06 fevereiro 2010

Monumentos à arrogância

Uma noite sem nada para fazer, com visita a blogues amigos. Vinte minutos de entrevista de Mário Crespo a Lobo Antunes, à qual cheguei através do Corta-Fitas. Não simpatizo com o homem, nunca me entusiasmou a obra. Depois, aquele tom de profundidade ferida pela obrigação da comunicação - não aceitasse dar entrevistas ! - o desdém por outros que não fica bem a ninguém, prova de imodéstia e, sobretudo o ar, a pose, o tom de voz de quem julga estar um cinzelador a marcar na pedra da eternidade as enfastiadas palavras que o microfone suporta. Ouvi-lo é como ver um filme português: uma lassidão paralizante invade-me a cabeça, um torpor soporífero chama-me à almofada. É a tristeza, a falta de fibra e elã, um desfiar de estudados tiques intimistas que são o espelho do viver sem nada para viver em que a generalidade dos chamados intelectuais mergulha. Depois, o ar reverente, de quase adoração do interlocutor. Já vi essa pose envergonha noutros jornalistas perante os santarrões das letras, chamem-se Agustina ou Saramago. Não tenho paciência para tristezas fingidas, para cinzentos e suspiros de estúdio. Tão longe de Portugal, só encontro razões para ver nessa aristocracia das letras caseiras a narcotização dos meus compatriotas e compreender o manto de pessimismo que os mina, atirandos para os futebóis e para as telenovelas. Os intelectuais portugueses são, de facto, inimigos da cultura, do entusiasmo e da elementar curiosidade humana. Ali estão, distantes e fingidos, fazendo-se adorar e semeando o deserto.

05 fevereiro 2010

Os dois homens que destruíram a Europa


Católico, conservador e "sulista", Pat Buchanan é das poucas figuras cimeiras da política norte-americana que possui biblioteca [e a lê], possui carreira autónoma e chegou à ribalta por mérito próprio, tendo sido iminência parda de Nixon e Reagan e adversário do clã Bush. Muito polémico, quase insuportável em algumas das suas posições, não deixa, contudo, de ser ouvido. Li em tempos passagens do seu The Great Betrayal: How American Sovereignty and Social Justice Are Being Sacrificed to the Gods of the Global Economy (1998) e fiquei encantado com o seu radical pessimismo a respeito da então muito exaltada globalização. Depois, no The Death of the West: How Dying Populations and Immigrant Invasions Imperil Our Country and Civilization (2002), tocou num tema tabú e desenvolveu interessante reflexão sobre a decadência ocidental e o colapso à vista do império americano.


A sua obra mais recente, Churchill, Hitler and the Unnecessary War: How Britain Lost Its Empire and the West Lost the World, é, no mínimo, um escândalo. Não se trata de um qualquer trabalhinho de corta-cola, não reverencia, não diaboliza e oferece um poderoso feixe de razões que defendem o chamado "perturbador continental" (a Alemanha), espicaçado até extremos para uma guerra absolutamente estúpida (a Primeira Guerra Mundial) que levou à exaustão da Europa, à revolução comunista de 1917-19 e à ascensão de Hitler ao poder, em 1933. Buchanan desmonta o mito do militarismo e expansionismo alemães, executa um retrato do Kaiser que é a antítese da grotesta caricatura da propaganda da Grande Guerra, afirma que a Alemanha, coração, cérebro e músculo da Europa era, não o perturbador, mas o estabilizador continental e que não havia razão alguma para qualquer guerra entre o Império Britânico e o II Reich. Depois, vencida e humilhada a extremos pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha viu negada a revisão das cláusulas mais irracionais desse tratado, foi impedida de realizar a união aduaneira com a Áustria nos anos 20 e abandonada a Hitler. Buchanan analisa sem partis pris e afirma, com absoluta imperturbabilidade, que entre Hitler e Estaline não havia que escolher, pois ao Ocidente interessava que comunistas e nazis se exterminassem reciprocamente e que à Grã- Bretanha não cabia envolver-se no conflito pelo domínio da Europa de Leste.


