20 maio 2010

VITÓRIA (4): as fezes das fezes


Caiu hoje o último vestígio da sublevação. Pelas dez da manhã, o meu amigo coronel bateu-me à porta e disse-me que ainda não estava tudo terminado, que durante a noite o exército dera caça a grupos desorientados que teimavam em resistir, que em bairros populares os cidadãos se constituíram em grupos de vigilância e procedem à detenção de milicianos vermelhos, entregando-os às autoridades e que o templo perto de Rachaprasong ainda tinha "muitas centenas de pessoas". Centenas ? Então ontem não se haviam rendido todos ? "Não, só esta madrugada nos apercebemos que no templo havia 400 reféns sob ameaça de vinte terroristas". Após uma hora de negociações, os terroristas renderam-se e as pessoas, visivelmente aliviadas, foram transferidas para o Estádio Nacional, registadas e enviadas para suas províncias de origem.

Por lá passei a caminho do mercado de rua, pois a comida acabou, os supermercados fecharam portas, não há dinheiro nas caixas multibanco e as pessoas compram tudo o que podem. A noite foi calma e em Banguecoque como nas províncias não houve o tão falado "levantamento popular". Essa possibilidade está descartada. Ninguém dará por Thaksin uma só gota de sangue e os horrendos crimes contra o património ontem cometidos reforçam o governo. Sentei-me numa mesa de restaurante de rua e fui ouvindo as conversas. As pessoas fazem os comentários mais duros a respeito dos vermelhos e agora só se lhes referem como púak comunist (comunistas). Depois, a inglória rendição da liderança vermelha é matéria para gostosas piadas. O oficial que interrogou Nattawut Saikua, o instigador dos incêndios, disse que no momento da detenção teve um tremendo desarranjo intestinal e o cheiro que exalava era pestilento. Foi necessário dar-lhe banho e roupa lavada antes de prossseguir o interrogatório preliminar. Como um dia disse Givesius, estas são as "fezes das fezes". Quanto ao outro cabecilha, Jatuporn, que sempre considerei do melhor que por lá havia, portou-se com alguma dignidade e só pediu uma cama para dormir.

Confirmei, uma vez mais, que as bases vermelhas são gente normal, sorridente e plácida, como o são todos os camponeses thais. Disso nunca tive quaisquer dúvidas, pois confesso que os prefiro à generalidade da burguesia manienta da cidade, já cheia de tiques da globalização/parvalhização/americanização. Esta gente foi comprada, usada, prostituída por uma clique de caciques. O rapaz na foto disse-me que viera a Banguecoque para "proteger o nosso Rei" e que agora só queria voltar ao seu trabalho numa exploração agrícola para os lados de Trat, perto da fronteira com o Camboja. Foi assim que os enganaram. Pergunto-me por que razão aqui não há jornalistas ocidentais fazendo-lhes perguntas. Simplesmente, porque as respostas não interessam. O que interessa é mentir, deformar, exagerar, retorcer. Coisas das centrais de intoxicação.

3 comentários:

Osório disse...

Felizmente já acabou. Pelo menos para já, pois a tribo vermelha continuará activa nessa parte do mundo e não só. A forma como as agências noticiosas cobriram os acontecimentos é disso prova.

Parabéns pela "reportagem" ao longo destas semanas e... obrigado!

Carlos disse...

Parabéns, Caro Miguel, pela excelente reportagem com que nos tem brindado. É o orgulho de um verdadeiro Jornalista, e o opróbio daqueles que assim se intitulam mas que se venderam às mesmas forças globalistas que incendiaram Banguecoque, e que «mudam de camisa» e de cor conforme a máscara que lhes convém adoptar.

Só que, em Portugal falta o Rei, e sobretudo a Honra, pois a Pátria Querida caiu em mãos infames, tão vermelhas quanto as camisas dos incendiários, embora arvorem o rosa e outras cores. E incendeiam Lisboa e tudo o que resta do nosso amado Portugal, não com a acção bárbara e directa dos incêndios (embora já o tenham feito, a coberto de «acidente»), pois perceberam que isso leva à revolta das populações, mas de forma mais insidiosa e vil: sabotando a economia; a doméstica, a empresarial e a nacional.

Quem poderá vir a prender estes mandantes de «camisas vermelhas» pintadas de rosa que por cá polulam?

Quando é o Rei? Quando é a Hora? Pois já tarda.

Cumprimentos e muito obrigado.

Carlos Portugal

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Parabéns Miguel! Foi excelente a cobertura ainda que pelas más razões!
Um abraço,

Pedro