15 outubro 2010

Coisas terríveis que acontecem no país dos brandos costumes


Encontrando-me em Lisboa a redigir o trabalho que há três anos me propus fazer (as relações entre Portugal e o Sião no período Banguecoque), tenho percorrido os arquivos e bibliotecas da nossa capital para completar investigação em áreas para as quais não possuía ainda massa documental expressiva. Ora, numa das minhas deambulações, passei ali pela Calçada da Tapada, à Ajuda, onde se encontra a antiga Escola Preparatória Francisco de Arruda. Ai estudei no terrível ano de 1974-75. Acabara de chegar de África sem eira e vivia opulentamente com os meus pais e irmãos numa roulloute desse luxuoso resort que dá pelo nome de Parque de Campismo de Monsanto. Era o tempo do ódio à solta, dos "inimigos de classe", das "lutas" e das "punições exemplares", da "justiça popular" [executada por burgueses], de pinchagens, palavras de ordem, comícios, reuniões gerais, "saneamentos com justa causa". Foi um ano alucinante de humilhações e desprezo por nós, "exploradores de africanos"e inimigos do povo. Lembro-me do frio terrível desse inverno, da humidade que doía até aos ossos, da falta de roupa e comida. Sim, importa lembrar tudo isso, pois foi tudo isso que me fez duvidar pela primeira vez da bondade dos homens, dos tonitruantes princípios, dos romantismos revolucionários e demais mentiras de que todas as revoluções dizem representar.

Ao chegar àquela escola, apercebi-me que destoava das outras. Era grande, bem mobilada, confortável até, com as suas salas de aula com aquecimento, laboratórios, oficinas, ginásios, bibliotecas, antiteatros e cantinas verdadeiramente modelares no panorama português. Fora, durante quase duas décadas, um laboratório de metodologia e pedagogia inovadoras e o seu criador, Manuel Calvet de Magalhães, implantara no meio de um bairro popular e operário uma nesga da Suécia. Ali fizera milagres, formando e incutindo nos miúdos de 10 e 11 anos o amor pelas artes, pelo teatro e pelo cinema. A escola possuía uma sala de cinema e tinha um vasto catálogo de filmes formativos e documentários sobre o mundo animal, o meio ambiente, física e química, matemáticas, ciências sociais e história. Uma vez por semana, os alunos eram encaminhados pelos professores para essa sala e assistiam a dois ou três documentários, posto que pedia-se-lhes fizessem redacções sobre aquilo a que haviam assistido. Era uma das preocupações de Calvet de Magalhães: dar voz às crianças, obrigá-las a tomar posição crítica em relação ao mundo, despertar-lhes a curiosidade intelectual. Depois, era também uma escola que tinha aulas de xadrez, música, modelagem e até trabalhos oficinais que facultavam os rudimentos práticos de tudo quanto um homem deve saber fazer: consertar uma tomada, reparar um rádio, coser um botão, encadernar um livro. À entrada da escola, esculpida na pedra eterna, uma citação de Salazar: "a violência é o argumento do incompetente".

Calvet de Magalhães era salazarista, pois claro, mas um desses salazaristas muito próximos de uma certa social-democracia, como lembrou Renzo De Felice. Acreditava na desigualdade pelo mérito, no aprimoramento pelo trabalho, pela inteligência e pelo estudo, conciliava a ordem com o progresso e estava absolutamente convencido que os indivíduos devem ser guiados à luz. Foi o maior erro do pedagogo, pois os comunistas, então em frenesim de destruição de tudo quanto se lhes pudesse opor resistência, buscavam inimigos inteligentes e não idiotas ultra-conservadores. Calvet não era um desses cinzentões insignificantes que faziam as delícias do imaginário das caricaturas de Abel Manta. Era culto, dono de vontade indomável, um mouro de trabalho, dotado de grande capacidade de realização e liderança. Era, em suma, o pior inimigo do totalitarismo comunista. Pior ainda, era de um patriotismo exaltante e por toda a escola se cruzavam alusões ao passado (aos cientistas e escritores) e se afirmava um optimismo contagiante em relação ao futuro.

