16 novembro 2010

Não acreditar nos papões nem em teratologias políticas


Foi, todos o sabiam - e todos o elogiaram por isso - um nacional-bolchevista de retinta extirpe e um egomaníaco tão exigente nos rapapés como Mao, Tito, Kim il Sung e Estaline. O homem foi incensado como modelo de lucidez e destemor. Foi recebido e recebeu Nixon e Carter, de Gaulle, Pompidou e d'Estaing, Sadat, Juan Carlos, Isabel II, Paulo VI e Margarida II da Dinamarca, dele se cantaram loas, a ele se encomendaram panegíricos, numa tal competição desenfreada que os dicionários se esgotaram e os ribombantes ecos dessa versalhada barroca-comunista ainda nos enchem de espanto: Leão dos Cárpatos, Danúbio do Socialismo, Pai dos Romenos. Pois, Nicolau foi Grande Cavaleiro da Ordem do Banho, integrando o friso das maiores notabilidades do mundo dos imortais [mortos e vivos ] e para ele todos se viraram em assombro de admiração quando apoiou a "Primavera de Praga", se opôs à invasão do Afeganistão, reconheceu Israel e com ele manteve relações diplomáticas, reatou relações com o Vaticano e deu preferência aos negócios com o Ocidente.


No Estoril Film Festival, que terminou no passado fim de semana, foi a concurso uma espantosa "Autobiografia de Nicolai Ceausescu", assinada por Andrei Ujica. Ao ver o longo documentário, fiquei com a impressão que Ceausescu foi, à escala do seu país e do seu gabarito de sapateiro esfomeado e iletrado fugido à terra e arribado a Bucareste como pequeno gangster a soldo do Partido Comunista da Roménia, um homem em tudo diferente da lenda negra que por aí se mantém. Era um biltre, o lídimo representante da "classe operária no poder", mas tinha rasgo, sabia manipular os poderes que dominam o mundo e deu à Roménia a "epoca de aur" para a qual hoje muitos romenos olham com indisfarçável nostalgia. Cometeu três erros capitais: pagou a dívida externa até ao último lei, disse não ao gorbachismo da nomenclatura que queria salvar a pele a todo o custo para engrenar na transição do socialismo para o capitalismo com as alforjas cheias de ouro pilhado e, por último, acreditou no mito que outros haviam construído em seu redor. Ora, o golpe de 1989, começou por um levantamento popular anti-comunista, mas depressa se transformou num golpe de Estado liderado pela Securitate e pelo PCR. Aquela história ainda está toda por contar e só um desmiolado pode acreditar na grotesca encenação daquele julgamento ignóbil em que Ceausescu foi atado como um cordeiro sacrificial, encostado a uma parede e silenciado pelos seus cúmplices de véspera. Ceausescu, vendo bem, era um gigante quando comparado com os restantes líderes comunistas da Europa comunista, mas também gigante quando comparado com a generalidade dos governantes ocidentais que o elevaram às culminâncias e depois o deixaram nos arranjos do fim da guerra fria. Teimo que a razão capital acima aduzida - ter pago a dívida externa - foi decisiva para o desinteresse dos credores. Assim, ouçam-me governantes, nunca paguem a dívida. A plutocracia quer juros e quando a dívida é saldada, correis perigo de morte.


Partidul, Ceausescu, Romania

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Detestava o regime de Ceausescu, especialmente os últimos dez anos, em que a megalomania e a nefasta influência de Elena, deitaram por terra aquilo que poderia ter sido uma transição "à Franco" no leste europeu. Simplesmente, o homem perdeu a cabeça e não me saem da cabeça as catastróficas imagens da decadência na Roménia. decadência, miséria e brutalidade. Mas concordo que aquele "julgamento" foi ignóbil, vergonhoso e desde logo enlameou a "democracia" romena dos trânsfugas do PCR, Illiescu à cabeça. Este "presidente", era um patife da pior espécie,sendo responsável pelo estado mafioso que se seguiu à pretensa queda do comunismo. O resultado está à vista.

JNAS disse...

No último parágrafo percebi a moral do post ! A Roménia é, tal como a AlBânia e outras aberrações; um "case study" dos horrores do comunismo.
...
Creio que muita dessa história ficará por contar porque é também certo que as pessoas que a viveram querem esquecer.
...
Se me permite a sugestão sobre uma das pontas do "eixo do mal" acabo de ler o relato pessoal e impressionante de Kang Chol-Hwane em "Os Aquários de Pyongyang" de ...vale a pena como testemunho.
JNAS
www.ilhas.blogspot.com

JNAS disse...

No último parágrafo percebi a moral do post ! A Roménia é, tal como a AlBânia e outras aberrações; um "case study" dos horrores do comunismo.
...
Creio que muita dessa história ficará por contar porque é também certo que as pessoas que a viveram querem esquecer.
...
Se me permite a sugestão sobre uma das pontas do "eixo do mal" acabo de ler o relato pessoal e impressionante de Kang Chol-Hwane em "Os Aquários de Pyongyang" de ...vale a pena como testemunho.
JNAS
www.ilhas.blogspot.com

Isabel Metello disse...

O que é impressionante é a forma como se mantém uma perspectiva de que só algumas vítimas de alguns regimes são dignas da inscrição na memória colectiva...por que é que genocídios no Ruanda, nos antigos blocos de Leste entre tantos outros são, de alguma forma, desvalorizados quando interessa? Para mim, as vítimas de facínoras não deveriam ter forma, mas conteúdo...
Enfim...este Ceausescu e a sua tétrica mulher eram dois demónios como tantos outros...