30 janeiro 2010

Um caso de polícia na Banguecoque de 1881


Joaquim Santana Calvário vivia am Banguecoque, bem perto da então chamada Thanon Mày (Avenida Nova), vulgarmente referida pelos estrangeiros como New Road (Charoen Krung para os thais). A zona, centro comercial e de negócios, com as suas casas em estilo colonial nas elaboradas versões neo-clássica, neo-renascentista ou até sino-portuguesa, era o símbolo daquilo a que Rama V, rei do Sião, gostava de enfatizar como a marcha do país para a ciwiláy ("civilização). Percorrendo-a hoje, não podemos deixar de estabelecer associação com as ruas da velha Singapura: traçado ortogonal, edifícios de dois ou três pisos com lojas e escritórios no piso térreo, toldos projectados sobre os passeios empedrados, consultórios médicos e escritórios de advocacia no primeiro andar, último piso destinado a habitação. A New Road era a cidade europeia. Ali se faziam negócios, localizavam-se os selectos clubes para os europeus, os teatros e restaurantes caros, os jornais em língua inglesa e os bancos.


A nascente burguesia thai, saída do alto funcionalismo, mas também os velhos aristocratas e os ricaços chineses (jáo sua) foram-se lentamente agregando aos farang, com eles estabelecendo lucrativas negociatas, criando redes de influência no seio do Estado, manobrando por autorizações, solicitando favores pagos e dividindo os enormes lucros que o import-export proporcionava. Ali se compravam e vendiam as madeiras raras, as pedras preciosas, se obtinham as autorizações para o comércio das espirituosas e do ópio, se compravam passaportes para os protegidos. Estrangeiro com ambições que quisesse enriquecer sem contrariedades pousava obrigatoriamente nesse formigueiro de homens expeditos dominados pela febre do dinheiro. Ali, tudo se comprava, vendia e negociava. Quem queria manter o seu status numa sociedade em mudança acelerada, oferecia o nome de família, os conhecimentos na corte, as habilidades que estão antes de qualquer lei escrita. Para quem queria fazer nome, pagava ao sangue azul empobrecido, ganhava a respeitabilidade de Sir ou Mister almoçando e fazendo negócios com príncipes da parentela real, com os nobres semi-hereditários, com os altos dirigentes dos ministérios ou com os multimilionários chineses que dominavam o Sião urbano.


Joaquim Santana Calvário era cidadão português. Os seus fartos cabedais conferiam-lhe notoriedade e à sua mesa sentavam-se muitos siameses de alta sociedade. O nosso Joaquim devia ser generoso e um mãos-largas, pois a ele recorriam insistentemente com propostas de negócios os Luang (equivalente a visconde) e os Nay (barões) que havia algumas décadas tinham substituído as funções "feudais" de condutores de homens pelas escrivaninhas dos corredores do Estado. Um destes Luang, de seu nome Ariyotha, em permanentes apertos financeiros, congeminou com dois Nay um arrojado golpe: extorquir por atacado ao crédulo português tudo o que este tinha acumulado ao longo dos anos e apagar o registo de calotes passados.


Convidaram-no para um jantar no chalet de Luang Ariyotha. O português chegou, mas em vez do prometido repasto, foi manietado, amarrado e raptado pelos três notáveis. Ali esteve dois dias submetido às mais duras violências. O caso era antigo. Luang Ariyotha devia uma importante soma a Joaquim, mas ia protelando o pagamento da dívida. Para além de dinheiro, pedira-lhe um escritório, fizera-o fiador para compras astronómicas e nunca pagara por qualquer destes favores de amigo. Talvez fosse melhor assustá-lo e obrigá-lo a renunciar a qualquer reclamação. O rapto fez brado, pos Joaquim conseguiu desembaraçar-se do cárcere privativo e fugiu para o Consulado Português, ali apresentando, escudado na extraterritorialidade, o caso às autoridades siamesas.


