05 outubro 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia. Um tal Encarnação

O Encarnação, ao lado dos tambores. Sir Robert Hart, em fato creme

A história é simples. Em finais do século XIX, o governo chinês quis reformar o sistema alfandegário e aplicar o modelo ocidental. Foram feitas várias tentativas, todas goradas, pois o desconhecimento e a corrupção dos mandarins mandatados para tal tarefa levou a que se contratasse um inglês do Ulster como director-geral dos serviços aduaneiros imperiais. Sir Robert Hart (1835-1911) era um portento que aliava capacidade organizadora inexcedível a uma tal probidade que os comerciantes ocidentais estacionados em Xangai afirmavam "ser demasiado forte para ser destruído e demasiado honesto para ser corrompido". Foi, em vida, um dos mais poderosos e aclamados homens, recebendo dezenas de condecorações e reunindo um pecúlio invejável resultante do mais alto ordenado pago a um estrangeiro na China dos Qing. Hart tinha o seu jardim secreto. Era melómano entusiasta e dedicava todo o seu tempo livre à música. Um dia, lembrou-se que poderia formar a sua banda musical. Entre o seu pessoal, havia dois europeus amantes da música, um holandês chamado van Aalst, responsável pelos correios, e um português chamado E. E. Encarnação. O Encarnação era excelente professor de música e em dois anos pôs de pé uma banda especializada em reportório musical militar, bem como em animar bailes no bairro das legações em Pequim. A sua banda foi a primeira a fazer carreira na China e popularizou a música ligeira europeia em terras da Imperatriz Dragão. Encontrei a referência em Paul King (In the Chinese Customs Service, London, Heath Cranton, 1924), mas outros há que aludem a esta faceta de Hart. Não há dia que passe que não esbarre com estas pequenas histórias de compatriotas nossos que pelo mundo britânico deixaram sulco profundo. De facto, está por fazer quase tudo no que à história dos portugueses na Ásia diz respeito.

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