A neutralidade poderia, afinal, reforçar o Ocidente e permitir um conflito posterior com Hitler, caso este saísse vencedor da luta pelo Leste, facto que Buchanan duvida. Depois, Buchanan aprofunda o tom provocatório e insinua que os interesses da Itália eram divergentes dos alemães e que a Itália, com ou sem Mussolini, era aliada natural do Ocidente se britânicos e franceses a não tivessem atirado para os braços de Hitler.


Aprofundando-se na comparação entre o percurso ideológico de Hitler e Churchill, Buchanan não vê afastamento, mas convergência de pontos de vista: militarismo, racismo, eugenismo, colonialismo e imperialismo e, pasme-se, afinidades flagrantes no delicado tema da teoria da conspiração "judaico-bolchevista". Aliás, já referido por outros historiadores, permanece a grande anglofilia de Hitler, que pretendia mimetizar o modelo do raj britânico na Índia e aplicá-lo ao Leste europeu após a vitória sobre Estaline. Para Buchanan, Hitler atacou a URSS para privar a Grã-Bretanha do último argumento para continuar a guerra. Churchill, que odiava Estaline tanto como odiava Hitler e via no comunismo um perigo tão grande ou mesmo maior que o nazismo, deu provas de miopia ao incentivar a expansão soviética após a evidência da derrota militar alemã. Em 1943, quando tudo previa a derrota a prazo dos alemães, Churchill aceitou como inelutável o domínio soviético sobre os Balcãs e em vez de refrear a ajuda norte-americana à URSS - Churchill possuía grande ascendente sobre Roosevelt - nada fez. Depois, ao invés de estimular a resistência alemã contra Hitler, minimizou-a. Finalmente, o alerta que Churchill fez em 1945, já terminadas as hostilidades, sobre a Cortina de Ferro do Adriático ao Báltico e a necessidade de revitalizar a Alemanha e transformá-la na barreira contra a expansão do comunismo, surgia como uma contradição, ou, se quisermos, a assunção de bom senso que já não podia reparar a ruína do Império Britânico e a destruição do Euro-Mundo.


Battle of Britain

04 fevereiro 2010

Desolação


Uma longa tarde de trabalho na companhia de um alemão, já septuagenário, cheio de verve, raciocínio sem adamascados, pragmático e carré como um relógio. A conversa percorreu caminhos vários e abordou-se, como não podia deixar de ser, o drama da Europa, das suas fragilidades, medos, egoísmos pequenos como ervilhas, manias e sufocante vaidade. O afundamento do Ocidente é um facto, mesmo que teimemos em cobrir a decadência com decentes perorações sobre diálogos inter-civilizacionais, globalizações "societárias" e "permutas" culturais. Lembrou-me, e bem, que a tragédia europeia é humana. Onde antes havia Escola - e na Universidade só entrava quem fazia em pleno as condições da Escola; a capacidade de raciocinar, o saber pensar e formalizar um discurso, o domínio das grandes línguas que foram berço daquilo a que hoje chamamos a tradição intelectual ocidental - hoje há gente, muita gente exibindo títulos que são um insulto a quem os detém e uma sentença de morte na credibilidade de quem os atribui.

Disse-me que a Alemanha está perdida, que do velho prussianismo já pouco ou nada resta, que da ordem, do culto do trabalho e da respeitabilidade outrora obtidos pelo esforço já só subsistem migalhas. Vivemos em preiamar do multitudinarismo, somos todos iguais, já não há regimentos que protejam as instituições que fizeram o orgulho e a força da Europa, tudo está contaminado pela preguiça, pelo trepadorismo e pela cobiça. Em suma, foi o que deu a colonização cultural americana. Ao chegar a casa, um mail do Nuno, perguntando-me se conhecia um texto, recentemente publicado, que versa, precisamente, o desaparecimento da Europa nos palcos das grandes negociações.


Como a devida vénia ao Nuno, transcrevo o diagnóstico que faz, com o maior acerto e clareza, sobre este lento apagar da Europa, o qual subscrevo sem retirar uma vírgula.

