10 maio 2010

Trombismo e nostalgia

Quando se está ausente, idealiza-se a pátria distante. Com o passar dos meses, logo dos anos, vão morrendo uma a uma as más recordações, vão-se apagando as carantonhas, perde-se o rasto dos nomes, volatilizam-se as palavras agrestes que suportámos, os gestos agressivos e as invejas, as ferozes chefias mentecaptas, os desertos mentais e as florestas venenosas que a vida nos obrigou percorrer. Tudo morre. Porém, de vez em quando, como assombrações, disparam as mnemónicas das relações de nomes, dos episódios e dos infinitesimais logros e desenganos, dos desencantos, das esperas sem sentido e acordamos. Aqui sinto-me absolutamente feliz e faço aquilo que me propus fazer. De longe, chamam-me a família, a casa, os amigos, mas escolhi o exílio e estou a escrever o livro que será o pouco que um dia deixarei aos meus. Dos outros três ou quatro trabalhos que publiquei, já deles me esqueci.

Hoje tiniu o telefone. Um professor amigo, responsável pelo departamento de História de uma universidade de Banguecoque sugeria-me um encontro urgente. Disse-lhe que não podia, pois tinha uma sessão de trabalho na Biblioteca Nacional e a documentação pedida só estaria hoje acessível, dado ter sido requisitada por outro investigador que dela precisará no decurso da semana. O meu interlocutor explicou-se: queria que eu assinasse um contrato de dois anos com a sua universidade e que desse 18 horas de aulas semanais sobre as relações entre o Sião e as potências ocidentais num curso de mestrado. Não posso, pois até Outubro, altura em que terminarei o meu trabalho, só posso fazer aquilo que me exigiram: escrever um livro de 400 páginas sobre as relações entre Portugal e o Sião na era de Banguecoque. Depois, escolherei: voltar a Portugal ou por aqui ficar.

Não sei se toleraria hoje um décimo dos maus modos, das expressões faciais, da linguagem gestual, das ironias, dos sarcasmos e indirectas, das farpas e das conversas que entre nós são facto corrente. A imersão siamesa deixou-me calmo, pausado, silencioso e distante. Aqui, as únicas altercações ocorridas foram provocadas por portugueses, pelo que expresso a maior das reservas a tudo o que me obrigue involuir para o primitivismo da falta de respeito, das acrimónias, do desdém e da violação do meu legítimo direito ao sossego. Na vida, aprendi-o há muito, tudo está por fazer e por acontecer. Quem não tem redes, lóbis e influências paga o preço da liberdade, mas aqui está o surpreendente, rico e inesperado da liberdade. Ao entrarmos e ao sairmos não devemos favores a ninguém, não há contas a saldar, não há letras e duodécimos. A vida é uma aventura.

4 comentários:

Cox disse...

Desengane-se.

Por aqui nada mudou a não ser para pior. Aproveite a oportunidade e seja feliz ai.

O melhor será mesmo confirmar com a Maria Isabel G....

Respeitosos cumprimentos,

Nuno Castelo-Branco disse...

Totalmente de acordo! Quem me dera fazer o mesmo.

Bic Laranja disse...

Não é preciosa essa liberdade de nada dever? Andar direito, de cabeça levantada e poder fazer o melhor?
Cumpts.

adsensum disse...

Que agradável será contar com educação e cortesia nos contactos mais ou menos informais do quotidiano! Que conforto! Invejo-o.
Confesso que adoraria fugir a uns quantos egos inflamados em que tropeço diariamente!