27 junho 2010

A História faz-se

Todos os povos livres alimentam-se de mitos políticos, episódios que estimam relevantes para manter o mais importante dos pactos, ou seja, aquele que permite conjugar o verbo ser (nós somos) no pretérito como no presente. Como um dia escreveu Anne Marie Thiesse no fascinante Criação das Identidades Nacionais, as epopeias fundamentais socorrem-se de mnemónicas que facultam ao Estado e àqueles que a ele se submetem a automatização de uma relação que justifica do Estado o exercício do poder legítimo na prossecução do Bem Comum e dos cidadãos o sentimento de pertença ao Estado, tomado como comunidade politicamente organizada. Neste particular, só há comunidade quando há Estado; mais, o Estado faz a nação, pois confere-lhe personalidade distinta na relação com os outros povos [Estados], sem a qual os povos são meros agentes inermes.


Li há anos, ainda muito pouco advertido sobre o episódio que a seguir contarei, o texto fundador da historiografia tailandesa "contemporânea", da autoria do Príncipe Damrong Rajanubhab intitulado Thai Rop Phrama (Thais em guerra com os Birmaneses) e que pretende explicar na rivalidade intemporal entre os dois povos a génese da assunção do "nacionalismo" thai. Para o "pai da historiografia Thai", o birmanês é o "inimigo histórico" da nação thai e o perigo que sobre ela impende desde o século XVI. Ora, suspendendo o conhecimento de tal afirmação peremptória, consultando a cronologia das relações entre as dinastias birmanesas e thais, verificamos que a tal suposta luta ininterrpta entre as duas mandalas foi episódica e se limita a cinco guerras - 1539-1569, 1563-1568, 1584-1604, 1759-1767 e 1782-1811 - sendo duas tremendas derrotas thais, duas vitórias defensivas thais e uma um empate técnico.
Na penúltima guerra acima referenciada, que terminou com a conquista, saque e destruição de Ayutthaya pelos birmaneses em 1767 - o maior desastre thai nos seus mais de seiscentos anos de história como Estado - um episódio heróico de defesa numantina concita entre os actuais tailandeses grande entusiasmo e fervor patriótico e exprime a aceitação por parte de uma aldeia do supremo sacrifício em defesa da sua terra contra o invasor. O episódio de Ban Rajan - uma aldeia que lutou durante semanas contra as investidas de hordas inimigas, repelindo um a um os ataques da cavalaria e infantaria do rei birman - possui o condão de transformar psicologicamente uma enorme derrota numa vitória. Ora, a história é tão empolgante que até recentemente dela se fez um grandioso filme bélico que vivamente aconselho pela espectacularidade das cenas de batalha. Como Ayutthaya se perdeu e dela nada restou - nem documentos dos tombos reais, nem crónicas nem depoimentos - do episódio de Ban Rajan ficou uma pequena alusão numa crónica menor, escrita anos depois com o título de Luang Prasoet. Quando a nova dinastia thai de Banguecoque encomendou a crónica da última dinastia de Ayutthaya, conferiu ao episódio cerca de quinhentas palavras, dizendo tão só que os habitantes de uma adeia na periferia de Ayutthaya havia dado luta ao invasor e pouco mais.
Muitas décadas depois, já nos alvores do século XX, o príncipe Rajanubhab recebeu a incumbência de rever e publicar de novo as crónicas antigas. Na edição de 1914, o episódio de Ban Rajan surge com cinco mil palavras, com rico pormenor descritivo e até com a menção de nomes dos mais destacados heróis populares envolvidos na refrega. Daí em diante, surgiram estudos, romances e estátuas por todo o país evocando o feito. A verdade é, porém, bem diversa, pois aquando da guerra que culminou com a queda de Ayutthaya, se houve heroísmo extremo na defesa do rei e da cidade, esse locaizou-se no bairro católico fora de portas, onde há meses estive com um grupo de quarenta luso-descendentes. Dessa defesa há testemunhos escritos coevos. Ora, Rajanubhab esquece esse episódio, faz-lhe a translação para Ban Rajan e atribui o feito a thais. A história só se faz com documentos. Sem eles, tudo não passa de ... piedosa ficção.

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