07 novembro 2010

Dinheiro chinês é igual a qualquer outro


Hoje assisti à procissão de motorizadas e limousines que atravessava a cidade em direcção ao Palácio da Ajuda. Coisa oriental, como muito bem fica a quem recebe o homem que ocupa o lugar do Filho do Céu, no umbigo do mundo, ou seja, o sucessor dos imperadores da China. Eu tenho para mim que se o inferno nos estender a mão, devemos fazer um pacto com o diabo sem lhe vender a alma. Deixemo-nos de esquisitices e pruridos: as relações entre Estados fazem-se por interesse e não por princípios. A China ocupa o Tibete, a Manchúria e o Turquestão ? Pois, isso que fique para as justas causas e as nobres cruzadas, conquanto Portugal se envolva o menos possível. Que eu saiba, os consabidos "homens de causas" nunca terçaram armas pelo Havaí, por Guam, pelas reservas indias nem pelo pelo Novo México.Obama virá e também deve ser bem recebido, aplaudido, mimado e levado aos ombros se nos trouxer algo.

Ao invés, esses insuportáveis "comissários europeus", aqui aportam semana sim, semana não, para nos dar ordens, diktats amiúde carregados de ameaças, como quem coloca um caldo em frente de um faminto e lhe diz: "hoje comes, amanhã só tens o caldo se fizeres o que te mandarmos fazer". Essa tem sido a Europa. A China está longe, muito longe, não nos manda comissários, não nos ameaça com a privação do caldo, não nos impõe regulamentos nem a expulsão de clube algum em que ocupamos o lugar extremo. A China, ao contrário da Europa, exibe sempre elegantes atitudes, nos gestos como nas palavras.

Tenho falado muito sobre este tema com o meu irmão, que acertou em cheio e faria corar de ciúmes a multidão de opinativos, assessores e "espertos" que invadem certos ministérios. Infelizmente, a nossa sina é a de dizer aquilo que os outros não querem ver.

4 comentários:

19590821 disse...

Quando fui educado, lembro-me bem como me ensinaram a lutar por aquilo que queria e a compreender que nada caía do céu e tudo levava tempo.


Os pais treinavam os filhos a saber esperar, a saber persistir, a aguardar diligentemente a compensação do seu esforço.



Hoje, são poucos os pais que educam segundo este modelo. O critério do ter imprime um ritmo frenético à vida.



Antes, havia tempo para o ritual do tempo, a vontade era formada na resistência.



Hoje, o tempo tem o ritual de cada momento, a vontade é formada no frenesim de cada satisfação.



Antes, o tempo era uma escola, hoje é um embaraço. Antes, a disciplina interior sabia a libertação, pela firmeza que conferia à nossa atitude, hoje, a disciplina interior sabe a escravidão, pelo custo que confere a realização imediata daquilo que queremos.



Nos nossos dias, os pais desmesuram-se em ajudas aos filhos, em apoios, em cursos, em oportunidades, como antes não sucedia.



Mas negligenciam, nesta mímica social estranha de correr para todo o lado, os mais simples valores da correcta formação humana.



Quantos pais hoje falam aos filhos em disciplina? Quantos pais hoje ensinam os filhos a saber esperar?



Resmungamos generalizadamente que há um desencontro entre o que todos querem e o que é possível a todos dar.


Resmungamos, mas não vamos ao fundo da questão.



Como podem os pais de hoje transmitir aos filhos os valores mais preciosos, se eles próprios os abandonaram?



Como podem os pais educar os filhos a saber esperar, se eles próprios abraçaram a lógica imediatista da vida moderna?



Como podem os pais transmitir disciplina aos filhos, se eles próprios perderam os critérios em que a disciplina se funda?



A disciplina, no entanto, é a ferramenta decisiva da vida, como o saber esperar é a atitude própria das grandes realizações.



Como diz M. Scott Park, com alguma disciplina, resolvemos alguns problemas da vida, com total disciplina resolvemos todos os problemas da vida.



Na vida afectiva, não há grandes amores, nem grandes amizades sem disciplina.


Na vida em geral, em todos os aspectos da vida, não há destinos significativos à espera de quem não tem disciplina.


A disciplina olha os problemas de frente e resolve-os.


A disciplina cuida da força de vontade, dispõe-se ao essencial, sabe esperar.


A disciplina aceita a renúncia, o sacrifício, a abdicação — palavras hoje interditas.


A solução dos problemas de Portugal passa por aquilo que cada um de nós souber fazer a este respeito.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

A nossa situação não deve ser posta nestes termos. A nossa escolha não é entre a Europa e a China, mas sim entre a independência, que exclui a continuação deste regime parasitário que vai nos enterrando em dívidas, e a manutenção do mesmo e a sujeição de Portugal aos desígnios da primeira potencia que nos quiser dar corda para depois, quando estivermos totalmente dependentes, nos enforcar.
Quanto aos modos chineses, isso só indica que eles são muito mais inteligentes que os arrogantes europeístas, que compensam a sua crescente impotência com palavras e actos que acabam por aumentar a indisposição contra eles. Pobres idiotas. O projecto europeísta está mesmo condenado e é melhor preparar o quanto antes a saída desse barco furado.
Os tais modos chineses não passam de disso mesmo. Basta perguntar aos vizinhos dos chineses, e até aos tailandeses, quem são eles.

Um abraço.

Nuno Castelo-Branco disse...

Miguel, sabes bem que não sou contra os acordos com a China. bem pelo contrário, se significarem um atenuar da canga "europeia". O que não suporto, é a ideia de estes negócios significarem a salvação desta gente que ontem apertou a mão ao presidente chinês. Precisamente aquilo que dizias nos posts de 24, 28 de Outubro e principalmente, 5 de Novembro.
Fico escandalizado com uns fulanos que tendo estado á frente dos assuntos do Estado durante décadas, pretendam ainda mais uma hipótese. Não. Devem sair agora e a bem.

João Mattos e Silva disse...

Discordando do anti europeísmo, não posso deixar de concordar que as relações internacionais se fazem, e e sempre fizeram, por trocas de interesses entre os Estados e não na base de princípios. A China quer, por nosso intermédio e pela situação especial de Portugal no relacionamento com outros povos, ter uma porta aberta na relação com europeus e falantes de português, nós precisamos desesperadamente de quem nos compre a dívida pública. Está feita a troca. Tudo bem.
As questões de princípios ficam para outros fóruns.