30 julho 2010

Portugal e o Japão: celebrar o quê ?

Em 2011 celebrar-se-ão por atacado os 500 anos das relações entre Portugal e a Tailândia, bem como da chegada dos portugueses à actual Malásia, às quais se juntam as celebrações em Singapura, Indonésia, Vietname e Japão. Um calendário cheio de significado em época de encolhimento orçamental, um desafio ao engenho de quem tem tanto para comemorar com tão poucos meios. Talvez tudo isso se resolvesse, retirando do orçamento uma ou duas das 900 viaturas encomendadas pelo Estado, convertendo-as em catálogos, seguros para peças de exposição, uns ciclos de conferências, uma visita do chefe de Estado ou do Primeiro-Ministro a cada um desses países que insiste em comemorar-nos, mesmo que em Lisboa o conhecimento das coisas do Oriente tenha recuado às eras ptolomaicas.

Um dos países objecto de celebração é o Japão. Ora, tendo os portugueses lá chegado em 1543, havia que se criar um artifício para incluir o Nipão no circuito, pelo que alguém se lembrou de celebrar os 150 anos sobre a asssinatura do tratado de reabertura de relações, selado em 1860. O Japão é um país admirável, sem dúvida, mas parece-me, perdoe-se-me a agressividade, que as recentes relações luso-nipónicas não manifestam nada de extraordinário e que a "amizade" entre Portugal e o Sol Nascente foi sempre regada com sangue e extrema violência, para não dizer desprezo pelas diferenças que podem separar, mas também juntar. O Japão não se portou decentemente connosco ao longo do século XX. Importa lembrar que as comunidades luso-descendentes instaladas em Xangai e Cantão foram sistematicamente perseguidas e humilhadas pela soldadagem japonesa entre 1937 e 1945, que Macau morreu à fome entre 1942 e 1945, que o Kempentai violou as Portas do Cerco, fazendo repetidas incursões a Macau para proceder a prisões, que os portugueses de Malaca foram confinados a campos de concentração e mortos às centenas, que as nossas igrejas do Padroado foram vandalizadas pelo exército de ocupação japonês na Malaia e Singapura, que Timor foi invadido e aí cometeram os nipões atrocidades inenarráveis, para não lembrar o humilhante e gratuito tratamento dispensado ao nosso governador-geral, obrigado a viver num palácio sem mobiliário, sem comida e reduzido ao trajo mínimo de cuecas de fio dental, daquelas que os japões usavam.

Fala-se e cantam-se loas ao exotismo que para lá levou Venceslau de Morais. Outro atrevimento que me desculparão, mas Venceslau, sem dúvida um homem cheio de talento, não é propriamente um caso de sucesso nem pode hoje ser lido sem uma forte dose de reserva. Viveu à margem da sociedade japonesa, numa cabana entregue aos seus dois amores, tratado como um excêntrico pelos japoneses e alheado da sorte indigna a que votou a sua mulher chinesa e os seus filhos, abandonados sem a mínima hesitação. Depois, Venceslau, fez intriga, muita intriga diplomática, escreveu contra colegas e chegou ao extremo de sugerir o abandono da nossa representação consular no Sião, país sobre o qual escreveu infelizes páginas(1) carregadas de preconceito racial.
(1): "Suponho que o cônsul em Banguecoque não é pessoa de grande honestidade. A criação de um secretário-intérprete é perfeitamente inútil. São tão ínfimos os nossos interesses no Sião, que não vejo inconveniente algum em que qualquer cônsul estrangeiro tome encargo do lugar quando falte o cônsul português." Morais, Venceslau de. Carta LXXVII a Sebastião Peres Rodrigues, Kobe, 10 de Junho de 1912.

3 comentários:

NanBanJin disse...

Meu Caro MigueL.

