09 agosto 2010

Elefantologia lusa

Não brincamos. É uma ciência veneranda com direito a biblioteca interminável de obras com chancela científica sobre o mais tímido, dócil e inteligente dos animais, eventualmente com uns dedos de inteligência, asseio e vida social acima dos bípedes implumes, vulgo humanos. A elefantologia está, de novo, em crescendo. Hoje, na livraria da esquina, contei seis títulos entre novidades e reimpressões. Para os thais é uma divindade e há espalhados pela cidade santuários dedicados a Ganesha e ao elefante de Erawan, um colosso tricéfalo branco-rosa que põe a um canto qualquer figura mitológica do panteão greco-latino.


Quando em Bangueoque se inaugurou a estátua equestre do Rei Rama V (r. 1868-1910), a multidão exalou um ahhhh de espanto, pois a representação de um rei a cavalo quebrava todas as expectativas e constituia quase um insulto à sacralidade do monarca, avatar de Vishnu. Um Rei, só montado no dorso de um proboscídeo elefantídeo. Para os thais, o cavalo é um frágil animal e o seu uso estava destinado a capitães de mesnada, nunca a um Rei. A grande heroína nacional deste povo é a rainha Suriyothai e da intrépida amazona há centos de estátuas espalhadas por toda a geografia tailandesa. Suriyothai está sempre retratada como cornaca no momento decisivo da batalha contra os invasores birmaneses em que foi trespassada por uma lança. A revoada dos pandas é coisa induzida pelo negócio dos zoo's, mas quando esta passar voltará, como sempre, o afecto que os thais têm pelos elefantes. Portugueses houve que se interessaram pela "antropologia do elefante". Mostrei há semanas em Lisboa a uma professora tailandesa uma obrinha cheia de garbo que saiu do cálamo de um dos nossos mais aguerridos cônsules-gerais no Sião, Frederico Pereira, que aqui esteve ao longo da década de 1890 e deixou brilhantes relatórios e impressões sobre a sociedade e instituições siamesas. Frederico Pereira entrou pela porta grande da elefantologia. Deixou os Elephantes, um livro raríssimo que, se fosse traduzido, colheria o maior aplauso entre os elefantómanos. Aqui fica, pois, a sugestão para um dos nossos editores.

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