"É verdade e isso tem muito a ver com a falta de capacidade de respostas que o sistema político/social em que vive a Europa é capaz de dar. O advento e importância dos media tudo mudou. Hoje em dia quem transmite ideias é o YouTube, quem faz opinion makers é a CNN, quem dá instrução às crianças é a Playstation ou o Google, a resposta para todas as questões. Os livros, as tertúlias, as sãs discussões não existem mais. O sistema onde vivemos não conseguiu encontrar nenhuma resposta para lidar com esta nova realidade e continuamos a viver os ideias da revolução francesa "Liberté,Egalité, Fraternité" sem que saibamos o que isso significa no Mundo actual. Passado o tempo da Guerra Fria, quando a Europa, vivendo no meio do "conflito" ganhava de ambos os lados e conseguia ainda estar à tona, agora, temos pouco. Nem os "valores" da história nem o pragmatismo das sociedades rejuvesnecidas como as Asiáticas ou os outros do BRIIC. Pior que tudo não há filósofos a levar a sério as discussões sobre o "sistema político/social" revisitando a Democracia e elaborando a partir de aí."

Hoje foi um dia em cheio daquele são pessismismo que nos leva a despetar da letargia.

03 fevereiro 2010

O sino-português, versão siamesa

Khun Jakkrit Wang Ngam é daquelas pessoas que aliam uma espantosa cultura enciclopédica - o homem fala de Filosofia, de arte e literatura ocidentais, de história siamesa e de cultura popular, de espiritualidade budista e de arquitectura com a desenvoltura de académico - à luta pela preservação da cultura thai, tão emeaçada pelo avanço da parvalhização globalizadora. Tenho passado horas discutindo um dos temas que mais o apaixonam e que se cruza com o trabalho que vou realizando em Banguecoque sobre o encontro de duas culturas que em 2011 se celebrará por ocasião dos 500 anos de relações diplomáticas entre Portugal e o Sião. Jakkrit trabalha no magno projecto de inventariação, estudo, restauro e preservação da arquitectura vernacular siamesa e tem-se debruçado ultimamente sobre o "sino-português" na região. Os seus estudos, croquis e desenhos, de um pormenor que excede as possibilidades da mera fotografia, são tecnicamente admiráveis, mas transportam igualmente uma consciência identitária que vai somando argumentos para destronar os mitos do "desenvolvimento", do "progresso" e da "modernidade" que tantos males causaram à paisagem urbana tailandesa.

O trabalho que vai realizando nos núcleos urbanos ameaçados pelo camartelo da especulação imobiliária, o entendimento do ethos siamês que possibilitou, durante séculos, soluções adequadas às condições climatéricas, às necessidades e ritmos inerentes a uma visão do mundo, do trabalho e até do ócio, é um manifesto em defesa de um modelo de homem e de sociedade que a tecnocracia de vistas-curtas quis substituir a marchas forçadas pelo horrendo do vidro, do aço, do betão, do ar-condicionado e dos colarinhos brancos. Quando lhe mostrei o trabalho que estou a fazer, disponibilizou-se para me facultar preciosa ajuda na definição e enumeração das marcas da arquitectura de inspiração portuguesa nos bairros católicos de Banguecoque.


Pedi-lhe que pensasse num curta monografia sobre o "sino-português-siamês", pois colaboradores desta qualidade são raros e importa não os perder. Há que encontrar novas vocações lusófilas, integrá-las em equipas multidisciplinares e promover jovens artistas, tradutores, arquitectos, historiadores e investigadores para fazer de 2011, não a evocação nostálgica de glórias imperiais, mas o ponto de partida para um novo relacionamento luso-tailandês. Estes são os "últimos samurais" de uma ideia de cultura que nos cumpre defender contra o nada de uma certa planetarização plutocrática feita sem ideias, desrespeitadora de tudo que não se reduza ao dinheiro.



The Last Samurai

02 fevereiro 2010

A não faltar: Joaquim Magalhães de Castro


Quando há anos abri por acaso, no meu gabinete da Biblioteca Nacional, o Bayingyis do Vale do Mu, admirável obra de Joaquim Magalhães de Castro sobre a comunidade luso-birmanesa ainda existente na Birmânia, fiquei deslumbrado. Nessa altura, por alturas do Natal, tinha programada uma visita a França, pelo que resolvi oferecer um exemplar a um amigo parisiense, antropólogo muito afeiçoado aos temas do Sudeste-Asiático. Ao abrir a prenda, o Henri parou, folheou demoradamente o livro, sentou-se e pausadamente disse: "não há máquina fotográfica alguma que consiga captar o que este homem conseguiu fazer".

