31 julho 2010

O Rei que sonhou com a liberdade: Museu Rei Prajadhipok (1893-1941)


Ao mais novo dos nove filhos nascidos do casamento do Rei Chulalongkorn com a rainha Saovabha não estava destinado o trono. A nova lei siamesa decalcada do princípio sucessório de primogenitura das famílias reais europeias, introduzida pelo seu pai, destinava-lhe um lugar de relevo na governação ou nas forças armadas, mas nunca terá passado pela cabeça do jovem príncipe arcar com a tremenda responsabilidade de vir a ser o monarca de um país em transe de mudanças dramáticas. Nasceu e foi educado como um príncipe de sangue, partiu para Inglaterra onde recebeu a melhor formação em Eton e na academia militar de Woolwich, conviveu com os valores e práticas do vitorianismo e cresceu rodeado de todas as atenções e cuidados. Um jovem de pequena estatura e frágil aparência, semblante tímido, leve sorriso e olhar curioso, desportista entusiasta, leitor infatigável e vida social que deixou sempre entre aqueles que com ele privaram gratas recordações de afabilidade, modéstia e inteligência.


Os seus irmãos mais velhos foram morrendo um após outro. O príncipe Vajirunhis, que estava destinado a cingir a coroa, morreu subitamente em 1895, pelo que coube a um outro irmão, o príncipe Vajiravudh preparar-se para suceder ao pai. Vajiravudh (Rama VI) ascendeu ao trono em 1910 e governou como o último monarca "absoluto" até 1925. Ao morrer, não deixando sucessão masculina, coube a Prajadhipok dar continuidade à dinastia. O novo monarca era, sobretudo, um militar, distribuia o seu tempo entre a fotografia, o golfe e a leitura, vivia apartado da política e da administração e consagrava à sua única mulher - foi o primeiro monarca a abolir, de facto, a poligamia - todo o tempo de recreio que sobrava à apertada agenda de obrigações de Estado. Prajadhipok estivera em Lisboa em 1909 a convite da Casa Real Portuguesa e das suas andanças por Lisboa, Cascais e Sintra guardara boas recordações. O meu irmão Nuno fez-me chegar anteontem uma bela fotografia do futuro rei em pleno Chiado, na companhia do Cônsul do Sião em Lisboa. Ao ascender ao trono, demonstrou sempre grande amizade por Portugal e a vasta correspondência travada com as autoridades portuguesas, bem como a representação consular portuguesa em Banguecoque, são demonstrativa do interesse do monarca em manter os laços seculares de amizade com o nosso páis. Quis sempre inteirar-se da conturbada vida política portuguesa nos anos de ocaso da 1ª República e durante o período da Ditadura Militar.

Politicamente seria um liberal com fortes preocupações reformistas e sincera adesão aos valores do governo representativo. Em 1926, juntamente com um dos seus mais directos colaboradores, o conselheiro Franck Sayre, um norte-americano que lembra George Santayana, rascunhou o projecto para uma constituição onde se previa a criação de um orgão legislativo, a criação do cargo de primeiro-ministro e a separação de poderes. O texto foi submetido a vários membros da família real, que levantaram objecções à sua aplicação. O rei protestou e até o co-mentor da proposta (Franck Sayre) aconselhou prudência, invocando a pouca preparação do país para tamanha mudança na estrutura do Estado. Prajadhipok não desistiu e continuou ao longo dos anos a insistir na transferência de responsabilidades para outros orgãos do Estado. O Rei viajou infatigavelmente pela Europa e EUA, inteirou-se dos problemas do seu tempo, acompanhou de perto das revoluções soviética e fascista italiana, leu com avidez os textos dos grandes economistas, procurou encontrar resposta para a saída da Grande Depressão. Em 1932, uma junta militar tomou o poder em nome da democracia. O Rei não se opôs e procurou, com todo o zelo, afivelar o papel de monarca constitucional.

Príncipe Mahidhol, futuro Rama VIII

Porém, a democracia prometida pelos jovens militares transformou-se no seu contrário: uma ditadura militar dividida internamente entre a linha "socialista" e a linha "nacionalista". Acabou por vencer o grupo fascizante. O Rei foi, então, transformado numa figura decorativa, afastado de qualquer capacidade de intervenção, impedido de aceder ao contacto com o povo. Cansado e humilhado, invocou uma longa viagem por motivos de saúde e instalou-se num palacete provinciano na Inglaterra. Em 1935, acompanhando de longe a deriva totalitária do regime em Banguecoque, abdicou e expôs sem rebuço as suas certíssimas objecções a respeito do carácter do "Novo Sião". Disse, sem medo, aquilo que todos sabiam, que o regime era uma ditadura, que as liberdades haviam sido confiscadas, que a opressão policial, a intimidação, perseguição e morte de opositores eram práticas correntes, que o país corria perigo de se transformar numa prisão. O governo não gostou e lançou uma vaga de perseguições sem precedentes contra os monárquicos. Milhares foram detidos nos novos campos de concentração, centenas tiveram de procurar refúgio no estrangeiro e muitas dezenas pagaram com a vida a defesa da liberdade e do Rei contra a escalada liberticida.


Temendo que a sua abdicação pudesse caucionar a implantação da república, aceitou transferir a legitimidade dinástica para um seu sobrinho, o príncipe Mahidol - irmão do actual Rei da Tailândia - que vivia então na Suíça. Os últimos anos da vida foram passados no Reino Unido, entregue à sua paixão pela leitura, mas sempre acompanhando de longe a crónica funesta de acontecimentos que levariam a então já crismada Tailândia para os braços do Japão. Morreu em 1941, mas coube à sua mulher, rainha Rambhai Barni, continuar a luta pela defesa do governo representativo. A rainha deposta foi animadora dos círculos tailandeses no exílio e uma das grandes entusiastas do movimento Tailândia Livre - Seri Thai - que organizou a resistência anti-nipónica. No pós-guerra, a rainha regressou ao país e foi um dos mais sólidos esteios das reformas que o actual Rei Bumiphol lançou. Morreu em 1983, rodeada das maiores atenções devidas a uma rainha. Ao sair do belíssimo museu, reforcei a ideia há muito inculcada que os reis são os maiores aliados do povo e os mais sacrificados protagonistas da luta sem tempo entre a liberdade e tudo aquilo que se lhe opõe; em suma, não há monarquia sem liberdade, como não há democracia sem monarquia.

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