19 maio 2010

VITÓRIA (2): rendição incondicional

No centro de acolhimento do Estádio Nacional vai-se amontoando a um canto a propaganda vermelha que os militantes atiram ao chão antes de passarem pela fiscalização das bagagens que trouxeram do acampamento. Reuno uma vintena de objectos (cartões de militantes, palmas em plástico, CD's com os discursos de Thaksin, bandeiras e camisas vermelhas) e logo um soldado atira-as para um grande saco negro de lixo e novo monte se forma em minutos. Os vermelhos vêm nervosos e de cabeça baixa. Alguns nem conseguem falar e tentam explicar o inexplicável: um tinha ido visitar um primo ao acampamento, outro só lá queria ir tirar fotografias, outro estivera lá na véspera e perdera uns óculos de sol e um miliciano até se atreveu fingir que era cego. Quando lhe deram água, estendeu logo a mão à garrafa e foi detido.

A tropa sossega-os. Abrem-lhes os sacos, retiram fisgas, facas, livros vermelhos, garrafas de whisky e deixam-nos passar para a barreira seguinte, onde se procede ao registo do nome, morada e bilhete de identidade. Se o nome ou a fotografia constar da lista de indivíduos procurados ou se evidenciam características de guerrilheiros urbanos, são separados dos restantes e colocados em carros celulares para envio para os centros de detenção preparados para o efeito.

Inicialmente, vêm em pequenos grupos de dez ou vinte indivíduos. Alguns têm estampada na cara a derrota e a vergonha, pois que para os thais perder a face é mais penalizador que perder a vida. Um rapaz desfaz-se em cumprimentos de submissão ao tenente que o interroga e até pede desculpas por se encontrar em tão aflitivo transe de humilhação. Uma mulher ri-se e quer dar aos captores um saco com bolos de arroz, mas dizem-lhe que pode levar a comida. Depois, senta-se a um canto e vomita, tão nervosa se encontra. O altifalante do exército trata-os por irmãos e irmãs, diz-lhes que vão seguir de imediato de volta para as suas casas, que não temam o governo, que procurem uma das tendas de pronto-socorro caso tenham algum problema de saúde. Estou convencido que muitos destes desgraçados pensavam que iriam ser abatidos ou acorrentados, mas quando se dissipa o medo reunem-se com os amigos e familiares e ali ficam em sossego aguardando transporte.

Um homem totalmente embriagado chega e, para espanto dos militares, tem dois sacos carregados com bebidas alcoólicas. Um repórter alemão que estava por perto explicou-me que nos últimos dias o alcoól era distribuído em grandes quantidades aos milicianos, para os manter em permanente excitação. O homem foi de imediato detido por suspeita de integrar as milícias e levado para um carro celular. Reparei que a motorizada que trouxera foi registada e que o oficial assinou um documento de apreensão e deu ao detido cópia do auto. Aqui, também, o exército a portar-se com a maior dignidade.

O exército trava duros combates em frente do centro comercial Siam Discovery e vão chegando, já algemados, milicianos que se renderam. Alguns vêm descalços e de torso nu, medida cautelar das autoridades, outros, possivelmente quadros políticos, caminham para o cativeiro sem dizer palavra.

Alguns destes milicianos sofreram ferimentos na batalha, pelo que são assistidos pelos médicos e depois entregues para interrogatório preliminar a um oficial superior do exército que lhes exige um primeiro depoimento sobre a participação nos combates, informações relevantes sobre o seu grupo, o nome do líder a quem reportam, o posto que ocupavam, as armas que usaram. De súbito, uma verdadeira multidão a perder de vista surge. São centenas e centenas de pessoas em tropel correndo para a barreira. Dizem-me ser o grupo que estava no Central World e que vão ser levados para as traseiras do estádio para recolha de dados.

Finalmente, quando a multidão passa, aproximo-me de dois carros celulares. Falo com um detido, um miliciano oriundo do nordeste. Ele perguntou-me que horas eram e ali estivemos dois ou três minutos em conversa. A carrinha partiu e desejei-lhe boa sorte. Sempre foi minha convicção que a guerra não deve se feita às pessoas mas às ideias e que mesmo os "maus" têm as suas razões. Cumpre agora restaurar o país do caos em que esta gente o mergulhou e iniciar as reformas. A democracia, a legalidade e o Estado venceram uma dura prova. A Tailândia terá passado, talvez, por um dos mais dramáticos capítulos da sua história contemporânea.


2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Excelente trabalho!

Gi disse...

Esta é uma maneira muito civilizada de efectuar uma rendição.

Grande reportagem, Miguel, bem haja.