameaçados pelo camartelo da especulação imobiliária, o entendimento do ethos siamês que possibilitou, durante séculos, soluções adequadas às condições climatéricas, às necessidades e ritmos inerentes a uma visão do mundo, do trabalho e até do ócio, é um manifesto em defesa de um modelo de homem e de sociedade que a tecnocracia de vistas-curtas quis substituir a marchas forçadas pelo horrendo do vidro, do aço, do betão, do ar-condicionado e dos colarinhos brancos. Quando lhe mostrei o trabalho que estou a fazer, disponibilizou-se para me facultar preciosa ajuda na definição e enumeração das marcas da arquitectura de inspiração portuguesa nos bairros católicos de Banguecoque..jpg)
Pedi-lhe que pensasse num curta monografia sobre o "sino-português-siamês", pois colaboradores desta qualidade são raros e importa não os perder. Há que encontrar novas vocações lusófilas, integrá-las em equipas multidisciplinares e promover jovens artistas, tradutores, arquitectos, historiadores e investigadores para fazer de 2011, não a evocação nostálgica de glórias imperiais, mas o ponto de partida para um novo relacionamento luso-tailandês. Estes são os "últimos samurais" de uma ideia de cultura que nos cumpre defender contra o nada de uma certa planetarização plutocrática feita sem ideias, desrespeitadora de tudo que não se reduza ao dinheiro.

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