25 agosto 2010

Coisas que ficam


Dei aulas naquela universidade durante uma década, mas ali fui também responsável pela biblioteca e director do Curso de pós-graduação em Ciências Documentais. Foram anos trepidantes de actividade distribuída pela Biblioteca Nacional, com uma corrida ao jornal diário onde exercia funções [não remuneradas] como director-adjunto, nova corrida para as aulas do mestrado na Universidade Nova, que viria a concluir em 1999, mais um táxi em velocidade contra-relógio para chegar a horas à universidade para leccionar a cadeira de Introdução ao Pensamento Contemporâneo. Assim foi durante três mil dias. Foram anos interessantes, mas confesso que hoje não faria metade, pois com o passar dos anos apercebi-me que devemos fazer uma coisa de cada vez e que o dinheiro não é tudo. Aliás, que eu saiba, nunca ninguém fez dinheiro a trabalhar. O dinheiro faz-se por outras vias, mas como dele só preciso para viver com independência e dignidade, recolhi-me à vida de funcionário público e julgo ter feito dois bons mandatos enquanto chefe de divisão de investigação numa instituição que existe há mais de 200 anos. O problema de hoje é que as pessoas vivem para mil projectos, mas raramente deles fica a mais pequena migalha que assinale essas correrias.

Como saí de Lisboa em 2007, com bolsa em boa hora concedida pela FCG, não tive conhecimento do lançamento de uma obra magna, grande como um tijolo, que as edições lusófonas publicaram nesse ano. Há semanas, inesperadamente, o livro veio ter-me às mãos e lá estava um ensaio que escrevera a pedido do então reitor da Lusófona, o Professor Fernando Santos Neves. Li-o como se não fosse meu, pois tantos anos passados já mal me lembrava daquilo que escrevera. Para quem se dedica à investigação, o que fica é o papel impresso, com erros, com vulnerabilidades, ideias entretanto corrigidas. É como se víssemos uma foto antiga. Agora, que estou no momento culminante de anos de estudo sobre as relações em Portugal e a Tailândia, em vésperas da defesa de tese sobre o assunto que me trouxe a este canto do mundo, só antevejo o momento em que "a tal obra" chegue às rotativas e fique para dez, cem, duzentas pessoas que se interessam por estas coisas. Um livro não é escrito para os outros. É para nós. O importante é aquilo que ele produziu em nós. Quando "o tal livro" sair, vou fazer umas férias longas, despreocupadas, serenas. Estava a remoer estas vulgaridades virgilianas quando tocou o telefone. Era o meu chefe que me dizia: "Miguel, avance com isso porque para o ano há muito trabalho".

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