21 novembro 2010

Portugal e os outros

Dizia-me anteontem uma fulana que estava a preparar um livro sobre a recepção dada por Paulo VI aos líderes dos "movimentos de libertação". Disse-o com um brilhozinho nos olhos, como quem evoca uma vitória. Fiquei triste, pois se Portugal serviu desinteressadamente a algo neste mundo foi a Roma. Lembrei-lhe que a paga não foi conforme o gesto estudado: Samora e Neto pagaram ao Vaticano com perseguições, confisco e destruição das missões. Retorquiu: "e depois"? Pois, a mesmíssima resposta que daria um desses peralvilhos das Missions Étrangères que a Propaganda enviou para o Oriente para destruirem tudo o que por lá haviam feito os portugueses e depois, sem deixarem obra, só serviram para abrir as portas da Indochina ao imperialismo jacobino. Passaram 40 anos sobre a tal audiência. Não, corrijo, passaram 40 sobre essa traição ignóbil e mais de 300 sobre coisa análoga feita no Oriente. Nunca aprendemos nada !

Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor e chegar com ele ao cabo, seja muito embora; matai-me, consumime, enterrai-me:

Ecce nunc in pulvere dormiam; mas só vos digo e vos lembro uma coisa: que "se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar": Et si mane me quaesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa; mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó, que destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo Mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdão, Meldeburgo e Flisinga e em todas as outras colónias daquele frio e alagado inferno se está fazendo todos os dias. Padre António Vieira, Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda, 1640.


2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Quem era a imbecil? Mais uma "dótora"?

José Domingos disse...

Não é fácil, conviver com tanta boçalidade.
O horizonte, desta gente, vê-se da torre da igreja.

É sempre um prazer, passar por aqui.