29 julho 2010

O dedo do gigante nazista ameaça Portugal


Falámos aqui há dias das dificuldades surgidas entre o Estado português e o governo fascista siamês do marechal Phibun Songkram ao longo do processo de discussão e redacção do tratado de 1938. O tempo dos impérios coloniais europeus no Sudeste-Asiático corria risco iminente, mas poucos ainda aceitavam a inevitabilidade de uma ruptura. A Grã-Bretanha estava de pedra e cal na Malaia e na Birmânia, a pax gaulesa parecia segura na Indochina e o conflito sino-japonês, reacendido em 1937, parecia destinado a um longa luta sem vislumbre de vitória decisiva para o Sol Nascente. Porém, as coisas jamais voltariam a ser como antes. Em Novembro de 1936, em obediência à formulação da teoria de Haushoffer de uma aliança germano-nipónica visando a neutralização do "heartland" soviético, a Alemanha e o Japão assinavam o Pacto Anti Comintern. Os alemães, que haviam apoiado o regime nacionalista de Chiang Kai Schek do Kuomintang através da Missão Alemã na China, mandaram retirar os seus conselheiros. No Sião, dominado pelo punho de ferro de Phibun, dava-se largas à xenofobia, sendo os chineses - os "judeus do Oriente" - alvo prioritário de campanhas de saneamento e marginalização. A política externa siamesa encontrava respaldo no expansionismo japonês e ia coleccionando argumentos para futura escalada de tensão anti-ocidental.


Portugal possuia em Banguecoque uma pequena comunidade de 300 macaenses e indo-portugueses, gente de posses, com sólidos negócios no ramo prestamista, casas de penhores e grossistas de espirituosas. Depois do tratado de 1927, que anulara as últimas claúsulas "desiguais" que garantiam aos protegidos portugueses fartos privilégios, estes encontravam-se sob jurisdição da lei e tribunais siameses, mas gozavam ainda de alguma liberdade pois, sendo estrangeiros, estavam cobertos pelo estatuto de "aliens" e as suas propriedades estavam salvaguardas pela protecção conferida pelo consulado português. Ao longo da discussão do novo tratado, tornara-se claro que a nova elite no poder não abria excepções para Portugal, exibindo a mesma desconfiança e azedume que nutria pelos franceses e britânicos. O governo português lutou com todos os argumentos da legalidade internacional e acabou por vencer a prova de fogo recorrendo à memória histórica das relações multiseculares. Os siameses aceitaram e assinaram o tratado.


Porém, Portugal ratificou, mas tardou em dar execução ao tratado. Os instrumentos do tratado haviam sido trocados, mas careciam de reconhecimento formal através de anúncio no orgão oficial do governo. Salazar queria dar uma lição, dando execução ao documento quando e só quando tal aprouvesse ao orgulho português, ferido pela impaciência siamesa. Incapazes de exercerem pressão, os governantes de Banguecoque recorreram aos bons ofícios da Alemanha, que não tardou em enviar sinais de simulada ingenuidade ao governo português. Hoje sabemos que a impaciência de Phibun tinha um motivo: Phibun queria "refundar" o Estado e mudar o nome do país (de Sião para Tailândia), num gesto simbólico que só teria pleno efeito quando fossem eliminados os últimos vestígios dos "tratados infames" selados com o Ocidente nas décadas de 1850 e 1860. Ora, Portugal foi o último país a abandonar essas claúsulas e o Sião, que entretando deixara de existir, passou a ser Tailândia. A nova Tailândia carregou ainda durante meses o fardo do "imperialismo". Portugal não anunciava a entrada em vigor do tratado e fingia não perceber os insistentes telegramas tailandeses. Von Ribbentrop recorreu a uma branda ameaça disfarçada de ignorância. A embaixada alemã em Lisboa, num claro acto de ingerência nas relações bilaterais entre dois estados terceiros, mostrou estranheza pelo facto de "não encontrar" vestígios do anúncio da ratificação. Na fronteira leste alemã davam-se os últimos retoques para o início do Blitzkrieg sobre a Polónia. Corria o mês de Julho de 1939. Finalmente, a 8 de Agosto, Portugal anunciava a entrada em vigor do tratado. Três semanas volvidas, começava a Segunda Guerra. Os tailandeses escolheriam lutar pelo Eixo.

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