15 agosto 2010

Barrela patriótica

O patriotismo não é ideologia nem doutrina; é um sentimento sem o qual a sociedade, as instituições e o Estado carecem de significado. Tão habituados às "desconstruções" dos camartelos do marxismo - que tudo reduziu a "alienações" e interesses de classe - e do mais prosaico capitalismo - que procedeu à dedução do sentido da vida colectiva pelo "bem-estar" e consumo - espantamo-nos perante a natural intervenção do Estado no fomento do patriotismo. Sim, a verdade - ericem-se os "jovens da geração de 68", que andaram décadas a apedrejar os símbolos nacionais - é que sem patriotismo não há nem civismo nem cidadania. Percorri os bancos do liceu e da universidade recebendo verdadeiras barrelas de anti-portuguesismo. Hoje, o patriotismo português está confinado ao esférico e os governantes não sabem como recuperar a unidade, pois o patriotismo é como uma liturgia: se não se celebrar diariamente, se não for permanentemente regado e inculcado, desaparece. E o que fica do irreparável vazio desse poderoso elemento agregador ? Governantes sem autoridade, o Estado sem finalidade, cidadãos de coisa alguma. O patriotismo não é de esquerda nem de direita: é nacional.


Tocou o telefone e um amigo meu, que trabalha para o governo tailandês, convidava-me para a inauguração de uma exposição que marca o início de um vasto ciclo de iniciativas que em boa hora o governo desencadeou para exaltar os símbolos nacionais. Vesti-me à pressa e à hora combinada cheguei ao local do arranque da campanha. O vice primeiro-ministro acabara de chegar e uma multidão de jornalistas disparava girândulas de flashes. Simples, com a grandeza de tudo quanto dispensa apresentações, deu-se início à sessão. Uma procissão das bandeiras nacionais da Tailândia empunhadas por jovens das escolas secundárias da capital, desfilou com solenidade exibindo o friso das bandeiras deste reino, dos tempos de Sukhothai e Ayutthaya à presente era de Banguecoque. Marchas patrióticas, cantadas por uma rapariga de vibrante voz, explicavam a sucessão das batalhas e guerras que fizeram deste país, velho de 800 anos, um rematado sucesso de sobrevivência e liberdade.



Os jovens aprendem na escola, do infantário à universidade, tudo o que os distingue dos outros. Sim, patriotismo quer dizer orgulho, pertença, diferença e disso não se envergonham os thais, que levam a extremos a sua singularidade sem que tal se exprima pela retórica do belicismo e do ódio contra o estrangeiro. Nas escolas há actividades patrióticas, o curriculo escolar inscreve-as como disciplinas obrigatórias e quem não souber a complexa trama de símbolos, bandeiras, pavilhões e flâmulas - da Casa Real, do governo, dos ministérios, das províncias e das Forças Armadas - , bem como os hinos, marchas e textos mais representativos da história de heróis e heroínas não passa ! No fundo, o patriotismo é mais importante que a aritmética, justifica a gramática e a literatura, dá substância à História e à Geografia, abre passo à preservação da natureza, da fauna e da flora. Depois, a Tailândia é uma monarquia budista. É, também, uma democracia, e se isso quer dizer "soberania popular", o povo só tem significado se for protagonista de uma vontade colectiva que ultrapassa as gerações. Explica-se, assim, o triunfo sobre o comunismo nos anos 60 e 70 e, recentemente, o estrepitoso fracasso da conjura plutocrática-mundialista que quase atingiu os seus objectivos.

Terminada a apresentação do calendário patriótico, a marinha real exibiu-se na praça fronteira. Um mar de aplausos e o hino nacional cantado por todos os assistentes. Aqui, as Forças Armadas não têm vergonha da farda que envergam, aqui não se padece desse tão ufano "civilismo" que por outras paragens reduziu os militares a funcionários públicos; aqui, ao Ministério da Defesa só ascendem titulares com formação militar. Conheci em tempos um "objector de consciência", por sinal filho de um ex-desertor, que tinha por tema predilecto catilinar contra Portugal. Anos depois encontrei-o "quadro superior dirigente do Estado". É preciso dizer mais ? Sim, Portugal precisa, com a máxima urgência, de uma boa barrela patriótica. Não é preciso ter grande imaginação: venham copiar à Tailândia. É para isso que existe a cooperação entre Estados.

แผ่นดินของเรา = Pên Din Khong Ráw (A Nossa Pátria)

2 comentários:

Pedro Marcos disse...

Miguel, curvo-me perante 99% do que escreve.
Porém, noto que ignora a probabilidade de noite muito, muito escura se abater sobre nós e que, para mim, ajuda a explicar muito "fenómeno" inexplicável na nossa história recente.
Procure o documentário "Endgame". está no youtube.
E já agora todos os do Alex Jones. Certamente que, como eu, abominará o estilo, mas saberá apreciar o conteúdo.

Força nisso!

AMCD disse...

Não concordo consigo quando diz que "sem patriotismo não há nem civismo nem cidadania", mas sem dúvida que o patriotismo é nacional, e se pode haver um cidadão do mundo, já não poderemos falar de um patriota do mundo.

Cidadão de coisa alguma? Cidadão do mundo, ora essa, que o Miguel também decerto é. Já dizia o padre António Vieira: “Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal; para morrer, o mundo.”

E hoje a cidadania pode extravasar fronteiras e pátrias. Sobre este assunto versam os trabalhos do sociólogo alemão Ulrich Beck, relativos à sociedade cosmopolitana e à condição cosmopolita.

AMCD