03 novembro 2010

Regressem aos clássicos meus caros


As pessoas perderam o domínio da língua. Pensam, erradamente, que o código escrito é análogo à língua falada. Ora, quem não sabe escrever não pode pensar correctamente, pois o desconhecimento das regras formais impede o ordenamento do discurso. Foi o que deu a porreirização do ensino que encontra nos últimos desenvolvimento do tecnocratês e do portinglês o nadir da expressão escrita. Deixem-se de fantasias, ponham de lado o lixo sub-literário dos autores de escaparate e dos prémios literários, voltem a Vieira e Camilo - pois Eça, insuportável poseur, era um fotógrafo-escritor - e esqueçam Pessoa a um canto da estante, pois a poesia, por muito bonita que seja, sempre foi perigosa tentação para quem não sabe escrever.

Conheci em tempos, nos tempos do mestrado, uma fulana que se ufanava de "só ler Filosofia". Era Hegel para aqui, Marx para ali, Kant para acoli, Aristóteles para acolá. Contudo, naquele deserto mental cheio de citações, faltava-lhe leitura. Nunca abrira um livro por simples impulso recreativo. A leitura era, para ela, uma obrigação para a "carreira", como o manual de carpintaria para o fazedor de cadeiras, uma pobreza de cultura dita geral - quem não a sabe, nada sabe - e um quase ódio a tudo quanto catalogava liminarmente de "erudição". Essa senhora é hoje "doutora em Filosofia", mas diz "hadém em vez de hão-de", "póssamos em vez de possamos", "quaisqueres em vez de quaisquer"; em suma, uma analfabeta a dar aulas a iletrados. O resultado ? A universidade que temos, os advogados, os políticos, os gestores e os jornalistas que por aí vão destruindo todos os dias o pouco que se salvou dos clássicos. Sim, Camilo vale dinheiro e é de curso mais confiável que as pontes desse Euro malfadado e da ditadura da febre do dinheiro e do sucesso que nos trouxe a este estado de não retorno.

9 comentários:

cardo disse...

Há alguma edição das obras completas do Pe. Vieira e do Camilo que o Sr. recomende?

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem podes estar à espera...

Arquivista disse...

Tanto para Vieira como para Camilo, as edições da Lello (aquelas em papel-bíblia, com encadernações de luxo) são o mais aproximado que temos de umas "obras completas". Mas convenhamos, o seu preço não é nada convidativo, e já estão um pouco desactualizadas. As antigas edições da Sá da Costa, agora só as encontramos em alfarrabistas.
Há uns anos, a IN-CM publicou um 1º volume dos Sermões Completos, mas calculo que a iniciativa não tenha sido continuada. Houve também uma editora do Porto, a Caixotim, que se propôs editar os romances completos de Camilo, só que não houve verba para concluir o projecto.

Enfim, estamos a anos-luz de uma Pléiade ou do que fazem os alemães com as suas "Werkausgaben"... :/

Nuno Castelo-Branco disse...

De repente, nos últimos tempos parece que Camilo voltou a ser um ponto de interesse, nem que seja para se facturar algo. Nada há de errado nisso. Após a série A Ferreirinha, onde apesar de tudo o tom foi nitidamente laudatório, surge agora o filme "Mistérios de Lisboa" que muito recomendo.

J. Ryder disse...

Desculpe esta via pouco ortodoxa mas fala-se tanto em 1511 e nunca vi em lado nehun a data exacta em que Duarte Fernandes terá aportado a Ayutaya (dia e mês)... Não se sabe de todo?... Para comemorar 500 anos faria toda a diferença ter "uma" data-alvo... Obrigado

Duarte Meira disse...

Uma boa dose aqui, sem facturas:

http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/camilo-castelo-branco.html#links

Mauro Cappelari disse...

A INCM já publicou o segundo volume dos "Sermões Completos", do Padre António Vieira. Entretanto, quem quiser e tiver carteira para tal, pode sempre procurar nos alfarrabistas a edição desses mesmos sermões feita pela Lello, com anotações do Padre Gonçalves Alves, publicada pela primeira vez há cerca de cem anos e reeditada depois por volta do começo dos anos 1950.

Arquivista disse...

Caro Mauro Cappelari: dá-me uma excelente novidade, o que agradeço muito. :)

Eco da Província disse...

Totalmente de acordo.