08 dezembro 2010

Os passaportes de SAR

Com a sincera advertência de ser um dos meus predilectos, não posso concordar, perdoe-me o confrade Laranja, com o seu desabafo sobre o Senhor Dom Duarte. Julgo que Bic Laranja, boa pluma e homem culto, quis dizer algo diferente, mas há dias em que não nos conseguimos exprimir com felicidade.

O Chefe da Casa Real solicitou ou vai solicitar as nacionalidades timorense e brasileira. Ora, se em tal pedido parece haver algo de incorrecto é a modéstia com que o faz e a inibição em terminar o raciocínio. Se eu fosse SAR, requeria também as cidadanias cabo-verdiana, são-tomense, angolana e moçambicana. Sei que os portugueses cairam na falácia de se pensarem "europeus" e muito "patriota" por aí se ufana de conhecer melhor as narrativas heróicas de galos, teutões e italiotas que a coisa portuguesa. Sei que, sentindo-se europeus, gostariam de um Portugal no braço de ferro com as Burgúndias, as Morávias, as Alsácias e Lorenas, mais as Silésias e os Wurtembergs. Portugal é mais que isso: mais que a soma de todos os bantustões que fizeram rolar tantas cabeças e pelos quais a Europa se esvaiu em sangue ao longo de séculos. Eu não sou europeu, pois nasci em África e sou portador, naturalmente, dos dieitos jus sanguinis e jus solis a ser maçambicano. Só não tenho a dupla-cidadania porque a minha terra foi declarada independente sem plebiscito, sem referendo, sem negociações e eu, com toda a família - pais, avós, bisavós - metidos num avião e despejados em Lisboa, que é a capital da nossa nação, mas não é a minha pátria.

Depois, incomoda-me que a nossa direita tivesse feito à esquerda o favor de se tornar racista, quando a história da liberdade e independencia portuguesas só se explica no Brasil, na Ásia e em África. A direita portuguesa - a mais incongruente, estúpida e iletrada da Europa - anda há 200 anos a fazer favores a todos quantos diz detestar; logo, perdeu todos os combates e ofereceu em terrina o manjar das "boas causas" à sinistra. Não me incomodou o texto de Bic Laranja, mas os comentários, que de tão roncantes e baixos só deslustram aquele que é um dos mais nobres, elegantes e simpáticos blogues portugueses.

O meu sonho é o passaporte da Confederação de Estados Lusófonos. Que tremendo coice naqueles que me privaram da minha condição natural de português africano !

4 comentários:

Bic Laranja disse...

O prezado Confrade penhora-me com o apreço, mas não, não foi irreverência. Temos opiniões diferentes. Tão simples como isso.
Não vou rebater aqui as suas nem repisar lá as minhas. Não haveríamos de sair delas e o que vai dito basta. A amplificação do verbete no portal do Sapo (risco mal calculado) já me deu incómodos de sobra por ter que moderar todo o asno que apareceu a comentar.
Cumpts.

LUIS BARATA disse...

Também sonhei, meu caro Miguel, com uma Comunidade Lusíada que a Guerra Fria, a falta de visão da dupla Salazar/Marcelo e depois os "nacionalismos" africanos e os entusiasmos da "Abrilada" não permitiram. A CPLP é o que se sabe: mero arremedo.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Essa direita não é direita coisa nenhuma, é apenas uma facção do socialismo que aderiu ao nacionalismo e o legitimou recorrendo à eugenia, que também é criação da esquerda.
Chamar essa corrente revolucionária é fazer um favor à esquerda, que muito investiu em propaganda para apagar o seu passado. Lembro de pregações a favor do genocídio dos povos primitivos por parte do Marx, que li era comuna. Se não me engano, no próprio Manifesto Comunista há esse tipo de pregação. Até lembro de cartas dele a falar mal do Lassale, usando o adjectivo negróide de maneira extremamente negativa. Dizia que o Lassale era um daqueles judeus cujos antepassados se misturaram com negros quando da estadia no Egipto e que era degenerado por causa disso (estas não são as palavras exactas, mas o sentido era esse).
Estou de acordo com a ideia da confederação, e até da federação e do Império Lusófono, desde que houvesse retorno ao municipalismo e a união se resumisse à política externa e à economia. É que o centralismo tem sido o maior cancro da nossa civilização.
Quem me dera que isso se concretizasse logo. Já não aguento mais ver bandeiras azuis com estrelas amarelas em todo o lado a lembrar que somos escravos de Bruxelas!

Um abraço.

Flávio Gonçalves disse...

Bravo!