Luang Ariyotha foi detido, bem como os seus cúmplices, mas uma ordem de soltura sob fiança - possivelmente decretada por um juíz amigo - transformou um caso de esquadra de polícia num complexo processo judicial. Infelizmente, o processo perdeu-se, pois o não nos foi possível apurar o fim da história. Naturalmente, Joaquim jamais terá sido ressarcido pelos danos morais e patrimoniais sofridos e o astuto Luang e seus amigos Nay terão continuado inimputáveis por mais uns bons e largos anos de habilidades.

Conselhos de um pai

Quando nascemos com uma má estrela - no teu caso, a inteligência e o conhecimento - há que ser o mais silencioso e distante possível e, principalmente, nunca abrir o coração e a alma a quem nos rodeia. Como sabes inteligência e saber são, entre nós, ameaças que os parvonezes e os indigentes mentais castigam, largando-os como bodes expiatórios às feras e cortando-lhe pernas, braços, língua e, se possível, calcinando-lhes o cérebro.

O nosso Mundo está a ruir; caem civilizações e culturas; não vale a pena bater calçadas seja qual seja o partido ou a ideologia. Sabes muito melhor do que eu que as ideologias estão em falência, substituídas por interesses individuais e uma luta sem tréguas por empregos que já não existem para todo este mundo de gente que brota como cogumelos nestes tempos húmidos; não te esqueças que é necessário saber apanhá-los já que muitos são venenosos e, consequentemente, não se pode andar aos tortulhos de qualquer maneira.

Por favor, não comentes nada com ninguém; assim, não exacerbarás a inveja e a maldade humanas. Não fervas em pouca água. Na quase totalidade das vezes, ninguém merece isso.

29 janeiro 2010

"Os portugueses são bons militares, bons funcionários, bons médicos e bons capitães"

"Os portugueses são bons militares, bons funcionários, bons médicos e bons capitães"


Quem assim escrevia entrou na história como o mais "reaccionário", "xenófobo" e "isolacionista" dos reis do Sião pré-moderno, crisól de inverdades posteriormente disseminadas pelos adeptos do business do ópio e das esprituosas, do tráfico de coolies e da diplomacia de canhoneira. O jovem príncipe Jessadabodin era já em 1820 um experimentado político, mão direita de seu pai, o rei Rama II, que se interessava mais por literatura que pelos negócios de Estado. Jessadabodin ascenderia ao trono em 1824 e conhecemo-lo hoje por Phra Nangklao ou Rama III. Fizera o seu longo tirocínio como adjunto do Phra Khlang - ministro responsável pelo comércio marítimo e pelos contactos com os farang - e sabia de cor todos os estrangeiros que insistentemente requeriam ao Sião a "abertura dos portos ao livre comércio". O Sião tinha, obviamente, intensas relações comerciais com o mundo exterior, pelo que a tese do isolacionismo quer apenas dizer que o Sião mantinha relações económicas prioritárias com a China e defendia-se das arremetidas europeias.


Ora, o nosso Jessadabodin foi sempre um astuto político, um excelente administrador e defensor dos interesses do Sião. Sabia que os britânicos estavam em crescendo, que os holandeses não eram parceiros credíveis, mas que havia um outro povo que aqui vinha há séculos e com o qual nunca os siameses se haviam travado de razões. Cercado de servidores protuguet, o príncipe conhecia-lhes a religião, distinta da sua, sabia que detinham a lingua franca do comércio da região, que dominavam uma rede invisível mas efectiva de contactos em todos os grandes portos, de Bombaim a Calcutá, a Chittagong a de Yangún, de Penang a Malaca, que estavam na recém criada Singapura, detinham marcante influência na Batávia holandesa e ocupavam relevante vantagem ao longo do Aname e do Tonkin. Sabia que esses farang católicos tinham como líder espiritual o Primaz das Índias - o arcebispo de Goa - e que detinham o monopólio dos contactos com o govenador de Goa, o capitão-general e o Senado de Macau.


