28 outubro 2010

Não, a minha pátria NÃO é a língua portuguesa


Repete-se até à exaustão uma banalidade de Pessoa, que por ser Pessoa não pode ser discutida. É uma banalidade perigosa que se transformou em certeza, em mandamento intemporal e se impôs ao comportamento do Estado como uma obrigação. Não, a minha pátria não é a língua portuguesa. Por essa quimera estamos há trinta e tal anos a esbanjar meios no ensino da língua portuguesa onde esta já é língua oficial - Guiné, S. Tomé, Moçambique - e noutras paragens onde os leitorados de português deviam ser investimento do Brasil e não de Portugal: Venezuela, Argentina, Chile, Uruguai. Por essa quimera, que parece só servir para dar empregos a professoras do ensino secundário, não se tem passado - na Ásia, em África e na Europa - dos umbrais do minimum minimorum destinado a formar guias turísticos, empregados de mesa e telefonistas de embaixadas. Não é responsabilidade do Estado português ensinar português a quem quer que seja. Quanto muito, cumpriria ao Instituto Camões estabelecer parcerias com universidades estrangeiras, facultar-lhes meios iniciais programáticos, metodológicos e de professores até que se criassem raízes. Os melhores centros de ensino de língua portuguesa na Ásia não dependem de Portugal: são autónomos, animados e dirigidos por professores locais e batem largamente em condições técnicas, tecnológicas e visibilidade académica os nossos leitorados. O Japão e a Coreia do Sul têm departamentos de língua portuguesa cheios de vitalidade e não pedem a Portugal o favor de uma bula de confirmação.


Se, em vez de insistir na gramática e nas primeiras letras, se desse prioridade à conquista das universidades, preparando-se cursos de cultura portuguesa destinados a servir as necessidades da investigação local, facultando conceitos, informação precisa sobre história portuguesa, traduzindo e publicando os imensos e quase inacessíveis fundos documentais portugueses, a língua, instrumento de comunicação, surgiria como manifestação do entusiasmo gerado pela curiosidade intelectual dos novos lusófilos. Ao contrário, não dá ! Até ao presente, não deu e só se tem insistido nesse erro porque há interesses em campo: ordenados, linhas de amiguismo, certificações, cargos. É um lóbi, e um lóbi inútil que desperdiça os recursos públicos e impede o inevitável, ou seja, a co-responsabilização luso-brasileira numa política global de difusão dos nossos comuns interesses geo-linguísticos. O Instituto Camões não devia ser coisa portuguesa. Devia ser instrumento de parceria luso-brasileira, irrigado por fundos dos dois países e servir para formar competências, certificá-las e favorecer a instalação de quadros médios nas empresas que lidam com o espaço lusófono ou, ainda, favorecer a instalação de companhias portuguesas (sobretudo brasileiras) num tempo marcado pela emergência do Brasil como potência económica mundial. O inútil cruzadismo pela língua não resultou. Ou o Brasil se interessa pelo investimento a fundo perdido ou não se deve prosseguir num caminho que se revelou, senão inútil, quase insignificante nos resultados.


Felizmente, a língua portuguesa não é coisa em vias de desaparição, como o são a francesa e a italiana. Há duzentos milhões de pessoas que a utilizam diariamente, há estados que a ela recorreram para não desaparecerem, pelo que em Angola, Moçambique e Cabo-Verde o Camões devia mudar de rumo e deixar a responsabilidade do ensino da língua aos ministérios da educação dos respectivos países. Outro erro, coisa tremenda, tão em voga para a linguística como os estudos do "género" para tudo o mais - há género em tudo - tem sido a chamada "crioulística". Não interessa a Portugal partir, quebrar a unidade da língua, fazer concessões ao exótico e a corruções, mas é o que se tem feito em nome de um complexo de ex-colonizador. Quem quer aprender o português exige que lhe ensinem a língua viva. Essa de querer retirar do sepulcro variantes do português já quase extintas, supondo que os descendentes de portugueses as irão ressuscitar, com elas reforçando a "identidade" (outro palavrão em voga) é um rematado disparate. Vão dizer aqueles que não gostam de pensar: "lá está ele a exagerar". Não, meus amigos, não é exagero, é o que é. Nisso, como noutras coisas, sou muito carré: o que deu esse ensino do português ? quantos escritores, quantos trabalhos académicos publicados, quantos amigos conseguiu Portugal em trinta anos de dinheiro investido nesse terreno infecundo ?
Uma última observação que poderá ter o curso de provocação. Um só padre português nas paróquias de Banguecoque, Singapura, Malaca e Flores teria impacto maior que vinte "leitores" de português. Sabem porquê ? Bem, porque os católicos tailandeses, de Singapura, da Indonésia e da Malásia são "portugueses" mas não estão interessados na língua portuguesa. Amam Portugal porque a nossa religião é a "religião dos portugueses", ou seja, a sua, deles. Infelizmente, a Igreja portuguesa já não quer saber da missionação para nada. Está gorda e bem encostada ao pequeno quotidiano do viver sem desafio.
Não, não se trata de assunto de pessoas. Aqui, como sabem, não há ataques pessoais nem se cultiva o estilo ad hominem. Trata-se de um problema de conceitos. O Instituto Camões já teve - e tem - a dirigi-lo servidores do Estado que às suas tarefas se entregam com a maior dedicação e entusiasmo. Trata-se de um problema em não pode nem deve ter "culpados". Nos termos e opções em que vive, dar ao Camões relevância é tão improvável como conceber um navio feito em granito. Qualquer que seja o gabarito do timoneiro, o destino à vista é um afundamento.

