19 maio 2010

VITÓRIA (3): terra queimada

Está o leitor lisboeta a imaginar a possibilidade de, numa só tarde, arderem por atacado o Centro Vasco da Gama, as Amoreiras, o Fonte Nova e o Chiado ? Pois, Banguecoque perdeu hoje, por obra humana, a quase totalidade dos seus grandes centros comerciais.
Um dos líderes vermelhos, Nattawut Saikua , que hoje se entregou às autoridades, afirmara há dias em tom de ameaça num dos seus inflamados discursos que um assalto do exército ao acampamento vermelho teria como consequência imediata a destruição da baixa comercial de Banguecoque. O fogo que hoje irrompeu e destruiu as grandes superfícies comerciais da capital não foi, assim, um desastre irreflectido resultante do descontrolo ou quebra de comando no campo vermelho: foi premeditado e inscrevia-se num plano friamente pensado e executado. Aos três biliões de dólares de danos causados à economia tailandesa por dois meses de protestos, os vermelhos cometeram hoje a proeza de, em meia dúzia de horas, duplicarem o flagelo e lançarem no desemprego cerca de oito mil pessoas. A política de terra-queimada e de terrorismo indiscriminado adoptada pelos comunistas assestou um golpe irreparável na imagem da capital, pelo que a plena recuperação de Banguecoque enquanto destino de compras sofreu um rude golpe que exigirá anos de paciente reconstrução da vitalidade eliminada pelos incendiários vermelhos. Por volta do meio-dia voltei a casa para tomar um banho. Da minha varanda assisti ao início dos incêndios. Ao sair do prédio, já dois cinemas ardiam sem controlo. Os bombeiros não se atreveram acudir ao sinistro, pois snipers vermelhos ainda davam dura réplica aos soldados.

Ao apresentarem-se às autoridades, os vermelhos deixaram atrás de si um rasto de fogo e fumo, mas pensei que tais focos se limitassem a automóveis, cabinas telefónicas, caixas de electricidade e comunicações e pouco mais. O tiroteio que ainda se fazia ouvir inibiu-me de entrar na artéria que leva a Rachaprasong. Um jornalista israelita, enviado especial do Jerusalem Post, disse-me que aquele fumo não era proveniente de pneus, mas de edifícios. Ainda vacilei, pois a enormidade da possibilidade ultrapassava o que ontem palidamente já entrevira. Os comunistas, pensava, só perderiam com tal enormidade e pagariam para sempre o ónus do odioso. Um verdadeiro suicídio político foi, afinal, o que resultou da decisão vermelha em pegar fogo àqueles edifícios que eram o orgulho da população da capital, até ontem tida como uma grande metrópole comercial.

Ao fim da tarde, o fogo consumia já os grandes prédios de Rachaprasong. Um miliciano comunista foi detido em frente do Estádio Nacional com cerca de dois quilos de relógios e objectos de joalharia roubados no saque do Central World. O oficial que o interrogava não escondia a apreensão, pois aquela detenção confirmava o pior: os vândalos haviam dado início ao saque e destruição dos centros comerciais. Quando o homem lhe disse com a maior desfaçatez que aquelas peças eram suas e que as comprara, o oficial não se conteve e quase o agrediu. Ao ser levado de mãos atadas para o carro celular, o capitão gritava "seu bandido", "criminoso", "terrorista", "tirem-no da minha frente ou mato este animal".

Da janela do meu apartamente assisto neste momento ao grande incêndio. Há centenas de carros de bombeiros que chegam, outras centenas que partem para reabastecimento, mas o que está feito, está feito. O ar está cheio de papéis em rodopio, o cheiro a madeira queimada é sufocante, a cortina de fumo vai dançando ao sabor dos caprichos do vento. O sentimento que me invade é indefinido, pois a vitória fulminante e quase sem mortos do exército foi manchada por um odioso acto de vingança que só vem selar o juízo que aqui fizera em tempos sobre esta gente dementada e este movimento totalitário e primitivo que quase destruíu o país: trata-se, sem tirar, de lumpen. Espero apenas que a mão da justiça caia, implacável e cerce, sobre os responsáveis desta organização criminosa e que no momento da aplicação da lei não haja a mínima hesitação na punição e danação daqueles que o dirigiram.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Que vergonhosa infâmia. Isto sela o destino dos bandidos. Cometeram mais um erro e mostraram a sua natureza. Estou de acordo: JUSTIÇA!

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Criminosos!

Hugo disse...

Cambada de criminosos e selvagens. Parabéns pela excelente cobertura Miguel.