05 dezembro 2010

À quatre pattes: miséria da blogosfera

Tudo se limita a Sócrates. Atacar, desfazer hierarquias com palavrões e sem argumentos, cobrir ministros de impropérios, dar importância a coisas ínfimas e a flatus vocis. O país precisa, sim, daquela receita um dia proposta por Papini: não ouvir rádio, não ler jornais, não frequeentar cafés. Eu acrescentaria: não ler blogues. Isto tudo se transformou num despejadouro para ódios doentios e irrupções de pus. Estreita, agressiva, vingativa, miserável, a dita blogosfera já nem se disfarça com os atavios das literatices de algibeira que em tempos ainda fazia concessões a saloniers. Quanto às antigas salonieres de outrora, desapareceram enrubescidas, pois o vernáculo foi trepando e as tertúlias, com os seus confrades em emulação de graça e espirituosidade, deram lugar a tabernas de vinho ordinário e carvão que a tudo se cola. Convenço-me que as pessoas a mais não querem aspirar. Tudo tem uma explicação. A chamada "democratização", o maior flagelo e inimigo da liberdade e do espírito, dá voz a quem nunca a teve. Já não se trata - coisa insignificante - dos erros ortográficos, da ausência de referências elementares que noutros tempos constituiam cartão de visita obrigatório para qualquer homem civilizado. Tudo isso é nada, neste preiamar das massas armadas de computadores e blogues.
A blogosfera portuguesa já quase só tem Sócrates, futebol ou sexo; enfim, a cada sociedade aquilo que merece. Valerá a pena perseverar ?

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

É natural que as pessoas andem irritadas com tudo isto, escolhendo o alvo mais visível. Outros, cumprem o serviço indicado pelo Partido.
90% do que dizes, encaixa perfeitamente naqueles que andam "!à procura de sucessão", isto é, dos tachos que aí vêm, substituindo "os outros". Simples e nada importante.

Miguel Vaz disse...

Recuperando um poema de Rodrigo Emílio, «Ainda existe aí gente altaneira/ que lhe valha!/ (Gente que não se esgueira nem tresmalha/ e que sem medo se abeira/ da metralha.»
Ainda há locais frequentáveis e, enquanto assim for, há esperança.