9 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois é, "eles" bem melhor fariam em dar uma vista de olhos no trabalho do Boxer. Ainda é bastante credível.

NanBanJin disse...

Certo Miguel, eu até subscrevo o mais deste desabafo.
Mas calma! que não é bem essa "língua viva" dita Português que eles andam para aí a ensinar.
É outra coisa, cujo o nome eu ainda não sei bem qual é, mas que certamente não se refere ao idioma que nós, eu, o Miguel e todos nós portugueses, de facto falamos, lêmos e escrevemos...

Se o Miguel cá estivesse e soubesse da quantidade irreal de livros de "Burajiru-Go" (Língua Brasileira) que abundam pelas prateleiras das livrarias daqui, ainda irrompia por uma delas adentro de chicote na mão, qual Cristo expulsando os vendilhões do Templo!...
É que há coisas que cheiram mais a dinheiro do que deviam... Enfim... Mas de facto não é assim que lá vamos.

Grande Abraço,
do Japão,

Luís Afonso, NBJ

António Bettencourt disse...

Bravo! Um dos melhores textos que li até hoje sobre o assunto. Até que enfim que alguém põe os pontos nos ii.

mpr disse...

Inspirador. Obrigado.

Nova Casa Portuguesa disse...

Sem tirar nem pôr!

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

É de facto uma vergonha que os governos brasileiros têm sido completamente insensíveis a tudo isso, mas não se pode esperar nada de diferente quando a verdade é que eles são liderados pela esquerda revolucionária.
A mesma que, para desconstruir o Brasil, tratou primeiro de demolir a sua base portuguesa apontando o velho Portugal não como um construtor de um império nos trópicos (feito único entre as nações europeias), mas como um parasita (como a Holanda, a França e a Inglaterra nas Guianas, mas estes são exemplificados como exemplo).
Quanto à Igreja, é realmente uma pena que ela não envie ninguém para cuidar dessas comunidades de irmãos esquecidos. Um dia desses, se nada for feito, ainda lá vai um pastor da "Igreja Universal" e eles ainda vão aprender o português sem nenhuma concordância que caracteriza esses bandidos.
E sobre o que disse o Nanbanjin, como brasileiro posso dizer que fico muito envergonhado. Imagino que não é o português americano de um Machado de Assis, de um Ruy Barbosa ou do Gilberto Freyre, o que não seria mal de todo; deve ser algo mais para Paulo Coelho, "É o Bicho" e Lula da Silva.

Cumprimentos luso-tropicais.

NanBanJin disse...

Caro Carlos Velasco:

Não se sinta envergonhado. Eu é que provavelmente me exprimi mal, não tendo completado a minha descrição do que se passa com um 'certo' ensino da Língua Portuguesa, aqui no Japão.

O que sucede é simples de compreender, assim creio eu: para esta gente o Brasil é, mais do que um país com o qual o Japão procura manter relações privilegiadas aos mais variados níveis, é uma potência em fulgurante ascensão, um país de futuro mais-que-promissor, uma terra prometida, é o 5º país mais populoso do Mundo, é um "mercado" a aproximar-se rapidamente dos 200 milhões de almas, em suma, o Brasil é hoje um dos pesos-pesados no Mundo, um país de primeiríssimo plano.
E depois há um nada despiciendo conjunto de valores, culturais e afins, genuinamente Brasileiros, que integram parte de toda uma imagem convidativa do país Brasil em si: é a música Brasileira que é hoje tão apelativa fora do seu espaço natural de convivência (países lusófonos) quanto o é a música anglo-saxónica, é a própria dimensão sub-continental do Brasil que apela ao viajante, ao turista, à juventude ansiosa de ver o Mundo, é ainda a não menos importante capacidade editorial do Brasil , centos de vezes superior à sua congénere portuguesa.

