16 janeiro 2010

O futuro não é o que prevemos

É claro, assim o foi sempre, que quem domina a paisagem económica tende a estender a sua concepção do homem, do Estado e da sociedade, bem como a cultura jurídica, política e empresarial, os gostos e estéticas a todos os azimutes recobertos pela sua irradiação. O poder económico de uma grande potência transporta elementos intangíveis que tendem a universalizar-se como marca de aceitação de uma ordem em que todos querem participar. Estranho seria aceitar uma excepção. Estranho seria presumir que o Fim da História há duas décadas anunciado - o triunfo final e perpétuo do Ocidente - poderia resistir à ascensão de uma potência global como a China, que nunca aceitou a ordem mundial europeia, fez-lhe frente e engendrou, na esteira da sua experiência, um regime moderno que ao Ocidente só foi buscar as tecnologias multiplicadoras do poder do Estado.

Martin Jacques publicou há tempos um polémico ensaio, cujo título, When China Rules the World: the End of the Western World and the Birth of a New Global Order, encerra uma tese pessimista e quase aterradora para os defensores da democracia. Para todos quantos pensavam que de uma China domesticada pela iniciativa individual e pela liberdade do mercado nasceria uma democracia multipartidária, Martins Jacques oferece o contraponto. A China, quanto mais rica for, comportar-se-á de acordo com a sua genética civilizacional: mais poder para o Estado, maior integração holística, aprofundamento da identidade, maior capacidade de intervenção na esfera do privado, maior vigilância e capacidade de punir.

A vaga autoritária que varre a América do Sul anuncia a derrocada do modelo dos EUA. É particularmente estridente, pois desenvolve-se numa ampla região que foi, até há pouco, quintal dos EUA. Depois, as experiências democráticas asiáticas, ao invés de anunciarem a consolidação do modelo ocidental, parece indicarem a lenta aclimatação do modelo ocidental a sociedades predispostas à aceitação da autoridade do Estado como algo tão natural como o ar que se respira.

A China ultrapassará os EUA na terceira década deste século e, por volta de 2050, o impacto começará a fazer-se sentir na esfera cultural. É por ora impensável, como o era para Castela do século XV e para a França do século XVI, ou para a Grã-Bretanha dos inícios do século XVIII, mas a China pode vir a impor a sua visão do mundo, as modas e modelos e até a língua como adereços de inclusão num mundo globalizado a partir de Pequim e Xangai. Quem tem o poder, dita as regras. Naturalmente, o mundo sinizado poupará instituições e crenças que hoje consideramos "universais" - isto é, produto da ocidentalização - mas estas tenderão a transformar-se em características regionais, deixarão de infundir respeito e não mais encaradas como merecedoras de cópia.

Parece que o mundo do futuro será mais o de Darth Vader que o dos heróis libertadores que povoam a cultura popular.


14 janeiro 2010

Povo mágico, povo de mágicos

Os siameses pelam-se por astrologia, quirologia, adivinhação, magia, numerologia, nigromância e espiritismo. São, sem tirar, iguais aos gregos e romanos da Antiguidade, pois a cepa comum indo-ariana plasmada pelo sânscrito - essa língua universal do conhecimento isotérico - criou uma comum visão do mundo que cobriu um largo arco geográfico que ia do Sudeste-Asiático ao Tibre e só foi destruída pelo advento do cristianismo. Os thais são, assim, um "povo antigo", com um "conhecimento antigo" no qual não há fronteiras claras entre o racional e o irracional, o sagrado e o profano, o temporal e o espiritual, o mundo dos deuses e o mundo dos homens. Tudo para eles é entendido como manifestação de poderes imanentes que não podem ser contrariados, mas apenas atenuados pela elevação espiritual de cada um. Ao contrário do que deste entendimento da vida escreveram duas ou três gerações de positivistas europeus, o conhecimento oculto não é fonte de alienação, mas segurança, não gera o fatalismo, mas fortalece os indivíduos nas afições, não semeia o desespero, mas alimenta a esperança. Quando confrontados com grandes desastres, os thais lançam mão de todos os recursos, falam com todos os deuses, franqueiam todos os templos - budistas, protestantes, católicos, jainistas, hindús - e pedem ajuda. A lógica parece ser: quantos mais deuses tiver do meu lado, mais facilmente poderei sair desta aflição. Este ecletismo e sincretismo religiosos são bem patentes. As pessoas trazem consigo, pendendo no peito, amuletos pré-budistas, imagens do Buda e crucifixos. Depois, tatuam-se com fórmulas propiciatórias que outrora se dizia permitirem imunidade contra os espíritos malignos e facultavam ora a invisibilidade, ora repeliam as armas dos inimigos.