Em meados da década de 1810, recebera a corte siamesa reiterado pedido de concessão de facilidades ao comércio português. Vinte anos antes, Banguecoque era ainda um imenso estaleiro fervilhante de obras (passara a capital no ano anterior) e aqui chegara um sacerdote português, de seu nome Francisco das Chagas, com a proposta da assinatura de um tratado entre as duas cortes. Os siameses temeram que a proposta vulnerabilizasse a sua ainda precária e recém conquistada liberdade e que estes farang (portugueses) podiam ser daqueles "birmaneses brancos que adoram um outro Deus" (ou seja, luso-descendentes da Birmânia) e que aqui vinham para espiar. Como escreveu Jessadabodin, "naquele tempo, o Sião estava em guerra com os birmaneses e estes enviavam gente para recolher informações sobre nós [siameses], pelo que o Senabodin (Ministro do Interior e primeiro-ministro) detestava os estrangeiros e não confiava nos portugueses que estavam em Banguecoque, pensando que estes eram enviados e amigos dos birmaneses (...)". "Então, o Rei [Rama II] não permitiu que os pedidos dos portugueses fossem atendidos".


Tudo não passava de mal entendido pois, escreve Jessadabodin, "o govenador de Goa acaba de enviar o senhor Calos da Silveira para requerer uma vez mais a concessão de terra. O Sr. Silveira declarou perante toda a corte reunida para o ouvir que a cidade de Goa e a cidade de Macau são do Rei de Portugal e que os portugueses não se envolvem nem com birmaneses nem com vietnamitas". Julgamos que o príncipe desenvolveu toda a sua competência para resolver o problema, pois a carta que acabo de vos transcrever foi redigida no preciso momento em que o enviado português se encontrava em Banguecoque. O príncipe faz elogio rasgado aos protuguet siameses e aos portugueses e alicia os seus leitores - o Rei e os ministros - com as qualidades que aqueles possuíam. O documento que agora traduzi põe de manifesto um dos argumentos-chave da minha tese: os portugueses eram, em inícios do século XIX, uma elite entre os restantes europeus que vaguevam pela Ásia. A tese dos esfarrapados do bandel, dos alcoólicos brigões e dos piratas aventureiros cai por terra quando a investigação progride em testemunhos que abatem, um a um, os mitos que depois britânicos e franceses erigiram ao longo dos séculos XIX e XX. A História faz-se com documentos e não com opiniões. Por outras palavra, é um processo permanente de interpretação, criação e destruição de mitos.

Depois da sua morte, Rama III foi insultado, denegrido e obscurecido. Dele se disse que usurpara o trono a Mongkut, que era um tirano, que fora um acirrado anti-cristão, que a sua teimosia impediu o "progresso" do Sião. A verdade, porém, é que sob o seu reinado que o Sião atingiu a dimensão de um império, que os cofres se encheram de ouro e prata e que as armas siamesas venceram sucessivas guerras (Laos, Camboja, Vietname, sultanatos malaios). Era o tempo em que as embaixadas estrangeiras entravam de gatas e se prostravam aos pés do grande rei que só quis, a viver em Banguecoque, o representante de uma nação europeia. Essa nação era Portugal. Rama III é, sem dúvida, o meu monarca siamês predilecto.


27 janeiro 2010

Cônsul do Sião em Lisboa, testemunha ocular do regicídio


O regicídio, eventualmente o mais importante acontecimento da história portuguesa contemporânea pelos efeitos imediatos que produziu e pelas ondas de choque que ainda hoje se repercutem, teve um grande impacto na corte siamesa, que foi colhida de espanto e requereu de imediato aos seus embaixadores e cônsules na Europa detalhada informação sobre a tragédia. Da consulta da abundante correspondência diplomática a que tenho acedido, o processo respeitante ao assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe Luís Filipe parece corroborar as conhecidas versões, mas também abrir novas pistas para a compreensão dos factos ocorridos no fim de tarde daquele dia ameno de inverno de 1 de Fevereiro de 1908.


