12 agosto 2010

Intolerâncias

Persiste o mito resistencialista [italiano e francês] do pós-guerra de uma luta sem quartel entre o fascismo e o comunismo. Chega-se ao extremo de recobrir a extensa e complexa família dos fascismos sob a designação genérica de "nazi-fascismo", numa lamentável como intencional amálgama de planos tendente a dissociar do fenómeno a sua real e matricial genética socialista. O nazismo foi aliado do fascismo, mas esse entendimento parece surgir como uma associação acidental - isto é, histórica - e não como uma relação de parentesco. O fascismo, é verdade, ensinou Hitler a fazer uma ditadura, mas entre os dois movimentos parece haver tantas e irreconciliáveis contradições que só a custo os poderemos colocar na mesma família. Aliás, atentando à experiência histórica, a relação de afinidade, nos modos e políticas, parece ser maior entre o nazismo e o estalinismo que entre o nacional-socialismo e o fascismo enquanto ideologias.
De facto, o fascismo foi uma variante socialista da recusa do liberalismo e do capitalismo, mas também dos fundamentos da civilização cristã. O fascismo nasceu republicano, socialista, estatista e transpersonalista mas teve de conviver com circunstâncias adversas à sua implantação, uma mesologia social e cultural que o obrigaram a um modus vivendi com a monarquia, a Igreja Católica e a sociedade italiana. A via italiana para o totalitarismo falhou, absolutamente, porque o fascismo - é um facto - não existiu. O que houve em Itália foi um regime autoritário com tiques e aspirações totalitárias que nunca vingou. A falar-se desse regime, deve-se utilizar com propriedade a consabida expressão de Arendt, segundo a qual esse fascismo não passava de "uma vulgar ditadura de direita". O que houve em Itália foi um regime mussoliniano, pois que todo o regime, não obstante a procura de legitimidade ideológica, viveu sempre da relação entre o seu líder e o povo italiano. Quando Mussolini caiu em desgraça, o regime e o fascismo estatelaram-se.

De Guglielmo Salotti , Nicola Bombacci: un comunista a Salò, publicado em 2008 - a que só agora tive acesso - vem demonstrar que o fascismo puro, isto é, aquele que nunca teve de se adaptar às circunstâncias da governação, foi, da sua génese aos derradeiros dias de Salò, um movimento socialista. Bombacci foi líder do Partido Socialista Italiano com Mussolini e, depois, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Após a Marcha sobre Roma, com o consenso mussoliniano com o velho liberalismo, a Igreja e a Monarquia, Bombacci manteve-se fora. Com a ruptura do consenso, com a derrota militar e a criação da República de Salò- um Estado fantoche manipulado pelos alemães - deu-se aos "velhos fascistas" poder para reeditarem as premissas do movimento. Não podendo governar (os alemães não o deixavam), empenharam-se na "purificação" do fascismo. E o que nasceu desse esforço ? Republicanismo, defesa das nacionalizações, formulação de uma teoria de co-gestão empresarial, sindicalismo revolucionário, anti-catolicismo militante. O PCI quis ver nessa cartada um desesperado movimento demagógico. Infelizmente, os factos contradizem a simplificação. Ao longo dos anos do consenso, os elementos ideologicamente mais "puros" do fascismo dedicaram-se à teorização ideológica e ao "combate cultural", pois que Mussolini deles não precisava para governar a Itália. Ao longo dos anos 30 e inícios de 40, cripto-comunistas e fascistas puros conviveram e fizeram o que o regime mussoliniano lhes permitia fazer: revistas, cinema, ensaio, literatura. O tão aclamado Neo-Realismo nasceu desta camaradagem entre comunistas e fascistas, bem pagos e integrados nas estruturas do Ministério da Educação Popular, do Instituto Luce, na Gioventù Universitaria Fascista e no Dopolavoro. Em 1943, Bombacci, ao invés de optar pela resistência, optou por Salò e pelo seu velho amigo Mussolini.

O Duce teve sempre grande interesse pela URSS, talvez mais genuino que o que sentia pela Alemanha nacional-socialista. Mussolini manteve boas relações diplomáticas com a URSS - na noite que precedeu o ataque alemão à URSS, houve grande jantar-festa na embaixada soviética em Roma, com a presença dos mais altos hierarcas do regime, pelo que as más línguas sugerem que Hitler não informou Mussolini do iminente ataque à Rússia de Estaline com medo que os amigos fascistas italianos informassem o Kremlin - e ao longo dos dois anos que se seguiram Mussolini defendeu sempre a ideia de uma paz separada entre o Eixo e a URSS. O anti-fascismo foi, pois, uma estória do pós-guerra !

Depois, há atitudes denunciando genética comum. Não deixam ninguém falar, berram e ameaçam quando postos em causa, não autorizam réplica, julgam que são donos da palavra e da verdade, insultam e desprezam tudo o que não compaginar com a sua (deles) liberdade opinativa, cultivam a vitimização, recorrem sistematicamente à propaganda e à exploração sentimental, vivem no grupismo do partido, da loja ou da curibeca, detestam a solidão, punem os dissidentes; em suma, "fascismos" que têm medo de se ver ao espelho !


Vado vinco e torno

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

O ema a tratar, consiste na situação de detentores da refém democracia. Sem guardas, "ela anda à solta" e coloca-se em perigo! No fundo é esta a lógica que ouvimos na televisão, lemos nos jornais.