07 dezembro 2010

Nepotismo e fisiologismo

A tendência para oferecer a familiares cargos públicos pode ser interpretada de duas maneiras: ou como um abuso de favor, violando o princípio da separação entre a esfera do privado e o do público; ou uma defesa para quem ocupa cargos e requer apoio e lealdade só garantidos pela comunhão do sangue. Não devemos ser excessivamente impiedosos para quantos, indicando um irmão, um primo ou um cunhado para um cargo de assessoria, se justificam com o argumento da segurança e inviolabilidade do segredo inerente ao exercício de funções políticas. O nepotismo é natural, isto é, faz parte intrínseca da natureza social do homem. Tenho para mim que, se um irmão, um primo ou um cunhado possuírem assinaláveis qualidades de mérito e inteligência, a sua nomeação facilita ab initio o bom sucesso do posto de quem o nomeia.

Contudo, persiste uma lamentável confusão entre nepotismo e fisiologismo, comumente chamado compadrio. Trata-se de coisas absolutamente diferentes, pois se o nepotismo moderado pode ser benéfico, o compadrio só se justifica na apropriação de cargos públicos para favorecimento de amigos sem benefício para terceiros. O fisiologismo é um abuso, pois sabendo que fulano, cicrana ou beltrana são imbecis, incompetentes, falhos de escrúpulos, madraços, inúteis, persistir na sua nomeação é ferir mortalmente os lugares que lhes foram oferecidos. O fisiologismo confunde tudo, até a finalidade e o múnus da função. No fisiologismo, todas as medidas tomadas - e até os cargos criados - se realizam sem outro fito que o de prover um lugar, meios e riqueza a uma pessoa, passando por cima do interesse público e fazendo das instituições empresas de lucro para grupos informais parasitando o Estado. Há mil e um exemplos de fisiologismo conhecido nesta terceira república. Pessoas há que nomearam a mulher, filhos, sobrinhos e amigos para lugares, impondo a sua eleição para cargos oficiais sem outra justificação, sem a simples exibição de um curriculo. Como o Estado morreu, tudo se centuria como um troféu de conquista; como o serviço público não passa de uma grossa mentira, as instituições servem, apenas, para prover lugares e as políticas para favorecer amigos.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Cá para mim, ficam ao mesmo nível de certas "necessidades fisiológicas". Hás-de reparar que se trata precisamente de gente que mais galões republicanos puxa, enchendo-nos os ouvidos com "igualdade", "mérito", etc.

Manuel Brás disse...

Esse troféus conquistados,
entre favores imorais,
são símbolos enquistados
de parasitas viscerais.

Dessa poeira tão granosa
de um regime desditoso
brota gentalha venenosa
com esse odor portentoso.

Isabel Metello disse...

...não poderia estar mais de acordo...na mouche! Esta hipocrisia de quem defende princípios que não pratica é aviltante! Enfim, resta a resistência (nunca alguém disse que seria fácil, nunca o foi, aliás e ainda bem...)

EJSantos disse...

"Como o Estado morreu,..."
Não, não morreu. Se a corja de parasitas que nos governa é desonesta, nem toda a gente é assim.

" tudo se centuria como um troféu de conquista; como o serviço público não passa de uma grossa mentira, as instituições servem, apenas, para prover lugares e as políticas para favorecer amigos. "
Não, não serve. Se este Governo não presta, se estes poticos horrorosos usam e abusam do poder, isto é uma vergonha para Portugal.

Mas já agora:
Luís XIV, o famoso rei-sol, era um esbanjador. Ele criou um Estado Absolutista, extremamente despesista e corrupto. A França empobreceu. E muito. Criou-se uma situação social explosiva. Que explodiu no reinado de Luís XVI, rei que acabou os seus dias na guilhotina. E até imerecidamente,

Comentei isto com um colega e ele disse me:

“Luís XIV fez a merda, e quem teve que levar com ela foram as gerações seguintes...”

Palavras de uma clarividência assustadora.