Pois, Magalhães e Castro apresentará ao longo das próximas semanas o seu Mar das Especiarias, que pressinto ser outra obra-prima vibrante desse portuguesismo sem nostalgia imperial que tanto me sensibilizou. Que os meus amigos e leitores não deixem de comparecer, depois de amanhã, à apresentação que terá lugar no Palácio da Independência.

Sessões de apresentação do livro «Mar das Especiarias» em Portugal, no mês de Fevereiro:

- Dia 4 de Fevereiro, Palácio da Independência, Lisboa, pelas 18:30.Com apresentação do historiador Jorge dos Santos Alves, Universidade Católica.
- Dia 6 de Fevereiro, Salão das Termas, Caldas de São Jorge, pelas 20:00.Com apresentação do médico e escritor Miguel Miranda.
- Dia 7 de Fevereiro, FNAC do Norte Shopping, Porto, pelas 17:00.Com apresentação do historiador Jorge Fernandes Alves.
- Dia 13 de Fevereiro, Biblioteca Municipal, Santa Maria da Feira, pelas 18:30.
- Dia 19 de Fevereiro – Convento Corpus Christi, Gaia, pelas 18:30. Com apresentação do historiador Vítor Teixeira, da Universidade Católica do Porto.

01 fevereiro 2010

Espalhar mentiras sobre reis


O padre Vicenzo Sangermano da Arpino foi um missionário italiano barnabita de Milão que na Birmânia desenvolveu apostulado entre 1783 e 1806. Ao regressar à Europa, deixou para a posteridade uma importante obra intitulada Relazione del regno Barmano (1833), que permanceu durante quase um século como referência obrigatória para o conhecimento da cultura, instituições e vida política birmanesas dos séculos XVII e XVIII. Desta, li a versão inglesa de 1893 intitulada The Burmese Empire a Hundred Years ago, há poucos anos reeditada e que é merecedora de estudo atento. O padre Sangermano era um erudito e, para mais, conhecia em profundidade a língua birmanesa, sendo o seu livro um belíssimo sumário sobre cosmologia, cosmografia, antropologia e sociologia do velho Reino de Ava. Ora, os barnabitas dependiam da Congregação da Propaganda Fide e desta receberam importantes tarefas de evangelização na China e na Birmânia, tendo como parceiros a Société des Missions Étrangères de Paris, irredutível adversária do Padroado Português. Na Ásia, italianos e franceses desenvolviam tenaz luta contra os padres portugueses, pelo que desta aliança nasceu grande cumplicidade, troca de informações e até campanhas conjuntas nos corredores do Vaticano.


Os barnabitas, tal como os missionários franceses, possuídos de um fogo de agressiva intolerância, semearam por toda a Ásia atritos com as cortes que lhes haviam dado a devida permissão para a evangelização. Ao contrário dos portugueses, que conheciam os modos e sabiam manobrar sem levantar ódios gratuitos, franceses e italianos chegaram à Ásia sem mudar uma vírgula ao triunfalismo incandescente de Trento, pelo que depressa a benevolência se transmutou em perseguições sistemáticas, da China ao Sião, do Vietname à Birmânia. Quem pagava a dura factura eram, naturalmente, as comunidades católicas já existentes e construídas pelos padres portugueses de Quinhentos e Seiscentos.


