01 junho 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia: os fotógrafos portugueses dos reis do Sião


Quando Townsend Harris, enviado dos presidente dos EUA tocou Banguecoque para assinar o tratado de abertura do Sião ao mercado americano (1856), o Rei Mongkut ofereceu-lhes as prendas da praxe: têxtéis, serviço de chá em ouro, espada cerimonial, um gongo, mas também uma foto do soberano na companhia da rainha Debsirindra. O Rex Siamensis, como gostava de assinar, insistia em quebrar o tabú da representação física do corpo do monarca - até aí vedado ao olhar dos mortais - e exibir-se aos seus súbditos e ao mundo como um governante tocado pelas Luzes do conhecimento científico e do progresso tecnológico que tanto o fascinavam na relação de atracção/medo que nutria pelo Ocidente. Não sabemos quem terá feito o daguerreótipo, pois a primeira sessão de fotografia com assinatura que se conhece é de John Thomson, um escocês que veio ao Sião em 1866 expressamente convidado por Mongkut para retratar a família real. A verdade é que os reis do Sião não mais largaram o fascínio pelas câmaras: o filho de Mongkut, Chulalongkorn, foi um amador da câmara escura, como actual monarca, o 9º da dinastia Chakry é um fotógrafo de grande mérito reconhecido internacionalmente.

Essa primeira foto terá sido tirada por Francis Jittr [ou Chit] (1830-1891), um católico siamês luso-descendente, natural da paróquia de Santa Cruz de Thonburi, na margem oposta a Banguecoque. Francis foi um caso de sucesso na adaptação à mudança e pelos relevantes serviços prestados à corte em dois reinados (Rama IV, Rama V), recebeu a distinção do título de nobreza de Khun Sunthornsathitsalak. As suas vistas de Banguecoque, tipos sociais, naturezas mortas, monumentos e retratos da elite siamesa integram hoje qualquer antologia da história da fotografia no Sudeste-Asiático. Abriu um estúdio de fotografia na New Road (ou Charoen Krung) e foi muito procurado por notabilidades e diplomatas em trânsito pela Veneza do Oriente. Era muito requestado, mas dava-se ao luxo de se atrasar, de cancelar sessões e fazer esperar clientes. Um dos nossos embaixadores à corte siamesa esperou quatro dias pelo artista, até que este condescendeu em fazer-lhe uma sessão de estúdio e outra ao ar livre, nos jardins da Missão Portuguesa.

Em 1895, o Ministro da Casa Real recebeu uma missiva em inglês assinada por um tal J. António, que informava estar a preparar a edição do primeiro guia ilustrado de Banguecoque, que estimava um marco na relação do país com os estrangeiros que o visitavam. Pedia o patrocínio do monarca, pelo que enviava algumas provas tipográficas, bem como pedido de acesso ao Rei para uma fotografia que serviria de frontispício. Foram pedidas informações ao Consulado britânico sobre o autor da carta, posto que este havia feito alusão a trabalhos já executados para aquela representação diplomática. António não era, como Francis, um protukét (luso-descendente siamês), mas chegara ao Sião no início da década, eventualmente de Hong Kong ou Singapura, pois o perfeito inglês da sua escrita e a esmerada letra comercial das suas cartas indiciam ter feito o percurso escolar numa possessão da coroa britânica na Ásia. Era, julgamos, um "protegido" inglês, pois a existência de um seu homónimo como "protegido" português carece de informação detalhada. Na investigação agora terminada sobre o J. António "inglês" surge de manifesto que era visita assídua da rpresentação consular britânica e que aí tinha registo. A iniciativa parece ter sido coroada de êxito, pois a obra foi publicada e António surgia em finais de 1896 como "fotógrado de SM o Rei do Sião". Abriu estúdio de fotografia, foi premiado com uma medalha de ouro na Exposition Française et Internationale d'Hanoi (1902) e morreu em finais da década de 1910, já naturalizado siamês, como uma das mais aplaudidas figuras artísticas do país. Guardo suculentos elementos da sua epistolografia para a obra que publicarei no próximo ano sobre as relações entre Portugal e o Sião nos séculos XIX e XX. A surpreendente história dos portugueses na Tailândia está, pois, quase toda por fazer !

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Até há uns doze, tquinze anos, no mercado Chatuchak podiam ser adquiridas imensas fotos antigas, com vistas do país, da capital e também, de grupos familiares. Autênticas relíquias que entretanto se sumiram nas colecções dos ocidentais que bem fizeram em preservá-las. A nossa irmã já me disse isso mesmo e da próxima vez que aí for, terei de procurar se ainda sobra alguma coisa.