20 maio 2010

VITÓRIA (5): o legado da Utopia vermelha

O que ficou desse movimento saído dos alfobres do ódio, sem programa, instigador das pulsões mais baixas, das promessas mais abracadabrantes, da demagogia mais descarada ? Parece que foi há dez anos. Num só dia, ainda fumega o coração de Banguecoque, passou-se uma página em frente e tudo isso soa a inutilidade, a passado morto, a criminosa irresponsabilidade de compagnos de route estrangeiros e tantos quantos alimentaram o monstro ao longo de anos e agora fogem à responsabilidade moral por haverem colaborado - por mais não fosse por simples estupidez e analfabetismo - para que o grande fogo se abatesse sobre a Cidade dos Anjos e quase destruísse o país por atacado. Hoje enchi-me de coragem e fui ver o cenário do desastre.


As ruas carregaram-se de luto. Os incendiários e saqueadores vermelhos tudo reduziram ao esqueleto. Prédios houve que, não sendo devorados pelas tochas ardentes, foram humilhados, pois as casa também têm alma. Ali quebraram-se as últimas amarras que sustêm a animalidade. Ali rasgou-se por prazer, partiu-se por ódio, espezinhou-se por euforia destruidora. No fundo, nada de novo no longo historial das revoluções e das utopias, que se anunciam com as mais sacrossantas cruzadas redentoras e terminam sempre no regresso às cavernas. O comunismo, com o seu ódio, os seus profetas e tarados paranóicos da virtude purificadora, mais a massa de crentes que os secunda, visitou Banguecoque durante dois meses e só deixou lixo, carcaças fumegantes de automóveis, borracha calcinada, jardins revolvidos e prédios arrasados.


Não, isto não foi por acaso. Aconteceu, foi decidido e instigado. Foi, até, interpretado como o início de uma nova era. Tudo, claro, em nome da democracia polvilhada por mentiras, como uma ferida nauseabunda coberta por panos de cânfora. Nas fachadas devastadas do coração de Banguecoque está inscrito a fogo o ódio contra a civilização, a propriedade, a empresa, o mérito de quem corre riscos, dá emprego, liberta-se pelo trabalho. Os bárbaros que quiseram matar a monarquia - símbolo da perpetuidade - e a democracia - símbolo da responsabilidade de cidadania - esconderam até ao momento derradeiro a sua verdadeira face.


O dinheiro e aqueles que lhe rendem culto e a ambição do poder sem freio e sem limite, mais o colaboracionismo de um certo Ocidente carregado de baias micro-burguesas contra tudo o que excede as tripas e o "conforto"; o tonto romantismo soixante-huitard daqueles que um dia sonharam com amanhãs ridentes, mas engordaram pelo caminho, fizeram-se parasitas do capitalismo mas não largam os estúpidos sonhos da juventude desaparecida; o completo desconhecimento da Tailândia, da sua história, língua e cultura bem salientes num certo jornaleirismo pago pela cobiça neo-colonial que quer reduzir o país a prostíbulo, casa de massagens e spas; o desprezo por uma sociedade que é diferente da nossa e a vontade de a transformar numa caricatura de Singapura, cheia de macacos engravatados repetindo o papaguear da plutocracia; os velhos demónios do jacobinismo regicida e do totalitarismo igualitário; em suma, este admirável mundo de plástico e gente parva que faz a conspiração da estupidez que uniformiza o mundo; tudo isso reunido juntou-se em Banguecoque e açulou gente paga para fazer o que ontem atingiu clímax.



Sei que o espírito tudo sobreleva e que a vida se reerguerá do seu túmulo e fará esquecer o desastre. No lusco-fusco, centenas de soldados trabalham infatigavelmente para remover o entulho e limpar as feridas. São os filhos do povo, mas este povo aceita a disciplina, o dever, as obrigações, tem sonhos e quer viver melhor. Precisamente por isso, neles quiseram ver os inimigos da "revolução", "escravos da aristocracia" e "inimigos do povo". Hoje, caia a noite, vi soldados, sargentos e oficiais travando o novo combate pela restauração da dignidade tailandesa.

Para ilustrar o recobro da dignidade cidadã e a nobreza do povo, o fim do passeio reservava-me uma surpresa. Sentado em frente de um edifío comido pelo fogo até às fundações, um guarda de 60 anos mantinha o seu posto. Perguntei-lhe por que estava ali e respondeu-me: "este é o meu lugar, estou a guardar o prédio". Grande lição de profissionalismo e integridade que faz reduzir ao nível dos vermes aqueles que instigaram, aqueles que aplaudiram e aqueles que fizeram de ontem um dia histórico. Hoje foi primeiro dia da Tailândia livre de vermelhos.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Mas a paz ganha-se todos os dias. Não convém baixar a guarda.

José Marques da Costa disse...

Tenho seguido diariamente o seu blog.Agora que aparentemente as coisas estão mais calmas aproveito para lhe agradecer o seu trabalho corajoso para nos dar essas informações.Obrigado

Gi disse...

Esse guarda teve sorte: podia ter sido quiemado com o seu prédio, ou não?
Estavam todos vazios, os edifícios que arderam?