30 outubro 2010

Monstrozinhos saídos da proveta do regime


Uma chuva diluviana. Local: a paragem de autocarros. Chegou uma mulher molhada até aos ossos transportando ao colo uma criança recém-nascida envolta num pequeno cobertor axadrezado que pingava. No banco, sentadas e conversando aos berros, com palavrões à mistura com os "baris" e os "tás a ver?", três miudoscas com atavios de "boas marcas" - possivelmente vivendo nas torres das Amoreiras - recebendo consecutivas chamadas do Luís, do Afonso, do "Dênis". Olhando com absoluta indiferença para aquela mulher transida de frio, ali se mantiveram na converseta carregada de pulsões hormonais discorrendo sobre os Luíses, os Afonsos e os "Dênis". Não me contive e perguntei se não tinham reparado que ali estava alguém com uma criança de um mês ou dois. Uma das fedúncias, a muito custo, levantou o enorme traseiro willendorfiano e disse "então, sente-se se quiser". A paragem estava cheia e ninguém ousou proferir a mais pequena migalha de reprimenda.

De facto, estas meninas são o produto de trinta e tal anos de deseducação, desprezo pelas convenções mais elementares de um sistema de ensino que forma criaturas semi-letradas, gananciosas, egoístas e maus cidadãos. Os outros, os adultos a quem cabia dar-lhes a lição de civismo, transformaram-se em cobardes amargurados. São trinta e tal anos de regime. Regressei ao neolítico.

8 comentários:

Carlos disse...

Caro Amigo:

Parabéns pelo postal e pela sua verticalidade.

Quanto à fauna que por aí abunda, creio que ainda nem sequer chegou ao Cro-Magnon, e muito menos ao Homo Sapiens. O Neolítico ainda está para ela a anos-luz de distância.

E, por outro lado, abunda também por aí uma espécie pseudo-letrada que se julga muito «técnica» e «moderna», e que se poderá considerar como pertencente ao «Homo Economicus», o qual, como muita gente sabe, é uma sub-espécie do «Homo Imbecilus». Tanto uns como outros são desprovidos dos mais básicos sentimentos que deram - in illo tempore - à Humanidade a sua grandeza.

Mais uma vez, parabéns pela lição de civismo que deu, tanto a essas fedúncias como aos cobardes amargurados.

adsensum disse...

Andar de transportes públicos ou a pé pelas ruas, circular em espaços comerciais e outros, leva-nos à amargura como a que relata. É uma triste realidade.

Nova Casa Portuguesa disse...

É por essas e por outras que cada vez mais procuro fugir de todo e qualquer contacto humano.

João Amorim disse...

caro Miguel

Infelizmente, como sabe, a nova gente que por aí grassa acha que é constituída de tudo e mais alguma coisa, que tem direitos universais, que é, de certa forma, "intocável". É o mundo dos direitos sem deveres que a política "abrilista" fomentou. Os últimos trinta e seis anos têm sido um fartote no abastardar de valores e princípios. O que me espanta é que esta gente pequenina que nos governa ainda tenha esperança que sejam estes "jovens", mal educados, mal preparados, mal instruídos a fazer debelar a crise que os espera.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

No meio de tanta maldade e desordem a sociedade vai sendo mantida por milhares de actos como esse, que passam despercebidos.
As pessoas que nada fizeram nem devem imaginar o quanto devem ficar gratas por este pequeno gesto, afinal, se este tipo de coisas não fosse acontecendo no quotidiano, a vida seria uma guerra de todos contra todos e elas não poderiam gozar das idiotices materiais que acreditam ser o centro motor do mundo.
Enfim, cosi la nave và...

Um abraço.

Pável Rodrigues disse...

Diz bem: "Regressei ao neolítico". E os paizinhos dessas meninas? Em que período viveram? Em Portugal, com o Salazarismo, só pode ter sido no Paleolítico Inferior. Se "eles" são como são, a culpa só pode ser nossa, isto é, da geração que os pariu.

Daniel Azevedo disse...

Caro Combustões

Permita-me que o cite:
"Só quem nunca fez investigação histórica aceita as novidades. Há quem acredite que o passado foi de Ouro. Ora, não foi nem pior nem melhor, talvez com a atenuante de então ainda existir uma tremenda força capaz de evitar coisas piores: o medo.

Mas nada disto é novo:
«Je n’ai plus aucun espoir pour l’avenir de notre pays si la jeunesse d’aujourd’hui prend le commandement demain. Parce que cette jeunesse est insupportable, sans retenue, simplement terrible…
Notre monde atteinte une stade critique. Les enfants n’écoutent plus leurs parents. La fin du monde ne peut être loin.»

Hésiode (VIII s. av. J.-C.)

Cumprimentos
D.

Manuel Brás disse...

A matéria febricitante
dessas maravilhas viscerais
ganha um fragor irritante
em comportamentos tão florais.

O carrossel de vacuidade
com animais acanhados,
gira a grande velocidade
sobre valores definhados.

Desses produtos acabados
de egoísmo primitivo
brotam procederes babados
por um regime defectivo.