20 agosto 2010

Não me falem em cultura

A cultura e a tradição justificaram o seppuku, a excisão (vulgo mutilação genital feminina), a lapidação de adúlteras, o talhar de membros e narizes de pequenos ratoneiros, o ferro caldo para apóstatas, os suplícios públicos, a tortura, as fogueiras e em seu nome se levantaram as mais iracundas vozes da conservação quando se tratou de justificar a escravatura. A civilização, essa bate-se por causas nobres: a despenalização das drogas, o infanticídio até às não sei quantas semanas, a bondade da guilhotina e da cadeira eléctrica, as guerras libertadoras e até a bomba atómica lançada sobre duas cidades japonesas. Não há diferença senão no modo: são biombos de hipocrisia e aquietadoras da cobardia irresponsável.

Anteontem, um touro teve a brilhante ideia de fazer justiça pelos próprios cornos. Os homens da cultura dirão que a tourada é milenária, que a tensão entre o homem e o animal atinge culminâncias e que o sangue derramado é gota no oceano da carnificina muda que nos chega ao prato do bife, da galinha à fricassé ou da lagosta cozida viva. Por mais que queira compreender o argumento, o pouco de civilizado que tenho impede-me de aceitar que uma tradição, só por ser tradição, tenha vantagem sobre a repulsiva brincadeira envolvendo centos de espectadores inebriados com o sofrimento de um animal. Entre a tourada e as lutas de gladiadores, optaria pela arena do Circo Máximo. Aquele senhor Touro valeu uma tese de antropologia animal.

8 comentários:

Rogério disse...

Excelente.
Plenamente de acordo! Sempre fui contra esta dita "cultura"! Pra mim isto não é nem mais nem menos que uma autêntica barbárie contra estes pobres animais!
Tenho pena que na bancada da arena não tenham estado estes senhores iluminados que tanto defendem esta dita "cultura"! Estou certo que, esses iluminados, certamente deixariam de apoiar esta "cultura"!

Nuno Castelo-Branco disse...

Em Madrid, por exemplo, foi com espanto que os aficionadíssimos homens da 2ª república, finalmente encontraram os famosos óculos de sol de Vitória Eugénia. No Palácio do Oriente, passado a pente fino, estavam ansiosos por encontrar testemunhos da prodigalidade real.
Vitória costumava ir às touradas que envolviam protocolo de Estado e invariavelmente, lá estava ela na tribuna de honra, com os seus óculos ao estilo das estrelas do cinema muda.
Descobriu-se a "revoltante" verdade: eram óculos totalmente opacos, para cegos. Noblesse oblige.

NanBanJin disse...

Bom... eu confesso que, desde miúdo, sempre apreciei uma boa 'pega de caras' !
O demais da tal 'cultura' tauromáquica passa-me sumariamente ao lado.

A dizer a verdade, o certo é que na tourada espanhola, pior que a essência da prática dos 'touros de morte' ou a intervenção e desempenho do matador na execução do animal, ele há uma série de outras práticas sanguinárias que sempre me impressionaram bem além tolerável e que ainda hoje me repugnam profundamente, das quais destaco a intervenção dos 'picadores' a cavalo.

No caso da corrida 'à Antiga Portuguesa', pois, lá está... aos forcados sempre achei piada, é facto...

Mas ele há os que estão de pedra e cal que sem farpas e bandarilhas não há 'festa brava'...

Enfim, pois que abolam de uma vez por todas a barbárie. Cumpra-se o volver dos tempos.

Mas eu sinto que no dia em que não mais houver esses velhos e destemidos 'grupos amadores' daqui e dali — Santarém, Lisboa, Alcácer-do-Sal... (recordo-me de há uns anos poucos, nesta bonita terra sadina, ter visto, num café, um anúncio a solicitar candidaturas para uma ressurreição do grupo de forcados amadores local) —, qualquer coisa de tão inexoravelmente Português terá então morrido.
E nesse dia uma certa tristeza, tanto sei ser certo, assolar-me-á o coração.


Do Japão,
Luís Filipe Afonso, NBJ

Edward Luiz Ayres d'Abreu disse...

De acordo. Parabéns pelo artigo.

m.a.g. disse...

Não podia estar mais de acordo.
Brilhante.

zazie disse...

Excelente texto.

Pedro Leite Ribeiro disse...

A tradição não pode justificar actos cruéis, também concordo. Espero que a tourada não dure tanto tempo como a hipocrisia porque esta, estou certo, acompanhará a humanidade até ao fim dos tempos.

Abel Cohen disse...

A barbárie, os animais, o sofrimento, a tradição, etc. etc. Não leio argumentos novos. A comparação da excisão e da lapidação à tourada é completamente despropositada.
Faço um desafio ao Combustões: que deixe de parte os clichés da esquerda caviar sobre a tourada, dando de barato que é efectivamente uma barbárie, e se debruce ante sobre o respectivo efeito catártico (cuja importância é velha como o mundo e foi posta em papel há uns quantos milhares de anos por um tal Aristóteles...).