08 junho 2010

Caramba, devo ter costela de Cassandra


Aqui disse há dois meses que a invasão vermelha de Banguecoque reunia o que de pior podia haver na sociedade tailandesa. Logo no primeiro dia, andavam em estridentes buzinadelas num mar de bandeiras vermelhas e clamores triunfalistas, resolvi ir ver a turba de invasores e lavrei impiedosa sentença: aquilo era gente que nunca vira em três anos de Tailândia e mais de doze anos de visitas ao país. Dir-se-ia uma população subterrânea, invisível aos olhos mais armados, gente que nem nas zonas vermelhas - leia-se, de lanterna vermelha do submundo da "indústria" de Patpong - se via: gente com todos os traços patibulares de população presidiária, fazendo gestos obscenos com os dedos, gritando palavrões capazes de fazer corar a Fanny Hill. Mas não, diziam os românticos, aquilo era o bom povo camponês "explorado e segregado pelo double standard", pela "aristocracia parasitária", pela "clique da corte", a "oligarquia", o "exército golpista", os "5% que vivem das mais valias do povo trabalhador" e outros rodriguinhos que fui desconstruindo ao longo das semanas da crise [que foi um golpe de Estado falhado] até se converterem numa certeza: aquilo era, sem tirar, o Partido Comunista da Tailândia e um movimento que, a triunfar, provocaria o colapso desta sociedade, o fim do regime e do sistema e milhares e milhares de mortos.

Agora, com o processo de investigação correndo, os factos, os protagonistas e os objectivos do movimento vão-se tornando claros como a mais cristalina das águas. No debate parlamentar da passada semana, o Ministério do Interior facultou dados relevantes sobre os envolvidos no golpe de Estado e facultou informação em primeira mão sobre os "mártires" da reposição da ordem e segurança nas ruas. Hoje pela manhã tive acesso a um documento confidencial contendo matéria explosiva sobre as "inocentes vítimas" da acção das forças da ordem. Onde pensava encontrar pobres trabalhadores braçais, "proletários e camponeses", balconistas, estivadores e vendedores de rua "lutando por uma sociedade igualitária e mais justa" [como rezavam as tendenciosas crónicas encomendadas pelas centrais de intoxicação] deparei com uma lista bem mais interessante:

- Das 80 vítimas mortais anunciadas no rescaldo da operação de limpeza das ruas de Banguecoque, 75% possuiam cadastro criminal e eram notórios facínoras repetidamente condenados pelos tribunais. Há de tudo: ladrões comuns, traficantes de drogas, violadores, traficantes de armas e 8 (ou seja, 10%) com crimes de sangue cometidos ao longo dos últimos anos. Até dois "monges" cadastrados, um deles detido por seis vezes havia. Boas vocações. Eu bem os vi no acampamento vermelho. Os "homens de negro" armados eram, afinal, vulgares bandidos contratados e usados como tropa de choque. Foram eles que usaram as armas, que lançaram as bombas, que agrediram um pouco por toda a cidade cidadãos indefesos. Foram eles que assaltaram e lançaram fogo aos bancos, aos centros comerciais, às lojas e cinemas. Com toda a propriedade semântica chamei-lhes "lumpen". Estava errado. Não era o lumpen: era a escória.

Não vi nenhum dos fogosos defensores das causas justas lamentar a morte dos polícias e soldados, esses caídos no cumprimento do serviço. Toda a encenação tinha um objectivo: branquear, exaltar e transformar em mártires os milicianos vermelhos, afinal o que de pior havia na sociedade que estiveram a milímetros de destruir.

2 comentários:

Abel Cohen disse...

Diz bandidos contratados. Não duvido, mas quem os contratou?

Lura do Grilo disse...

São os "maras" orientais!