21 maio 2010

Serviço cumprido

Encerrado o capítulo crítico por que passou a Tailândia, regressa Combustões à actividade corrente. Não queria deixar passar a oportunidade sem antes agradecer aos 4000 leitores que nos últimos dias visitaram esta tribuna, que fizeram fé nas minhas palavras, que me acompanharam nos mais de cem quilómetros palmilhados numa Banguecoque devastada e me impuseram que não parasse e oferecesse ao conhecimento de portugueses e brasileiros a outra face de um conflito que também se disputava na frente informativa. Nós ganhámos nas previsões, na análise e na resistência à mentira difundida pelos fabricantes de emplastros. Impedimos que se consumasse na comunicação social portuguesa o triunfo do corta-cola, do minimalismo da propaganda plutocrática e dessa estupidez inteligente que insiste em tratar a opinião pública como se de crianças se tratasse.
Aqui não houve "breaking news" do The Nation ou do Bangkok Post. Foi tudo feito no terreno, com uma mísera máquina fotográfica, a pé ou de motorizada, de madrugada ou durante o dia, ora falando com vermelhos e amarelos, soldados e meros observadores, ora transmitindo em primeira mão informação reservada conseguida de fontes credíveis. Chegava a casa, falava com um jornalista amigo, redigia e disponibilizava a crónica do dia dez horas antes de Lisboa, no outro extremo do mundo, acordar com notícias de véspera, velhas e já ultrapssadas pelos acontecimentos.

A blogosfera portuguesa portou-se bem; diria que durante as primeiras semanas se substituíu a rádios, televisões e jornais. Ao Pedro Quartin Graça, grande amigo da Tailândia, que manteve acesa a chama no Corta-Fitas e desenvolveu iniciativas que aqui não posso revelar para que o Estado português e seus decisores fossem informados sobre a real natureza do conflito tailandês, o meu respeito. Ao Nuno Castelo-Branco, meu irmão, também bom conhecedor deste país onde viveu, pela infatigável presença na impiedosa crítica das mentiras que iam sendo tecidas pelos inimigos do regime - afinal, inimigos do povo tailandês - o meu tributo de admiração.

Ao José Costa Santos, à Lusa, à Rádio Renascença, RTP-notícias, Diário Económico, Destak, ao Filipe d'Avillez, ao José Marques da Costa, à Gi, Filipe Delfim, Pedro Marques, Francisco Cohen, Daniel Azevedo, ao Leandro e ao caríssimo Último Nambanjin, à Maria, Pedro Coimbra, Ana Cristina Duarte Ferreira, Paul Galan e aos mais de 60 amigos e leitores que enviaram mensagens de amizade e sugestões, o meu penhorado agradecimento.

Esta experiência, que espero irrepetível, fortaleceu a blogosfera portuguesa. De fora, importa o justo juízo crítico, a maldadezinha e a sua irmã inveja, o pensar pequeno e a cobardia de tomar partido, a desesperada tentativa de ocultar o que aqui se ia debitando - e que foi, sem mácula de orgulho vão, a única presença portuguesa nas ruas em fogo - e o compadrio que no momento do fel da impotência trata de juntar em frente comum todos os que não aceitam a diferença, todos os que não ousam, têm medo das palavras e se comprazem com a repetição de pequenas e grandes mentiras.

Não tivesse sido o José Costa Santos, que devia ser apontado pela exemplaridade e absoluta lisura profissional enquanto jornalista, os acontecimentos na Tailândia teriam sido tratados ao gosto da censura, da manipulação e da publicidade às "justas causas", afinal aquelas que trazem a violência, desculpam os crimes e trazem a desgraça a povos por atacado.

Uma última observação a respeito da nossa embaixada em Banguecoque, que não se envolveu na intriga, não rasgou o princípio da imparcialidade e não calcou a deontologia da cultura diplomática, que esteve sempre comunicável e deu aos portugueses exemplo acabado de serviço público. Disse-me um alto quadro político tailandês que a embaixada de Portugal não deslustrou a velha amizade entre os dois estados. Senti-me feliz e orgulhoso por ouvir de um governante tais palavras. Outras embaixadas tomaram parte activa na conspiração, tornaram-se indignas do seu estatuto e mostraram a que ponto chegou a degradação do outrora nobre e selectivo corpo diplomático. Coisas dos tempos que correm.


ราชินีแห่งการรบ = Rajiníi éng Ganróp = A Rainha das Batalhas (canção da infantaria thai)

6 comentários:

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Meu caro Miguel,

Agradeço as suas palavras que são contudo muito exageradas. Eu estive sempre "comodamente" em Lisboa. O tributo deve ser feito a si que palmilhou, debaixo de fogo e com risco da própria vida, Bangkok e comunicou ao mundo a VERDADE e não a mentira que todos os dias muitos irresponsáveis encartados lhe contavam sobre o país. Portugal e a Tailândia estão-lhe eternamente agradecidos. A si e ao Nuno, seu irmão, que fez em Lisboa o que o Miguel estava a fazer em Bangkok. A amizade de 5 séculos entre Portugal e a Tailândia teve em vós os seus maiores expoentes. Que vosso comportamento sirva de exemplo pela altivez e a ajuda desinteressada.
Um abraço!

Pedro Quartin Graça

Nuno Castelo-Branco disse...

Miguel,

Obrigado pelas palavras, mas não eram necessárias. Cumprimos o nosso dever de amigos da Tailândia.
Quanto à intoxicação, por aqui continua. Agora, os semi-iletrados de Bruxelas ousam exigir que o governo de Bangkok se sente e dialogue com quem tentou destruir o regime e o país. Inaudito! Conhecendo o background de gente como o sr. Barroso e outros que o cercam na Comissão, imaginemos o tratamento que teriam dado a um grupo de portugueses que porventura ousassem tomar Lisboa como refém, armando-se entre o marquês e o Terreiro do Paço. Seriam chacinados numa questão de poucas horas. Tudo isto é repelente e pagar-se-á muito caro.

Quanto à limpeza interna, deverá ser radical e como disse no post de hoje, doa a quem doer, sejam os cúmplices locais ou estrangeiros. Servirão de exemplo.

Aqui ninguém está à venda. Se assim fosse, há que tempos teríamos aderido a um dos clubes do regime, coçando ociosamente a sarna que quotidianamente nos atiram para cima. Não. Não houve qualquer interesse material mas sim o desejo do cumprimento de uma agenda velha de mais de três décadas e estabelecida à nossa custa: o lutar sempre por impedir o estabelecimento de tiranias, mesmo que estas sejam patrocinadas por "gente como nós". Percebes bem o que está em causa. Eles também e por isso voltarão ao campo de batalha. Não convém descurar a guarda e para já, espero bem que as autoridades nãos e deixem amedrontar por narigangas que Washington ou Bruxelas enviem.

José Domingos disse...

Obrigado pelo testemunho e informação.
Bem haja

Hugo disse...

Obrigado pelas excelentes crónicas.

scheeko™ disse...

Obrigado pela cobertura e votos das melhores sortes, para si e para os seus concidadãos tailandeses.

adsensum disse...

Os riscos por que passou em prol dos relatos que nos ofereceu...
Obrigada, Miguel!
Um abraço.