25 setembro 2010

Quando os governantes eram do tamanho de uma fortaleza


Pediu-me um amigo que publicasse o retrato de D. Diogo de Sousa, Conde de Rio Pardo, sem dúvida o último dos grandes governantes do Oriente português. Hesitei, pois, desde o século XIX, quando se fala em governantes, surge-nos amiúde a imagem de homenzinhos que tanto poderiam estar atrás de uma bancada de mercearia a vender secos e molhados, como umas mantas aos quadrados na Feira da Ladra. Perdeu-se para sempre a ideia que o poder não serve para roubar, mas para fazer honra. Perdeu-se a ideia que ser governante não quer dizer servir clientelas, concitar aplausos e panegíricos, mas exercer com inquebrantável teimosia o interesse do Estado.

Homens assim já não existem. Rio Pardo fazia parte dessa geração derradeira de homens fadados para o mando. Era um mouro de trabalho, inquisitivo, meticuloso, experiente, exigente e justiceiro. Depois, era informado, lia latim, escrevia com toques de literato e era oficial de cavalaria; em suma, um clássico. Com 67 anos no dia em que foi deposto, mantinha intocada a panache e o orgulho de uma casta de serviço que foi varrida pelas chamadas ideias novas. O retrato que ainda hoje se encontra no Palácio do Hidalcão, na galeria dos Vice-Reis de Goa, parece desafiar o tempo. Antes assim, que se salve o passado, pois do presente não se falará !

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Com esta conversa toda do ADN, talvez se possa ir ao seu túmulo e cloná-lo. A ele e a uns outros que eu cá sei.

António Bettencourt disse...

Não é por nada, mas neste retrato, a cara dele parece mesmo a do Sócrates.