26 julho 2010

Tudo pela rama


O compacto bolonhês 3 em 1 (licenciatura+mestrado+doutoramento) está a dar os primeiros passos, mas a semeadura de banalidades que o mito do saber tudo de nada implantou (ou não saber coisa de coisa alguma) arrisca banir perpetuamente do horizonte académico o trabalho de investigação, sem o qual a universidade se limita a simples emissor de títulos fraudulentos (neste caso cheques carecas). Pessoas há, terminando o 3 em 1 que não sabem separar fontes primárias de secundárias, que desconhecem a estrutura de um trabalho científico, que não sabem citar um documento de arquivo, um periódico ou uma monografia. Outras há que se entregam com afã à cópia integral de obras sem as citar, que recorrem em exclusivo à internet sem a menor consciência e capacidade de triagem, que se limitam a meia dúzia de referências bibliográficas em dissertações de mestrado com... setenta páginas e doutoramentos com 120.

Há quem aplauda com entusiasmo os meninos e meninas de 23 anos que acumulam proezas do 3 em 1. Dizem que, finalmente, a escolaridade obrigatória só deve atingir a plena universalidade quando todos tiverem o "3 em 1", que isso, sim, é a democratização da universidade, que o conhecimento é para todos, numa variante riders digestesca que prepara ministros, gestores, professores e demais ordens sociais com responsabilidades que outros não têm. Que seja, se a posse de títulos académicos atingir esse nadir, as instituições acabarão por assumir a responsabilidade de formar os seus próprios funcionários.

Um trabalho académico sério no domínio das humanidades pressupõe anos de trabalho meticuloso, a leitura de centenas de obras, a consulta de milhares de documentos, o domínio de duas ou três línguas, maturidade, familiarização com conceitos e ideias, a posse de uma cultura geral sólida, o domínio escrito da língua nativa e das suas subtilezas, a capacidade de formular hipóteses, de as testar, aplicar e abandonar se necessário. Levamos às mãos à cabeça sempre que somos confrontados com coisas que por aí se defendem e publicam; mais indignados ficamos com o verdadeiro negócio que se oculta nesta produção de licenciados-mestres-doutores. A universidade a transformar-se em charcutaria !

2 comentários:

dorean paxorales disse...

se der em chouriço, melhor se distinguirão os bons. podem más teses resultar em títulos mas só o trabalho produz respeito.

Nuno Castelo-Branco disse...

Charcutaria? Nem era mau, pois reduz-se apenas a um rasca McDonalds.