04 maio 2010

Vitória de Abhisit: um blogue de opinião faz-se com máquina fotográfica na mão e sem copy-page de breaking news

Quando há semanas se iniciou o recente capítulo da tentativa vermelha para derrubar o legítimo governo de Abhisit, os líderes da frente plutocrática-comunista exigiam a demissão imediata do governo, a realização de eleições três meses após a saída de Abhisit e a formação de um governo interino composto, presume-se, por figuras gradas da Frente Democrática Contra a Ditadura. Pediam, igualmente, a demissão do general Prem, que preside ao Conselho Privado do Rei. Ora, ao aceitarem hoje integralmente o plano proposto por Abhisit, os líderes vermelhos colocaram-se assumidamente na posição de derrotados. Abhisit não caiu, Prem não foi demitido, as eleições serão dentro de nove meses e a opinião pública, exposta à evidência do verdadeiro carácter de um movimento que se dizia democrático e pacífico, teve tempo para julgar com a máxima severidade os desmandos e pulsões violentas de gente que reivindica a democracia mas não a respeita. Não cabe aqui o rememorar tudo o que aconteceu ao longo das semanas, mas o movimento vermelho, que já no passado ano se excedera em violência e destruição de património colectivo, acabou por se reduzir ao extremismo inconsequente e odioso e viu partir das suas fileiras pessoas mais moderadas. Aliás, o movimento vermelho já não é hoje uma entidade: partiu-se, fraccionou-se em grupúsculos que se despedaçam internamente. Thaksin terá ficado com os nostálgicos do defunto Thai Rak Thai, os comunistas ganharam força e quererão um programa eleitoral afeito às suas convicções e o povo trazido das áreas rurais regressa às suas terras com o incómodo travo de uma canseira sem resultado.

Quem ganhou com a crise ? À cabeça, indiscutivelmente, Abhisit, que resistiu à chantagem da força, se manteve firme mas dialogante e acabou por se impor como a mais importante figura política tailandesa. Depois, a Maioria Silenciosa, que tomando partido pelo Rei e pela democracia, reduziu a pó a arrogante proclamação vermelha de uma inexistente luta do povo contra a "exploração", o "feudalismo" e a "oligarquia". Por último, ganhou a Monarquia, que uma vez mais demonstrou ser o fecho institucional sem o qual o Estado não funciona. Hoje é um dia de vitória, por mais que prestigitadores pretendam minorar da expressão do triunfo de um governo que não decretou a Lei Marcial e procurou, de delonga em delonga na aplicação da força justa, o caminho da reconciliação.
No que a esta humilde tribuna respeita, procurei dar ao público português uma versão menos colorida dos acidentes do processo, fora do correctês acéfalo do "pappagai wissenschaft" que as rádios Moscovo emitiram do primeiro ao último dia e com visitas diárias fotografadas com abundante diversidade de aspectos aos dois lados da barricada. A imprensa portuguesa falhou rotundamente e provou, uma vez mais, que a chamada comunicação social é feita de pouca comunicação e sem preocupação alguma no que ao direito à informação dos portugueses respeita. Depois, há o atrevimento, o eterno complexo de superioridade colonial dos europeus, que viram esta crise nos curtos parâmetros da sua visão do mundo e falharam em absoluto em todas as análises.
Para confirmar o nosso acerto, folheamos páginas passadas. Em 21 de Março, aqui se disse que o movimento vermelho, ao invés de tanto disparate que por aí se dizia, era expressão de uma reacção à mudança democrática tailandesa. Em 6 de Abril - isto é, quatro dias antes das forças armadas serem alvejadas por armas de guerra por milicianos vermelhos - fazíamos o retrato do movimento rebelde, caracterizando-o como anti-democrático, violento e a tudo disposto para derrubar a ordem existente. Houve quem se risse. Em 16 de Abril, Combustões afirmou que os inimigos da democracia e da monarquia não passariam. Nesse dia, a BBC afirmava com dramatismo que o regime se debatia nas vascas da agonia. Em 20 de Abril afirmámos que as eleições não eram temidas por Abhisit. Em 21 de Abril dissemos que o governo não caira nem cairia. Não nos alongamos nesta série interminável de provas, mas gostaria de lembrar que outros blogues, avisados e conhecedores deste país, prestaram igualmente relevante serviço de esclarecimento e reflexão: o Estado Sentido e o Corta-Fitas.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Uma grande vitória. Agora, mão à obra!

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

MUITOS PARABÉNS!
Abraço!

PQG

Pedro Leite Ribeiro disse...

Parabéns pelo excelente trabalho! Parabéns à Tailândia e ao seu Povo!
Pena que em Portugal, não tendo o movimento vermelho saído vencedor, os media se tenham desinteressado da questão não noticiando, sequer, a vitória da monarquia e da democracia. Não convirá relacionar as duas?

José Mexia disse...

Obrigado