Um dos filões mais produtivos da indústria cinematográfica local é, como não poderia deixar de ser, as fitas sobre Pí (espíritos) e o tema de conversa mais apetecido, para além da comida, são questões de natureza religiosa. As pessoas lêem avidamente, tal como no Ocidente medieval acontecia, textos edificantes: vidas de monges, jatakas do Buda - vidas anteriores do Iluminado - experiências de meditação nos "templos da floresta", sonhos e até viagens ao mundo do além.

Um dos fascínios dos thais é a magia. A patetice de alguns europeus interpreta este fascínio como demonstração de infantilidade. Como povo lúdico, os thais encontram na magia um divertido jogo de fintar as "leis naturais", ludibriar os sentidos, brincar com as certezas de cada um. Porém, mais profundo que o inocente divertimento, demonstra-se a Annica (ou impermanência), que é uma das grandes certezas do budismo. Tudo está em mudança e até as leis naturais podem ser contrariadas. Escandalizavam-se os missionários católicos franceses com o Rei Taksin (1767-1782) quando este lhes afirmava que se havia finalmente libertado das leis da atracção e que podia voar.

Em Banguecoque há centenas de bancas de magia. Vai-se ao astrólogo, ao vidente, ao intérprete de sonhos como se vai ao médico. Ali correm milhões dos bolsos aflitos, mas também correm milhões pela atracção pelo desconhecido. Recentemente, a magia também se colocou ao serviço dos turistas. Com um grande sorriso, os mágicos oferecem nas ruas sessões de magia ao alcance de qualquer um e, terminada a exibição, vendem os produtos e os segredos de mágica aos farangues (estrangeiros brancos). O mágico da foto realizou a proeza de vender em cinco minutos 50 Euro de produtos a três europeus extasiados.É o caminho das estrelas.



StarTrek

Os nossos irmãos portugueses de Malaca

Stuart da Costa, a nova geração de portugueses de Malaca

William de Silva, que já fala português

Cátia Candeias, animadora cultural e bolseira do Instituto Camões, tem realizado um brilhante trabalho entre a comunidade portuguesa de Malaca. Exultante fico perante os testemunhos dessa entrega e esforço em preservar a identidade portuguesa na outrora pérola da Coroa no Sudeste-Asiático. O sorriso das crianças é eloquente, pois as crianças não sabem mentir. Depois, há os velhos resistentes, Noel Félix e Joe Lazaro, líderes do "kampong", homens que não deixaram a chama morrer. De viola em riste, cantam o Portugal distante que nunca visitaram mas que está ali bem perto, dentro dos corações. Olho para a bandeira e vejo neles portugueses. Reparo que a nossa bandeira - a da tradição, azul e branca, a dos nossos reis - ali também se preserva como memória do passado que não morre. Há dias em sinto absoluto orgulho em ter nascido português.


Quando o Rei aparece sem avisar



O Rei do Camboja está a contornar a muralha cerimonial que o regime pós-comunista de Hun Sen - antigo Khmér Vermelho - quis construir em torno da monarquia. O Rei aparece sem avisar, convive com os camponeses, visita escolas, hospitais, deixa pequenas ofertas, recebe queixas e petições; em suma, restabelece a relação patriarcal que foi, durante séculos, a força da aliança com o povo chão. O governo está apreensivo. Esperava-se um monarca dócil, reservado e inacessível, emparedado no seu palácio. Shiamoni revelou-se um homem dinâmico, interventor e com uma palavra a dizer sobre os problemas do seu país e do seu povo. Não são necessárias "presidências abertas": o Rei corre a geografia do Camboja de lés a lés e vai, lentamente, impondo-se como a figura mais amada do Estado. Enfim, coisas de somenos das monarquias !

13 janeiro 2010

Outros socialismos


A foto circula por meia Espanha desde 2007 e a polémica mantém-se. Não se tratando de montagem, há quem sugira flagrante coincidência fisionómica, mas há também quem afirme que Filipe González foi líder [destacado e intransigente] nas fileiras da Frente da Juventude, organização da Falange Española Y de las JONS no início dos anos 60. No fundo, a novidade reduz-se a nada, pois a Falange fundada por Primo de Rivera foi sempre a face socializante e sindicalista do regime de Franco.

* Filipe González, na extrema-direita da foto, saudando de braço estendido.