Em 1974, uma turbamulta de miseráveis - alguns dos quais haviam sido alimentados à mão pelo pedagogo - instaurou a revolução na Francisco Arruda. Os abaixo-assinados, as reuniões de crítica, a denúncia de colegas, a limpeza das bibliotecas de tudo quanto lembrasse "literatura reaccionária", as pressões, os jornais de parede precederam o terror. Dizia-se que Calvet era da União Nacional, que fora "denunciante da PIDE", que era monárquico, "anti-comunista primário". É claro que o homem nunca fizera política, não tinha lóbi nem funcionava em rede. Era, apenas, um grande profissional da educação e tudo isso deixara de ter valor no Portugal que resvalava para a tirania da rua e do mais desavergonhado trepadorismo, pois nos processos revolucionários surgem sempre os mais impulsivos tarados em busca de sucesso que nunca alcançariam em períodos de normalidade. Havia que matar o inimigo e a partir de Maio de 74, a célula PC iniciou a diabolização do desgraçado. Impediram-no de entrar no seu gabinete da direcção, devassaram-lhe os documentos, cortaram-lhe o telefone, impediram-no de percorrer os corredores da escola que criara, enviaram-lhe centos de cartas anónimas com as mais soezes insinuações e ameaças.Isolado, sob pressão do terror psicológico e da violência física, o mundo de Calvet desagregou-se. Fechou-se na casa de banho, deitou-se na banheira e matou-se. É este o mais acabado testemunho da mentira dessa tal "revolução sem derramemento de sangue".

12 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Mas foi digno. Uma pena que ninguém tenha reparado na auto-imolação.

editor69 disse...

PHO_DAÇE...quanto mais leio desse período...mais estupefacto fico...nem sei que diga.

Isabel Metello disse...

Não conhecia o percurso, mas um homem de Honra, sem dúvida, é preciso ser-se muito bom para se ser o alvo predilecto de matilhas de cobardes que, intemporalmente, em grupo ou numa posição de poder são feras, individualmente ou face a quem julgam detê-lo, são uns gatinhos submissos... de facto, os autênticos não sistémicos são-no por princípios, por algo que ultrapassa os meros contextos conjunturais...já os da outra banda, tentam sempre estar confortáveis em todos os sistemas, regimes, conjunturas nem que tenham de dobrar a coluna até ao chão...mas que digo eu? não se dobra o que já por si é por demais flexível :) são aqueles que antes eram pró e, depois, passam por milagre da Farinha Amparo a opostos ao prévio e defensores acérrimos do consensual e unanimemente sacralizado...

Lura do Grilo disse...

Faz bem lembrar. Há muito poucos dias encontrei-me com um Prof. Catedrático que tinha sido meu professor. Ficou orfão muito cedo e sem quaisquer recursos. Foi um desses "salazaristas" nefandos de Coimbra que lhe viu tremendo valor e lhe deu uma bolsa de estudo para singrar na Universidade.
Ele está reconhecido e também foi perseguido nessa altura: eu lembro-me de passar alguma fome e escassez de quase tudo. Lembro-me de perseguirem um professor apenas por ser Padre. Essa canalha nunca deu nada.

Que podemos esperar de uma ideologia que matava professores, quem tinha óculos, quem sabia ler? É bárbaro!

Abraço

BOS disse...

Que grande texto, Miguel. E que bela homenagem.

Euro-Ultramarino disse...

Enquanto os crimes desta revolução maldita permanecerem no pedestal ou no conveniente esquecimento, enquanto os seus autores continuarem a exibir-se para aí com ares de sumidades, o pouco que resta de Portugal não terá direito se quer a um funeral em campa rasa. Grande texto a vergastar a escumalha. E bonita homenagem a um Senhor que passou por esta vida e espalhou as sementes do bem. Um abraço amigo.

Peter Calvet disse...

O professor era meu tio e ele nunca me falou em politica. Salazarista? Duvido. Era "Salazarista" na mesma maneira que todos os Portugueses desse tempo eram "Salazaristas". A grande maioria dos Portugueses simplesmente viveram a sua vida sem grandes illusoes politicas. Mas "Salazaristas"? Esses eram bem poucos.

Peter Calvet disse...

O professor era meu tio e ele nunca me falou em politica. Salazarista? Duvido. E verdade que ele nao "lutou" contra o regime politicamente, mas ele lutou pela a educacao e era um grande reformador apesar do regime. Por isso, merece todas as homenagems. Mas "Salazarista" e um boco demais.

Índian Espadanal disse...

Sou PROFESSOR de ARTES, SOU um PROFESSOR que continua o SONHO-A primeira ESCOLA por onde passei foi a FRANCISCO ARRUDA no distante ANO de 1977.VEJAM a SORTE!!!
OUVI falar de CALVET, mas o IMPORTANTE é que segui o seu (K)...aminho levado até hoje por uma FORÇA que não sei de onde tem a sua ORIGEM. Vou fazer no meu BLOGUE uma HOMENAGEM a este SENHOR. ATENÇÃO, os tempos HOJE continuam a ser os MESMOS-a MALDADE impera e nós os ARTISTAS somos ingénuos como "PEDRO" ...no meio dos LOBOS.
Vou servir-me se me autorizar do seu PRECIOSO ARTIGO. Ele é a bandeira da minha tristeza, hoje 33 anos depois da FRANCISCO ARRUDA.
http://indianespadanal.blogspot.pt/

Índian Espadanal disse...