Trinta e seis horas após o crime, o Príncipe Devawongse Varoprakan, irmão do rei Chulalongkorn do Sião e Ministro dos Estrangeiros siamês, foi informado em Banguecoque da gravidade da situação portuguesa. O telegrama vinha de Paris e fora enviado pelo embaixador siamês em Paris, Príncipe Charon. Informava laconicamente que o Rei de Portugal fora alvo de atentado e que não sobrevivera. Sugeria o Príncipe Charon que o Rei Chulalongkorn fosse informado com a máxima urgência e que fosse enviado telegrama de condolências à Rainha Dª. Amélia, à Rainha Mãe [Maria Pia] e ao novo Rei D. Manuel. Na manhã seguinte, o Cônsul Geral de Portugal em Banguecoque informava o MNE siamês da ascensão ao trono do Infante D. Manuel, pedindo às autoridades siamesas que proclamassem luto em memória do Rei falecido. O titular dos Estrangeiros siamês respondeu ainda nessa tarde ao representante português junto da corte, informando-o que o Rei Chulalongkorn fora acometido de grande pesar pelas terríveis novas.

No dia 14 de Fevereiro, num longo e detalhado relatório, o Príncipe Charon dava conta ao monarca siamês dos acontecimentos. O então cônsul siamês em Lisboa, Pinto Basto, era amigo pessoal do Rei D. Carlos e fora testemunha presencial do atentado, pelo que a informação transmitida por Charon provinha de fonte absolutamente fidedigna e com acesso a altas instâncias do Estado e da corte portugueses. O Príncipe Charon, ao saber do regicidio, apanhara de imediato o Sud-Express e chegara a Lisboa ainda se faziam preparativos para as solenes exéquias. Pinto Basto lavrou o seu testemunho. Desse, avultam os seguintes elementos, que estimamos importantes:

1. Pinto Basto encontrava-se a cerca de 35 metros do landau que transportava a família real.
2. Ao iniciar-se o tiroteio, Pinto Basto correu em direcção ao centro do tiroteio e verificou que a polícia atirava em todas as direcções, tendo escapado por pouco ao fogo dos agentes, que pareciam desnorteados e incapazes de seleccionar alvos.
3. Pinto Basto participou na caçada aos regicidas e agarrou um deles, entregando-o à polícia que inexplicavelmente o abateu no próprio local.
4. Pinto Basto entrou no Arsenal e ajudou a retirar os corpos do Rei e do Príncipe Real. Verificou que o Rei se encontrava morto, pois recebera fatal disparo na medula. O Príncipe Luís Filipe agonizava e não resistiu por muitos minutos aos ferimentos recebidos.

Quanto às causas do regicídio, Pinto Basto esclarecia:
1. O Atentado não fora obra de anarquistas, mas decorrera de um vasto complot de revolucionários profissionais, bem organizados, muito bem adestrados e dotados de armamento de grande precisão.
2. A finalidade do atentado era a de matar por atacado toda a família real, bem como o Presidente do Governo.
3. Depois de desenvolver os seus pontos de vista muito críticos a respeito de João Franco, Pinto Basto não deixava de tecer elogios às reformas que o chefe do governo desenvolvia, bem como destacar as qualidades de serviço e honestidade que sempre evidenciara.
4. Os assassinos eram portugueses e alguns destes parece terem sido contratados para executar o crime. O número de criminosos envolvidos seria muito superior ao dos terroristas abatidos pela polícia. Pinto Basto afirma que ao longo de todo o trajecto havia atiradores de atalaia - todos envergando capas ou longas samarras - e que ninguém parece ter-lhes prestado atenção.
Chulalongkorn recebeu e leu o longo relatório e informou posteriormente o seu MNE que ficara muito abalado e perplexo com tudo o que lera. O Sião e Portugal iniciavam um longo afastamento que só seria emendado em finais da década de 1930.

Presidente Fonseka ?

