29 julho 2010

Demolição tecnocrática das Forças Armadas: quando os sr.'s generais brincam às gestões


Pediram-me que visse um vídeo promocional encomendado pelo Exército. Siderei ao ouvir recitativo. Pois, de ora em diante, fique-se a saber que o Exército Português poderia ser uma "empresa", "produz segurança e defesa", "tem presença nacional e internacional", "aposta na qualidade e não na quantidade", tem "mais doutores, mestres, pós-graduados e diplomados", "marca presença em mais de vinte países", é "um exército socialmente responsável", ali os jovens entram para "ampliar os seus estudos no ensino secundário e no ensino superior", formando-os "académica e fisicamente", promovendo a "ciência e a investigação", realizando "acções cívicas" e até disponibilizando "centros de hipoterapia para crianças com necessidades especiais, levando entretenimento e cultura a diversos pontos do país". O ramerrão oferece a trágica evidência da rendição do exército a uma sociedade que dele se apartou, de um Estado que o reduziu a mero adereço e do triunfo de um certa ética de serviços que é a negação da natureza da instituição. Ali só pronuncia uma vez, a custo, a palavra "pátria", não se exalta a independência, o orgulho nacional e a história. É triste que o espírito da "rentabilização do inútil", tão cara à publicidade das autarquias, entre pela porta larga de uma nobre instituição que devia ser, in extremis, o garante da liberdade nacional. Mais não digo, mas se me permitem o desabafo, só falta abolir a farda, encomendar uns casaquinhos e umas gravatas e colocá-los a todos atrás de balcões e guichés a "prestar serviços".

5 comentários:

NanBanJin disse...

É realmente deprimente, verdade seja dita, este 'clip'.
Bem...não tão, tão mauzinho quanto o Miguel o faz: enfim, ainda há uma alusão, no princípio, à 'fundação da nacionalidade' e (pareceu-me, mais adiante) à soberania nacional (mas realmente 'Pátria' é palavra que não surge uma só vez...), a expressão 'responsabilidade social' até merece um mínimo de aceitação no contexto em que é utilizada, quer-me parecer, e pouco mais se desculpa...
O resto é mesmo como o Miguel sumariza esta coisa em forma de publicidade a uma qualquer universidade privada ou politécnico dessas/dos muitas/os que, negócio das arábias, vivem da promessa de um futuro risonho de muitos títulos académicos a exibir, aos incautos que se prestam a ir lá passar 5 — perdão 3 e uns trocos — anos a 'formar-se'.

Mas, meu caro, é ou não verdade que no tempo de Frederico, O Grande, andavam por esses estados germânicos fora, uns sargentos sorridentes, bonacheirões, de aldeia em aldeia, seduzindo garotos campesinos, entre canecas de cerveja, historietas de heróis e palmadões nas costas, para os conduzirem depois, às fileiras de infantaria prussiana, para marchar em Hohenfriedberg e Mollwitz? — método que, presumo, não seria muito diferente do usado por outros exércitos da velha Europa...
Cada um recruta como pode, usando os argumentos do "seu tempo"...

Saudações amigas,
do Japão,

Luís F. Afonso, NBJ

Justiniano disse...

Excelente, caro Miguel!

Euro-Ultramarino disse...

Certíssimo, Caro Miguel. Tudo isto está perfeitamente ajustado com a demolicao programada das nacoes. Acabar com as fronteiras, banalizar a nacionalidade, abastardar o idioma, dar cabo da instituicao militar - sao os pilares que cumpre arrasar. O resto do "nosso" Portugal é aluno exemplar de tal escola.
Abraco porteño.

Carlos Velasco disse...

caro Miguel,

O vídeo é hilário, um belo exemplo do que é um tiro pela culatra. Quando mostra um Alouette e um M-61, armas do paleolítico superior, e diz que “contamos com pessoal altamente qualificado”, parece uma ironia com o facto de não se contar com o equipamento, e o “nossa gente é a nossa força” parece a descrição da longa história lusa de desprezo pelo material das forças armadas. Somos sempre apanhados de surpresa e depois temos que contar com a valentia do homem comum, que é mandado para a guerra em péssimas condições materiais. Os responsáveis nunca pagam pelo seu desleixo.
Depois, enquanto anuncia que apostamos na qualidade invés da quantidade com a imagem de um Leopard-5 comprado em segunda mão da Holanda (acho que foram 36, o que não dá para um desfile!), parece novamente ironia. De acordo com este paradigma, implícito na mensagem, se podia comprar 1 F-35 e aposentar todos os F-16! Daí chega o anúncio da “primeira prioridade” e vem o descalabro. Exército “socialmente responsável” é simplesmente indigesto! Isso é boa publicidade para o exército da salvação. A continuar assim, não duvido que em alguns anos vamos ouvir falar em exército gay friendly e ecologicamente correcto, quem sabe até com uma brigada Vegan. É melhor parar por aqui, já começo a pensar no desfile da companhia Antínoo de fuzileiros navais numa parada do orgulho qualquer ao som de In the Navy.


Um abraço.

Bic Laranja disse...

Tem razão. Mas esta tropa tem muito potencial para evoluir; com tanto orgulho fanchono pela avenida de liberdade...
Cumpts.