Os zelosos padres mostravam-se estupefactos pelas perseguições e tentaram explicá-las como reacção do demónio perante expansão da verdade cristã. No Sião do terceiro quartel do século XVIII, o embate entre as autoridades e os padres franceses teve consequências desastrosas para a Igreja Católica. Contam as crónicas francesas - sobretudo a monumental Histoire génerale de la Société des missions-étrangères (1894), de Adrien Launay - que o então rei siamês, Taksin de seu nome (r. 1767-1782) desenvolvera terrível perseguição aos cristãos. Ora, se perseguições houve contra católicos, estas resumiram-se aos padres franceses, posto que a comunidade católica, quase inteiramente constituída por luso-descendentes continuou a ser acarinhada pelo rei. Taksin, que encontraria morte violenta no rescaldo de um golpe de Estado, tinha a defender o palácio a sua guarda de católicos portugueses. Se, como diziam as más línguas - vide Turpin, Histoire civile et naturelle du Royaume de Siam, et des révolutions qui ont bouleversé cet empire jusqu'en en 1770 - o rei era inimigo da religião católica, por que raio escolhera como guarda-costas homens dessa religião ? Depois, escreveram as mais mirabolantes estórias. Disseram, entre outras, que Taksin exigia ser adorado como um deus, que mandara matar muitos monges budistas que se haviam recusado prestar-lhe homenagem devida ao Buda, que dizia poder voar e tornar-se invisível. Todas essas histórias, de tão repetidas, acabaram por convencer os cronistas siameses de finais de Oitocentos. As crónicas tailandesas foram, como é sabido, despojadas de todo o manto de milagres, acontecimentos sobrenaturais e batalhas de anjos e convertidas, em finais do século XIX, graças à influência da historiografia ocidental, em enumeração de acontecimentos ocorridos em cada reinado. Como lhes faltava documentação, foram buscá-la aos historiadores franceses italianos.


Estava a ler a obra de Sangermano quando, sem dar por isso, parei. Reli a passagem e espantei. Escreveu Sangermano que o Rei Bodawpaya (r. 1781-1819) "se afirmava superior a Buda, que tentou persuadir os monges [budistas] que os cinco mil anos atribuídos à observância da Lei de Godama [Gautama = Buda] haviam terminado e que ele mesmo [o Rei] seria o Deus que aparecera após o fim da era de Buda". Sem tirar nem por o que Turpin escrevera sobre Taksin e o que Launay repetiria na sua História das Missões. É estranho e a coincidência é, no mínimo, chocante. O mesmo argumento sobre a "loucura" dos reis siamês e birmanês, por coincidência homens que reinaram no mesmo período e que conheceram atritos com as missões tuteladas pela Propaganda. Afinal, parece que o odioso não pertencia nem ao Rei Bodawpaya nem ao Rei Taksin, que eram inimigos mortais, mas a um método de evangelização que cometia os mesmos erros por todo o lado onde se impunha ao velho, suave e inteligente método português de conquistar o coração dos reis e garantir a protecção e a paz às comunidades católicas.

A escrófula

As celebrações do abortado golpe republicano do Porto, mais a sessão espírita junto à tumba dos terroristas de 1908 definem a natureza de umas festividades encomendadas e bem regadas que atravessarão o ano com patéticas iniciativas, desgarradas como insignificantes, tentando selar um pacto jamais referendado entre a Nação e a tal república imposta a tiros e bombas. No fundo, o que ressuma de tudo isto é a inautenticidade do movimento republicano, a inexistência dos tão invocados "ideais" e as funestas consequências que a implantação da dita república tiveram sobre o Portugal novecentista; a saber, a instalação de uma cultura política violenta, convidativa para os entusiastas do caos ou da tirania, o apartamento da Europa, o socavar do provincianismo, um golpe mortal para a cultura popular e suas crenças, o definitivo divórcio entre o país oficial e a sociedade.

Ninguém as comemorará, pois não há republicanos nem ninguém conseguiu ainda definir os tais "ideais". A agenda das festividades, ao invés de exibir força, expõe a ficção em que o país vive desde 1910. Ninguém celebra uma dor de dentes, uma otite aguda, um panarício ou uma escrófula. A república resume-se a isso: um acidente que não foi debelado a tempo por um bom antibiótico ou por lancetamento de hábil bisturi. Ficou. O tumor não matou, mas calcificou. É um abcesso que se vai cobrindo com os piedosos paninhos perfumados ou disfarçado com cosméticos, mas não pertence ao corpo em que se instalou.

31 janeiro 2010

O povo do sanuk e das vedetas

Há uma meia dúzia de palavras e expressões que os thais usam com recorrência na língua falada, posto que na escrita, muito elaborada que dir-se-ia ser uma outra língua, são mais sofisticados na expressão de ideias e sentimentos. Se falarmos com um thai mais de dez minutos, fatais como o tempo, surgirão obrigatoriamente, semeando o discurso, os adjectivos e advérbios ดี=díí (fantástico), สนุก=sanuk (divertido), มาก=máák (muitíssimo), ความสุข=kwamsuk (alegre) e ตลก=talók (engraçado).