Herói nacional e vencedor da guerra contra os Tigres Tamil, pode vir a ser o novo presidente do Sri Lanka. A contagem dos votos continua. É Sarath Fonseca, cuja linhagem portuguesa ascende ao século XVI.

26 janeiro 2010

Feu d'enfer português no velho Sião


A ordem chegou do palácio real por intermédio do Chaophraya Maha Senabodi, ministro do Kalahom (Guerra) no quarto mês (Agosto) do ano de 2380 da era budista, ou seja, 1837 da Era Comum. O destinatário, o governador da província de Thonburi, recebia instruções para mobilizar tropas destinadas a apoiar o Camboja, que se preparava para se rebelar contra o ocupante vietnamita e pedira ajuda a Banguecoque. Organizava-se grande expedição militar e fora investido como seu comandante o temível Chao Phraya Bodindecha, que anos antes (1828) fora investido de plenos poderes para reduzir a pó as veleidades independentistas de Lan Chang, ou seja, do actual Laos. Nessa terrível guerra, a hegemonia siamesa fora conseguida pelo poder de fogo do corpo móvel de artilharia constituído por peças que Wellington utilizara em Waterloo e que, após o colapso de Napoleão, haviam sido enviadas para a Ásia e vendidas aos siameses como favor pelo apoio que o Sião dera aos britânicos na primeira guerra anglo-birmanesa (1824-26).
Thonburi, hoje cidade-satélite de Banguecoque, situada na outra margem do rio Chao Phraia - como o é Almada para Lisboa - fora por alguns anos capital do Sião após a queda de Ayutthaya e aí residia uma numerosa comunidade luso-descendente em torno da sua igreja. Os católicos portugueses eram, no quadro do regime social que vigorava no Sião, algo equivalente aos servos russos do século XIX. Mas estes servos eram considerados homens livres, exigindo-se-lhes apenas que pagassem corveia de trabalho anual obrigatório ao Rei em troca de protecção. No Sião, havia duas categorias de homens livres: os Phrai Som, que tinham por senhores príncipes ou nobres semi-hereditários, e os Phrai Luang, que eram servidores do Rei. Na categoria de Phrai Luang havia uma elite, dispensada de trabalhos pesados na construção de templos e palácios, abertura de canais, pavimentação e preparação de muralhas. Este grupo de Phrai Luang - os Phrai Suay - eram artífices, engenheiros, artistas, médicos e boticários, ou especialistas na produção de pólvora, o alimento dos numerosos conflitos militares em que o Sião se encontrava envolvido: a oeste com a Birmânia, no sul com os sultanatos malaios e no leste com o arqui-inimigo vietnamita.


Maquete de Santa Cruz e do bairro português
Os cálculos demográficos a que temos procedido parecem coincidir, com uma ou outra flutuação, com os quantiativos opinados pelas missões diplomáticas britânicas e norte-americanas que tocaram o Sião nas década de 20 e 30 de Oitocentos. Em Thonburi, o número de luso-descendentes ascenderia a 600-700 pessoas, pois o efectivo militar que lhe corresponde (250 homens) parece cobrir o universo masculino de uma população integrada num regime social que era decalcado do modelo militar. Com exclusão dos idosos - a esperança de vida andaria então pelos 40 anos de idade - e das crianças, haveria cerca de 280 homens entre os 16 e os 35 anos aptos para prestar serviço militar em situação de guerra.


Recentemente acedi a um censo populacional datado de 1854. Em Thonburi, a quadrícula militar registava 256 artilheiros. Estes artilheiros tinham por função guarnecer as baterias de artilharia incumbidas de flagelar embarcações inimigas que subissem o rio. No lado oposto, na margem de Banguecoque, outras baterias permitiam varejar em fogo cruzado qualquer navio inimigo. Era, como se dizia na gíria militar do tempo, o feu d'enfer. Mais uma prova, pois, da importância que os protuguet detinham no exército siamês.