E Portugal?
Bom... a dizer a verdade, Portugal para as gentes daqui é uma mera curiosidade, um resquício da História, uma nota-de-rodapé, u'ma referência remota, algo incomodada, algo a contra-gosto, a uns sujeitos de muito longe que há muitos séculos atrás apareceram por cá, passaram uns "teppos" (arcabuzes) aos da terra, deixaram um bolo de esponja' chamado "casutera" e mais duas ou três receitas culinárias, quiseram impingir um credo religioso de má memória, foram em boa-hora postos a andar, e é hoje sinónimo de Cristiano Ronaldo, o tal que joga futebol num certo Real Madrid. Ponto final.
É triste, é deplorável, que se amalgame toda a memória de um país que foi enorme, que foi imenso, e que teve um desempenho historico-cultural tão relevante nesta parte do Mundo, numa massa informe de referência enciclopédicas e se veja reduzida a um tão esparso e fugaz 'apanhado' de invocações. Sou eu o primeiro a dizê-lo. Mas é a pura verdade.

Assim sendo, e comparando o impacto real na comunicação e na vivência diária das pessoas, de um e de outro país, não será difícil de perceber porque é que é mais fácil propor um 'chamariz' (enganoso, diga-se) intitulado "Burajiru-Go" ("Língua Brasileira") para atrair potenciais interessados. De resto pelo que já pude apreciar de alguns desses livros, na sua maioria até oferecem conteúdos didácticos muito aceitáveis — para quem queira aprender um Português do Brasil 'correcto', não para quem queira aprender a falar o Português que falamos em Portugal. O que apenas contribui, em meu entender, para lembrar que um divórcio consumado entre as duas versões da mesmo idioma é, a cada dia que passa e cada vez mais, uma inevitabilidade. Algo que não pode ser consertado com recurso a acordos ortográficos, políticas concertadas de ensino da Língua ou outros pactos de índole duvidosa. Aceitemos a realidade: em partes diversas do Mundo, a Língua está em permanente transformação seguindo, em cada caso, direcções próprias e distintas, e não vale a pena tentar conciliar o irreconciliável e muito menos lamentar o que é, para todos os efeitos, o curso natural das coisas.
E em todo o caso, como Português, do Brasil sinto eu um imenso Orgulho.

Um Abraço do Japão,
Luís Filipe Afonso, NBJ

Carlos Velasco disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Velasco disse...

Caro Luís Afonso,

Eu, até por causa da vida que tive, não vejoo Brasil e Portugal como duas realidades distintas, mas apenas como estados que resultaram de um acidente que separou um mesmo povo. Até quando falo em “Brasil” sinto que isso é um certo artificialismo, afinal, talvez um carioca tenha mais em comum com um lisboeta do que com um amazonense enquanto um paulista partilhe mais com um minhoto do que com um pernambucano, e um catarinense, ainda, se identifique mais com um açoriano do que com um paraense. Espero que um dia isso (a separação resultante das malditas cortes de Lisboa) possa ser reparado, e penso que é possível.
Quanto ao que você conta do Japão, não imaginava que havia tanto interesse pelo Brasil, ou seja, pelo Portugal das Américas. Mas é natural que a existência de uma comunidade tão grande de japoneses no sudeste brasileiro - e de brasileiros no Japão - facilite isso. Quanto à Portugal em si, esse desinteresse que o mundo demonstra é natural, afinal, a História foi (re)escrita pelos vencedores, como o Miguel tem demonstrado de maneira tão eloquente. Ainda lembro de na Holanda conhecer estudantes de grego e latim que pensavam que em Portugal - e no Brasil - se falava espanhol. Só os mais velhos sabiam que não… O pai de uma antiga namorada minha, por exemplo, me contou que o grande escritor e poeta daquela língua, Slauerhoff, considerava o português a mais bela língua do mundo e que ele próprio, que gostava de Amália, estava de acordo.
Enfim, um pequeno episódio que demonstra que o desinteresse por Portugal tem mais a ver com o esquecimento, a omissão e a ignorância do que com o pequeno tamanho e a pobreza relativa, nos dias de hoje, do seu território original, coisas que podem ser sempre revertidas.

Um abraço.

P.S: Agora reparei que escrevi “exemplificados como exemplo” no meio da pressa. Coisa feia!