O meu endereço
pensadorlobo@clix.pt

agraf74 disse...

Bem haja por este texto. Vim aqui ter por causa deste texto que só agora li, da poetisa Natália Correia (Não Percas a Rosa: Diário e algo mais, 25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975. Publicações Dom Quixote, Lisboa 1978; pág. 313):

«Num país onde a denúncia foi sempre por demais repulsiva (...) pidificam-se os costumes, afixando-se nos locais de trabalho e nas escolas convites à delação estimulada com a garantia de sigilo. (...) Outras vezes o cinismo é fértil em engendrar o incentivo ao suicídio quando, não podendo alegar comprometimentos com o caetano-salazarismo, arranja meios de liquidar aqueles que na nova ordem totalitária perseveram em repudiar a intolerância que na pretérita não aceitaram. Calvet de Magalhães, eis um nome que tragicamente simboliza a dignidade que na escolha da morte responde à baixeza que o queriam forçar a engolir. Quantas vezes, na sua escola-modelo Francisco de Arruda, a que consagrara toda a vida e a paixão pedagógica, desfilaram poetas e escritores que, a seu convite, iam instruir os alunos na palavra indócil ao poder liberticida. Não ousaram, portanto, os novos próceres da pedagogia revolucionária que se apossaram da direcção da Escola, expulsá-lo cruamente. Entre crueza e crueldade, foi-lhes esta mais propícia ao objectivo de o reduzir a zero num Conselho de Direcção em que a sua voz seria esmagada pelo coro dos delapidadores da sua obra. E já entre os primeiros destroços, ali mesmo, onde construira um exemplo de pedagogia aberta às práticas da imaginação e da liberdade, Calvet de Magalhães pôs termo à vida, dela se afastando num discreto pranto pela revolução que saudara e via barbarizar o ensino de que fora devotado e liberal expoente.

Um suicídio entre muitos. E quantos a povoarem de espectros acusadores esta coisa de urina e naifa mental que num perene plenário de fedores e canalhices ousa chamar-se revolução.

*Não Antero, meu Santo, não me mato, / Antes me zango até ficar um cacto. / Quem me tocar, maldito! que se pique.*

É verdade, ainda no meio desta fétida desmotivação de poemas, sai-me em verso o electrocardiograma da náusea.»

Sugiro também a leitura desta página de memórias:

http://largodoscorreios.wordpress.com/2012/11/15/calvet-de-magalhaes-7/

agraf74 disse...

Bem haja por este texto. Vim aqui ter por causa deste texto que só agora li, da poetisa Natália Correia (Não Percas a Rosa: Diário e algo mais, 25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975. Publicações Dom Quixote, Lisboa 1978; pág. 313):

«Num país onde a denúncia foi sempre por demais repulsiva (...) pidificam-se os costumes, afixando-se nos locais de trabalho e nas escolas convites à delação estimulada com a garantia de sigilo. (...) Outras vezes o cinismo é fértil em engendrar o incentivo ao suicídio quando, não podendo alegar comprometimentos com o caetano-salazarismo, arranja meios de liquidar aqueles que na nova ordem totalitária perseveram em repudiar a intolerância que na pretérita não aceitaram. Calvet de Magalhães, eis um nome que tragicamente simboliza a dignidade que na escolha da morte responde à baixeza que o queriam forçar a engolir. Quantas vezes, na sua escola-modelo Francisco de Arruda, a que consagrara toda a vida e a paixão pedagógica, desfilaram poetas e escritores que, a seu convite, iam instruir os alunos na palavra indócil ao poder liberticida. Não ousaram, portanto, os novos próceres da pedagogia revolucionária que se apossaram da direcção da Escola, expulsá-lo cruamente. Entre crueza e crueldade, foi-lhes esta mais propícia ao objectivo de o reduzir a zero num Conselho de Direcção em que a sua voz seria esmagada pelo coro dos delapidadores da sua obra. E já entre os primeiros destroços, ali mesmo, onde construira um exemplo de pedagogia aberta às práticas da imaginação e da liberdade, Calvet de Magalhães pôs termo à vida, dela se afastando num discreto pranto pela revolução que saudara e via barbarizar o ensino de que fora devotado e liberal expoente.

Um suicídio entre muitos. E quantos a povoarem de espectros acusadores esta coisa de urina e naifa mental que num perene plenário de fedores e canalhices ousa chamar-se revolução.

*Não Antero, meu Santo, não me mato, / Antes me zango até ficar um cacto. / Quem me tocar, maldito! que se pique.*

É verdade, ainda no meio desta fétida desmotivação de poemas, sai-me em verso o electrocardiograma da náusea.»

Sugiro também a leitura desta página de memórias:

http://largodoscorreios.wordpress.com/2012/11/15/calvet-de-magalhaes-7/