25 janeiro 2010

Honoris causa

Jorge sampaio recebeu doutoramento honoris causa. Não se trata do agraciado, mas da fórmula. Os doutoramentos honoris causa são uma flagrante contradictio in terminis, pois os títulos académicos, como as patentes nas forças armadas, as funções eclesiásticas, os cargos na função pública e todas as ocupações profissionais, do jardineiro ao apicultor, exprimem saber-fazer e mérito inerente ao desempenho. Na nobilitação profissional pela outorga de um doutoramento estão implícitos a entrega, longa de décadas, ao estudo e à investigação e a consagração plena ao conhecimento. O doutoramento - agora até se criou a figura dos "pós-doutoramento" - foi, durante centenas de anos, a mais difícil prova do percurso académico.

Com a tão gabada democratização, a Universidade deixou que se abatesse o muro de especificidade que a protegia, confundiu-se com as modas sociais e aspirações [perfeitamente compreensíveis] dos indivíduos ao reconhecimento social. Não é de estranhar, pois, que os políticos - amiúde homens sem qualquer curiosidade intelectual - vissem na Universidade um veículo angariador de reputação, pelo que no decurso das últimas décadas se assistiu à invasão da Universidade pelos profissionais da política. Homens que nunca abriram um livro e que da Universidade nunca obtiveram algo mais que um diploma, passaram a reclamar funções docentes, mestrados e doutoramentos. A invasão da Universidade consumou-se com as "privadas", onde qualquer um pode, em regime de prestações, com a conivência das inspecções do Estado, fazer em seis anos aquilo que antes requeria vinte. Acresce que tais mestrados e doutoramentos não convidam ao aprimoramento. Se compulsassemos com rigor a obra produzida pelos centos de doutores e dezenas de milhares de mestres que por aí andam, se nos dedicássemos ao trabalho de inventariação de trabalhos académicos publicados em revistas científicas pelos docentes universitários portugueses, o espanto seria, decerto, a mais tímida reacção.

Agora, com a inflação dos honoris causa, algo mais grave se acastela. É sabido que as universidades, já invadidas pela ambição dos políticos, são muito vulneráveis ao ataque do dinheiro, aos subsídios e doações. Quem dá, exige retribuição. Ora, se nos Eua a atribuição de tal título honorífico a Bush levantou um mar de protestos, se Cambridge a recusou a Derrida por considerar incompatível com o rigor das normas estatuídas, se uma universidade escocesa quase assistiu a uma batalha campal quando Mugabe foi galardoado com tal distinção, em Portugal a Universidade tem medo do Estado, dos políticos, dos partidos, dos bancos e fundações; ou seja, a Universidade vive de cócoras, submissa e aterrada com a sanção retaliatória do corte orçamental.

Continuar tal prática, sem colocar em causa casos de reconhecimento pelo esforço e qualidades de alguns dos agraciados, envolve o perigo derradeiro de mutilar, banalizando-o, o corpo de princípios que mantém a universidade. O Dalai Lama, que já colecciona umas dezenas de honoris, não deixou de exprimir o enfado por essa bagatela ritualista. Numa das encenações que lhe prepararam, bocejou longamente e, depois, adormeceu.

24 janeiro 2010

Perguntas impertinentes sem resposta


- O que andámos a fazer com os milhares de milhões entrados a fundo perdido durante quase vinte anos de cornucópia comunitária ?

- Quantos milhares de cursos de formação, linhas de crédito, incentivos, programas de reconversão, reinserção, projectos de dinamização não passaram de cortina de fumo para alimentar a ociosidade, produzir estatísticas, criar lugares que não empregos, socorrer e enriquecer amigos e familiares ?

- Quantas centenas de empresas foram criadas sem outro fito que não o de reproduzir e onerar as despesas de organismos já existentes no Estado e nas autarquias, no desporto, na animação cultural, na assistência social, na construção imobiliária, na conservação e no restauro patrimoniais, em auditorias e assessorias legais, em publicidade e na realização de eventos ?

