05 setembro 2010

Nós, pied-noirs


O Paul, africano como eu, tem sido das poucas amizades europeias perduráveis que fiz na Ásia. Vinte e poucos anos mais velho do que eu, nasceu na Argélia e pela Argélia pegou em armas para defender o direito de permanecer na terra que amava e era a sua pátria. Traído pela França, como gosta de frisar, sobretudo por esse enigma camaleónico, mitificado e intocável que é De Gaulle, percorreu o mundo e a sua vida é uma aventura. Ao abandonar a sua Argélia, ele que lutara pela França, recebeu o prémio de um mandado de captura emitido pelas autoridades de Paris. Foi para Espanha e daí para Portugal, o único país que lhe deu acolhimento, pelo que tem por nós uma grande simpatia. É, à sua maneira, um lusófilo.

Depois, foi professor universitário no Senegal e Madagáscar, esteve na República Centro-Africana e no Zaire, conhece como ninguém o que resta da velha Indochina Francesa e vive entregue à leitura. Já não há homens assim. Alia uma grande cultura histórica, literária e teológica [católica mas não cristã, como gosta de dizer, pois cristão transformou-se em sinónimo de parvoíce americana] a dotes de grande conversador. Dos ocidentais que conheço, foi dos únicos que ousou sair às ruas durante os combates de Maio e fez reportagem, ouviu os intervenientes, riu-se do corta-cola dos enviados das agências ocidentais e partilha comigo a convicção de que a Tailândia esteve a milímetros do abismo. Como se recusa aprender "essa língua de piratas e mercadores que é o inglês", aprendeu Thai para comunicar com os thais. Vive entre thais sem cair no ridículo de querer ser thai, pelo que o seu ocidentalismo é, sem tirar, igual ao meu. Ah, esquecia-me, fala e escreve árabe !

É um "direitista" como eu, ou seja, não é racista, não é euro-cêntrico, não acredita em estórias da carochinha nem no romantismo dos recitativos grandiosos e ocos com que se entretém a direita tribalista. Tem a grande qualidade de dizer em poucas palavras aquilo que é essencial, tocando no cerne sem se perder em fogos de artifício. Um dia, sem hesitações, definiu a França como um país de "regicidas" e disse, perante o estupor de ouvintes sem grande preparação política que "a democracia são 60 anos da história europeia, ou seja, quase nada". É um monárquico estético e não acredita, decididamente, no universo de plástico e nas superstições em que vivem emparedados dos farang aqui estabelecidos. No Paul encontrei um outro africano branco, apanhado no fogo cruzado e réu involuntário no tribunal da história que juntou vítimas e assassinos, leais combatentes e desertores, patriotas e derrotistas.

Estou absolutamente convencido que a Argélia, como o meu Moçambique, perderam ao deixar-nos sair. Agora que se aproxima mais um "7 de Setembro", vejo que a ingrata História nos deu razão. Nós éramos o grão de sal que se perdeu na sopa da independência.



L' Hymne des Français d' Algérie – Jean Paul Gavino












MP3 search on MP3hunting

4 comentários:

Paul disse...

21 avril 1961… J’étais au lycée Bugeaud… Au pied de la Casbah, à l’entrée de Bab-el Oued… Place de l’Amirauté, depuis tôt ce matin, les Bérets verts du commandant Hélie Denoix de Saint Marc étaient là… Bien là. J’allais vivre les plus belles heures de ma vie… Raoul Salan, Maurice Challe, André Zeller, Edmond Jouhaud présidaient à nos destinées…
Merci Miguel. Mon premier voyage hors d’Algérie fut pour le Portugal. C’était pendant l’été 1959. Reçu par les étudiants d’une république de Coimbra… C’est avec eux que je reçus mon baptême de l’air… De ce séjour, je conserve encore avec moi cette modeste banderole « Angola e Portugal »… Et aussi cette fragile statue en terre cuite d’un étudiant en droit, de la faculté de droit de Coimbra ! Il est toujours là, indemne, près de moi alors que je rédige ces lignes… C’était aussi le temps où depuis Lisbonne nous écoutions Jacques Ploncard d’Assac et la Voix de l’Occident…

mpr disse...

texto inspirador. muito obrigado

Euro-Ultramarino disse...

Caro Miguel:
É com viva emocao que leio estas linhas. Eis aí um francês d´Outre-Mer que bateu-se pela Pátria que nao se permite morrer. Parabéns aos dois!
Um abraco amigo.

Cher Monsieur Paul:
Merci de votre emouvant récit! Paroles d´un vrai patriote!

Justiniano disse...

Caríssimo Miguel,
Não sabia que seriamos assim tantos!!