01 julho 2010

Biblioteca Nacional: a revoada dos abaixo-assinados


Anda por aí à solta um abaixo-assinado pedindo a suspensão do previsto encerramento da Biblioteca Nacional de Portugal. Como é do conhecimento geral, a BN estará fechada ao público durante nove meses, pois a construção de uma nova torre exige a aplicação de cautelas extremas na salvaguarda das valiosas colecções existentes na instituição; nada mais que as mais preciosas peças do património bibliográfico nacional, impressas ou manuscritas. Se as obras se realizassem sem a devida protecção de tal património, a poeira resultante dos trabalhos de edificação iria causas danos irreparáveis. Contudo, a cultura do protesto e do desabafo imperantes disso não quer saber para nada.

Lembro que em França, aquando da transferência da Biblioteca Nacional de Drouot Richelieu para o novo edifício-torre, a instituição fechou portas durante dezoito meses. Que eu saiba, não houve abaixo-assinados nem esboço algum de felonia. Os utilizadores da BNF compreenderam e até exprimiram regozijo pelo facto do Estado francês fazer tão grande investimento na protecção do património cultural do país. O mesmo aconteceu com a Vaticana, que agora reabriu portas após três anos de renovação das instalações.

O abaixo-assinado é coisa tão corriqueira e insípida que perdeu valor. Recebo pelo correio electrónico dúzias de petições, raramente perdendo um segundo com a leitura das fundibulárias reclamações. Se eu fosse o Director Geral da BN, pediria que me facultassem a relação de títulos requisitados pelos peticionários do protesto. Estou certo que a maioria, ou nunca foi à BN ou por lá passa uma vez por ano. Tendo ali trabalhado durante muitos anos, conto pelos dedos de uma mão as "notabilidades" que enchem os escaparates das montras das livrarias e que à BN concedem o favor de por lá passar cinco minutos da sua (deles) agitada fome de conhecimento. Protestar é fácil. Fazer obra, isso requer trabalho, coisa que os auto-proclamados defensores da cultura não estão habituados a fazer.

2 comentários:

Ana Cristina disse...

Miguel,
Cheio de razão!!! Nunca a tal brilhante e influente «comunidade de investigadores» produziu algum abaixo-assinado contra o precaríssimo estado de conservação de algumas das mais importantes colecções da Biblioteca, manuscritos e impressos, cujo valor, para eles, é meramente instrumental: rever, re-equacionar no âmbito, re-interpretar o paradigma, re-cotejar fontes e principalmente publicar antes do colega (escondendo a cota). Na verdade o que mais conta são as bolsas com as moedas, as bolsinhas, as prorrogações e os pós- deles e dos pupilos....o resto é papel velho. "Renovar os depósitos, para quê??? Eu quero é a fotocópia - e lugar para o carro".
AC

adsensum disse...

Contava os dias para ler aqui este esclarecimento. Não, o Combustões não está a ficar previsível. Nada disso. A questão é que o assunto é tão claro, tão evidente, que não se percebe como é que as pessoas enveredam por "pedir" sem fundamento.