14 julho 2010

Portugueses


"Os seus padres eramos nós, os missionários portugueses. É que a religião, nestas paragens, andou tão intimamente ligada à ideia de nacionalidade que ainda hoje português e cristão são sinónimos". (...) [Um indiano acercou-se de mim e disse]: "se o inglês é bom para fazer negócio, para rezar só o português".

X, Crónicas de Viagem
in: Boletim Eclesiático da Diocese de Macau. n. 304 e 305, Julho e Agosto de 1929

As coisas são como são. Há menos de um ano, em pleno Camboja, um agente da autoridade perguntou-me de onde vinha. Quando lhe disse que era português, olhou sorridente e curioso para o meu passaporte, brincou com o dedo sobre a armilar e disse: "ah, Kristan". Preparando-me para regressar ao Oriente, dediquei algum do meu tempo livre à arrumação da minha biblioteca, que aguardava a mão do dono após três anos de abandono, com obras à mistura e muito pó acumulado. Abri um belo álbum sobre a pintura namban e reparei, como quem olha pela primeira vez, que naquelas naus que demandavam o Japão em busca de riqueza e conversos, só havia dois brancos: o comandante e o missionário. Todos os outros eram amarelos (chineses), pardos (malaios, siameses), castanhos (indianos) ou negros (africanos). Eram os portugueses. Quem não o percebeu ainda - o segredo da nossa sobrevivência, a razão do nosso império e da nossa universalidade - nada percebeu, afinal, da sua nacionalidade.
Hoje pela tarde, no arquivo em que presentemente recolho documentação alusiva aos protukét do Sião, encontrei a correspondência que travaram dois cristãos, um de Malaca, outro de Banguecoque, entre 1816 e 1826. Tratavam-se por irmão, contavam as pequenas felicidades e amarguras do dia-a-dia, pediam informações, trocavam confidências sobre os negócios. Depois, compreendi que nunca se haviam encontrado, que tinham por intermediário um navegante que tocava ocasionalmente as cidades em que viviam. Foram amigos durante uma década, mas nunca se encontraram. Eram, apenas, "portugueses". Dava uma bela novela.

1 comentário:

Justiniano disse...

"...Eram os portugueses. Quem não o percebeu ainda - o segredo da nossa sobrevivência, a razão do nosso império e da nossa universalidade - nada percebeu, afinal, da sua nacionalidade." Sem dúvida, caro Nuno, brilhante e sublime.
Saber quem somos, o que somos e como aqui chegámos!!
Um grande bem haja para si