11 maio 2010

Um tanque de guerra chamado Kasit

Kasit Piromya deu ontem um valente puxão de orelhas ao embaixador americano acreditado em Banguecoque, acusando-o directamente de envolvimento e parcialidade num conflito político interno que só aos tailandeses respeita. Kasit é o mais fogoso ministro dos Negócios Estrangeiros que a Tailândia teve ao longo das últimas décadas. Temido pela frontalidade e desassombro, cortante como um bisturí e indisponível para jogos florentinos, não tem medo das palavras e é arauto da saturação dos thais pela constante intrusão arrogante e falta de respeito dos ocidentais pelas instituições e cultura política deste país jamais conspurcado pelo colonialismo. A Tailândia não aceita lições de democracia, soberania e respeito pelos direitos humanos, posto ser o mais fiel aliado do Ocidente na Ásia e jamais haver traído o seu alinhamento.

As relações entre a Tailândia o e Ocidente foram quase sempre marcadas pela desigualdade. No século XIX, os embaixadores, enviados e cônsules estrangeiros que a Banguecoque chegavam sobraçavam imposições, ultimatos e ameaças, desrespeitavam a etiqueta da corte, atropelavam e espezinhavam as mais elementares normas da diplomacia. Faziam-no em nome da "abertura do Sião ao mercado mundial", da "integração na comunidade internacional" e da necessidade do acatamento dos requisitos formais para o reconhecimento da independência do país. A intromissão conheceu acidentes vários, uns caricatos, outros dramáticos, decorrentes da assinatura sob ameaça das armas dos chamados "tratados desiguais": o Sião só tinha obrigações, os ocidentais só tinham direitos.

Kasit quer extirpar os últimos vestígios dessa vergonhosa prática, infelizmente ainda presente no tom condescendente e paternalista de muita diplomacia ocidental incapaz de se libertar dos tiques colonialistas. É um desafio de grande risco, mas é necessário. A Tailândia não é uma potência de quarto plano. É, para todos os efeitos, o mais sólido dos Estados do Sudeste-Asiático, possui massa crítica territorial e demográfica, potencial económico e consciência nacional que nenhum outro país da região pode reinvindicar. Aqui, os farangues são bem acolhidos, merecem tratamento deferente e são redeados de todas as gentilezas. Porém, amiúde comportam-se como selvagens, ofendem os costumes, infringem as leis e tributam um respeito que a sua atitude contradiz.

A vaga de xenofobia anti-ocidental é reflexa de décadas de desrespeito ocidental. Aqui montaram os ocidentais um parque de diversões para as suas pulsões, aqui se embebedam, se drogam, excedem-se em violência e tudo aquilo que no "democrático" Ocidente terminaria numa esquadra de polícia. Eu bem vejo os velhos rotundos mastodontes ocidentais saltarem do tuk-tuk de mão dada a raparigas com idade para serem suas netas, vestidos na pragmática que o imaginário colonial ditava, carteira à mostra exibindo o seu poder de compra, gestos rudes mascarados por um eterno sorriso de desdém. Quanto aos "expatriados", aqui vivem anos e décadas como príncipes mas não aprendem a língua, continuam a viver na sua rodoma dourada e dão-se a todos os abusos. Tudo isso vai acabar, pois a Tailândia cansou-se e apercebeu-se do plano declinante do Ocidente.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Dos ocidentais, apenas se espera uma coisa: sede de lucro. Muito bem fez o Sr. Kasit em chamar a atenção aos EUA. Não são de fiar e entre nós e eles, existe uma velha história de desrespeito, desde as maquinações de Roosevelt, até à vergonhosa política anti-Portugal nos anos 60. Pulso firme. Muito bem, Sr. Kasit.

*Quanto à "Europa", isso não existe. A Tailândia que dialogue bilateralmente.