Não havendo muito a dizer e quase nada a acrescentar ou contestar ao que aqui escreve, de qualquer modo permita-me que lance aqui uma ou outra acha à fogueira.
Realmente, tanto no que se refere ao Japão como, aliás aos demais estados Asiáticos cujas relações com o nosso Portugal serão, a breve trecho, objecto de mil uma celebrações, cabe perguntar "mas celebrar o quê e para quê e com que propósito?".
Sião, Indochina, Birmânia, Malaca, China, Japão — que ficou lá, afinal, de Portugal, que une estas gentes a nós? Que sortilégio é esse que teima em atirar-nos para estas paragens?, que agita qualquer coisa de emocional e espiritualmente não tão recôndito quanto outros ousariam pensar, ao falarmos de 'nós e eles'?...

Eu próprio — e quantos de nós leitores?—, se ao longo deste último ano e meio, não tivesse tido o imenso privilégio de regularmente ler os textos aqui vertidos nos COMBUSTÕES, pelo Miguel, acerca das relações luso-siamesas, e sobre o riquíssimo legado da presença Portuguesa no Sião e sua vizinhança, quiçá perguntar-me-ia hoje "Relações Luso-Tailandesas? a celebrar? mas celebrar o quê?".

Uma vez mais, meu caro Miguel, um imenso obrigado, do coração, por nos ter, a todos que o lemos e ao longo deste tempo, sabido responder tão bem e tão cabalmente a essa pergunta.

(Continua)

NanBanJin disse...

No que respeita ao Japão, e pese embora todo o rol de episódicos atropelos que o Miguel bem refere — e outros bem mais remotos que não cabe aqui mencionar — e que não deixam margem para réplica, tendo deixado ambos os países de costas voltadas e reencontro adiado 'sine die' por muitas gerações, em todo o caso a realidade primeira é esta: custe o que custar, doa a quem doer, também o Japão se inscreve na longa jornada da presença Portuguesa na Ásia e não há como negá-lo, sendo bem conhecido de todos nós o desenrolar épico-trágico dos acontecimentos vertidos entre 1543 e um século mais tarde — o tal "Século Cristão" como os Japoneses o recordam...

E se todas as ofensas a Portugal que o Miguel elenca e outras que poderíamos também aqui e agora recordar — como a chacina de que foram vítimas os emissários diplomáticos de Julho de 1640, facto que selou o divórcio dos dois países por mais de dois séculos e meio — agravam a eventual impertinência de quaisquer "celebrações das relações luso-nipónicas', convém em todo o caso invocar que para dois países que estiveram tão intrincadamente próximos na História e que tantas contendas separou, o reatar das relações diplomáticas ao tempo de Meiji é e será sempre motivo de celebração só por si.
Bastará lembrar a trágica saga dos 'Kakure', esses cripto-cristãos de Kyushu, que por dois séculos e meio, transmitiram entre gerações, oralmente e sob pena de perder a própria vida, as orações proferidas na língua de Camões, o mais das vezes sem sequer perceber o conteúdo de tão estranhas ladaínhas , indecifráveis, misteriosas e ainda assim tão sagradas e plenas de significado para aquela gente que escutava e proferia o nome de Portugal como quem fala de qualquer coisa de messiânico, tamanho o peso do elo perdido que teimou em ligar essa gente à distante Pátria de Gaspar Vilela e Tristão Vaz da Veiga, os fundadores do porto de Nagasaki.

Celebrações? Sim, claro que sim.
Para tornar a aproximar o que nunca se devia ter apartado.

Meu grande abraço,
do Japão,

Luís F. Afonso, NBJ

Nuno Castelo-Branco disse...

Alguma coisa terá ficado, além das atrocidades. Aliás, fomos os modernizadores no que respeita às armas introduzidas no Japão. Aprenderam bem a lição e retribuiram-na fartamente.

Os portugueses têm as casas atulhadas de louças chinesas - até a Vista Alegre as copia -, cobiçam-se os maravilhosos Satsumas, gostamos de lacas e charões. Definitivamente, valeu a pena. Olha para a casa dos pais!