España Cañí

11 janeiro 2010

Curiosidades tailandesas: sem medos e sem as vergonhas ocidentais

Sou distraído, pelo que só recentemente me dei conta de uma prática aqui muito arreigada, interpretada como supino gesto de cavalheirismo. Na Tailândia, quando os casais se passeiam, os namorados/maridos insistem em transportar a mala do seu par. Já cheguei a ver oficiais de alta patente, carregados de medalhas, transportando airosamente nas mãos uma malinha cor-de-rosa com arreios dourados.
Todos os actos delicados passam por suphab (educação) ou nissay dii (bom comportamento), pelo que as senhoras ficam Kreng Jáy (agradecidas e em dívida) para com tais manifestações.
Não me atrevi violar ostensivamente a privacidade das pessoas, mas pelos dois exemplos fotografados [de costas] fica a sugestão. Aqui, marido e mulher vão juntos ao cabeleireiro e à manicure, enchem a casa e a cara de cremes e até parece que partilham o make-up. Enfim, um monumento à igualdade. Entre nós, saídos recentemente do neolítico, até se exigia que os homens cheirassem a cavalo e se rissem sobranceiramente das colónias e dos roll-one. O mundo é um espectáculo de diferenças.

10 janeiro 2010

Coisas da Ásia: Bose e os "lutadores pela liberdade" goesa

Bose recebido por Hitler

"Dear Passengers, please fasten your seatbelts, we are about to land at Netaji Subhash Chandra Bose International Airport". Esta informação é anunciada a todos os passageiros do voo Bangkok-Kolkata (Calcutá) e, traduzida para português daria um surpreendente "senhores passageiros, apertem os cintos de segurança, pois dentro de minutos aterraremos no aeroporto internacional Führer Subhash Chandra Bose".

Himmler e Chandra Bose (1943)

Subbas Chandra Bose foi o mais amado dos líderes independentistas indianos. Ao contrário de Gandhi, muito querido pelos ocidentais, que o inscrevem na sagrada família dos santos laicos, juntamente com Erasmo, Luther King e Mandela, mas figura controversa entre os indianos, Bose é, por antonomásia, "o chefe". Líder do Partido do Congresso, não pregou a não-violência, mas o derrube do Raj britânico pelas armas e um dos seus aforismos mais glosados era "dêem-me sangue e dar-vos-ei a Liberdade". Fugiu da Índia no início da guerra e chegou a Berlim após ter sido hóspede de Estaline. No longo périplo pelas capitais da aliança continental totalitária (Moscovo, Berlim, Roma), Bose foi aclamado como paladino da luta dos indianos pela independência e recebeu honras de chefe de Estado. Quando Singapura se rendeu aos japoneses, Bose recebeu pleno apoio de Tóquio para lançar o INA - Exército Nacional Indiano - que combateu na Birmânia e participou na última ofensiva nipónica de 1944. Regressado à Ásia a bordo de um submarino alemão, foi investido presidente de um governo provisório da Índia Livre, de imediato reconhecido pelos países do Eixo e pela União Soviética. Morreu 1945, em circunstâncias misteriosas quando o seu avião se despenhou algures no trajecto entre Singapura e Tóquio, dias após o anúncio da capitulação japonesa. Em sua memória foram editadas emissões numismáticas e filatélicas, antologias de escritos e discursos e recentemente um filme que concitou grande interesse entre o público indiano: Bose, the fotgotten hero.

Um dos seus irmãos, Sarat Chandra Bose, sobreviveu à guerra e foi líder do Partido Republicano Socialista - uma versão aggiornata do proscrito partido fascista de Subbas - tendo sobraçado pasta ministerial no primeiro governo de Nehru. Adepto de soluções expeditas para a anexação de Pondicherry, Goa, Damão e Diu, foi protector dos chamados "lutadores pela liberdade" que precipitaram a invasão dos territórios do Estado Português da Índia em 1961. Entre os seus amigos contava-se Tristão de Bragança e Cunha, engenheiro formado em França, de eclética formação ideológica fascista-leninista e que desde finais dos anos 30 era o representante de Bose em Goa.
Eis um secretíssimo e políticamente incorrecto pormenor da história dos últimos anos da Índia Portuguesa: a invasão foi inspirada pelo princípio fascista boseano da "guerra justa" para a construção de uma "nação indiana" - leia-se hindú - onde todas as minorias (muçulmana, católica, sikh) seriam toleradas, mas consideradas estranhas à tradição indiana.