Este é um povo lúdico que, como dizia um atento observador britânico no século XIX, "brinca a trabalhar e trabalha a brincar". Os thais não se concentram mais de dez minutos sem uma folga de risos e inocentes brincadeiras. Dizia um professor de Filosofia ocidental de uma prestigiada universidade de Banguecoque que dava dez minutos de Aristóteles e logo, para o intervalo de sanuk, tinha de imitar o andar do Estagirita ou inventar uma rábula sobre gastronomia grega (o pão, as azeitonas e o vinho), para logo mergulhar no pensamento duro do filósofo. Em 1997, quando o país mergulhou na tremenda crise financeira que quase levou à bancarrota, uma delegação do FMI chegou a Banguecoque para discutir com o governo de então um programa de urgência que evitasse a catástrofe. Ora, em plena reunião, os ministros levantaram-se das suas cadeiras e correram para a sala contígua para assistir ao último episódio de uma telenovela cómica (talók) que então batia recordes de audiência. Durante meia hora riram-se até às lágrimas, bateram palmas, discutiram a sorte dos heróis e dos maus da fita e, depois, como se nada se tivesse passado, voltaram com ar de Estado para a mesa de trabalho.

Outra das fixações dos thais é o mundo de fantasia das estrelas. Há mil e um concursos para misses (Miss Thailand Universe, Miss Thailand World, Miss Thailand, Miss Teen Thailand, Miss Tiffany, Miss Queen International, Miss Chang, Miss Thai Tourism), sendo que os concuros para Miss Queen e Tiffany são destinado a travestis, enquanto o de Miss Chang se destina a eleger a mais bela gorda do país. Estes concursos concitam discussões acaloradas, milhões de cartas, telefonemas e e-mail's, parangonas nos jornais e revistas, cobertura em directo pelas televisões e até manifestações de torcedores. As estrelas (dárà) ocupam grande parte do trabalho da comunicação social. Há estrelas actores e actrizes (nak sadééng), há estrelas da canção ligeira (nák róng), há estrelas da moda, estrelas do desporto, estrelas da gastronomia, estrelas dos anúncios comerciais. As crianças e jovens thais vivem neste mundo de sonho de estrelato desde que abandonam a maternidade. Perto de minha casa realizam-se, duas ou três vezes por semana, os mais desvairados concursos (dança, canto, acrobacia) que mobilizam milhares de rapazes e raparigas em busca do sucesso.


Pintados e maquilhados como máscaras indianas, adornados de prata, ouro e cores berrantes, cabelos esculpidos com laca e fixador, saltam para o palco e ali estão horas seguidas desfilando e exibindo as suas graças e talentos por entre uma infernal algazarra e um mar de palmas e guinchos. Curioso, marca de elegância e civilidade, nunca ali ouvi um apupo, um insulto ou um palavrão. Os thais gostam da má língua, não na acepção ocidental, ácida e malsã, mas em comentários carregados de graça sobre a quantidade de make up que uma actriz usa para transformar a tez castanha em branca, o cabelo que terá cortado do rabo de um cavalo para a trança exótica, o cheiro a perfume que só se explica pelo patrocínio conseguido junto de uma marca de renome, o facto de não se rir porque acabou de comer nám pláá (molho de peixe, que provoca um hálito diabólico), a grande e desleixada barriga dos fói tong (fios de ovos).

Este não é, decididamente, um povo cinzento, cheio de vergonhas, esmagado pela fatalidade do castigo e do pecado. Contudo, o riso, o sanuk e a quase insuportável incapacidade para afivelar o sério desaparecem noutros domínios da vida. Não brincar com temas de religião, não tocar na monarquia, não fazer reparos sobre a história e orgulho da nação são os mais acertados e oportunos conselhos que se podem dar a um estrangeiro. Os thais não toleram o mais suave exercício de graça e irreverência. Se o estrangeiro, desavisado ou estúpido, insiste, não discutem. Afivelam um olhar duro e distante, quase de desprezo e não perdoam. Esse estrangeiro jamais será recebido ou jamais os terá como convidados do sanuk destruído pela afronta.