- Como foi esse oceano de dinheiro distribuído, quem com ele deixou obra perdurável, quantos portugueses não ligados a redes clientelares e de favores, a lóbis e a camarilhas parasitárias foram premiados com tais estímulos, quantos concursos públicos conseguiram escapar à malha da viciação, quantos "ventre ao sol", "pés rapados" ou "povo miúdo" sentiram que lhes era dada a única oportunidade de se libertarem da pobreza ?

- Quantas empresas produtivas, quantas prospecções e minas, quantas fábricas, quantas explorações agrícolas rentáveis, quantos barcos de pesca foram lançados à agua ao longo dessas duas décadas de miragem abundantista ?

- Quantas universidades, institutos e politécnicos privados brotaram como tortulhos em cidades, cidadezinhas, vilas e vilórias, de Trás-os-Montes ao Algarve, produzindo centenas de milhares de licenciados em Sociologia, Línguas e Literaturas, História, Relações Internacionais, Gestão, Direito e Antropologia, quando as necessidades do país eram precisamente as inversas, desfalcando expectativas, promovendo a mediocridade e o semi-analfabetismo, dando doutoramentos, mestrados, cursos de especialização e pós-graduações que valiam tanto como os outrora Diplomas da 4ª Classe ?

- Quantos organismos do Estado continuaram a crescer desmesuradamente, criar lugares e complexificar-se sem outra justificação que o de garantir mais um lugar que qualquer software podia resolver em meia dúzia de minutos ?

- Quantos lugares foram criados para manter as fidelidades partidárias e grupistas, na AR, nas câmaras, nos institutos e fundações, no pagamento de um imposto de regime que lesou profudamente o funcionalismo e o serviço público verdadeiros ?

- Onde estão os hospitais, as maternidades, as creches, as escolas com ar condicionado, caloríferos, cantinas decentes, bibliotecas, laboratórios e pavilhões gimno-desportivos ?

- Quem permitiu que as Câmaras lançassem mão desse empreendedorismo tolo e provinciano que cobriu o país de "pavilhões multiusos", estádios para os futebóis, auditórios e salas para exposições onde nunca se realizam espectáculos, competições, conferências, exposições ?

- Quem permitiu que as forças de segurança do Estado chegassem ao estado terminal de esgotamento, obsolescência e pelintrice, que as esquadras da PSP e postos da GNR se transformassem em tugúrios que nem um banho quente podem oferecer aos agentes da autoridade e as camaratas só encontram paralelo nas celas mais imundas do Limoeiro ?

- Quem transformou as Forças Armadas num monstro macrocéfalo, cheias de generais, brigadeiros e coronéis no topo, sem motoristas, sem oficinas, sem comandantes de esquadra, secção e pelotão na base ?

- Quem permitiu que Lisboa, o Porto e os restantes pólos económicos fossem alvo da mais encarniçada competição pela destruição patrimonial, mutilação estética e erradicação da segurança, pelo desaparecimento do comércio local e em sua substituição se assistisse à explosão de sucursais bancárias, à tributação terrorista sobre o parqueamento automóvel, à evacuação e desertificação humana das baixas ?

- Quem autorizou e estimulou a devastação das regiões circunvizinhas das grandes cidades, quem deu força e meios aos camartelos do pato-bravismo para, em vinte e poucos anos, cobrirem a geografia urbana portuguesa de monstruosidades arquitectónicas, ghettos e enclaves étnicos ?

- Quem deu carta branca a essa chamada iniciativa particular, bem amparada no crédito e conivências políticas para se substituir ao Estado na segurança, no ensino, na saúde, na assistência e na cultura, mas que do Estado recebeu o apoio e incentivo que são a negação do princípio da livre economia ?


São estas as perguntas que dirijo a piedosa mão amiga que me fez chegar um pomposo convite para participar numas quaisquer jornadas de um partido da oposição. Estiveram vinte e tal anos no poder e agora querem fazer crer que chegarão aos umbrais da Terra Prometida, virginalmente puros, para restaurar a confiança do povo que os elegeu e reelegeu repetidamente.