04 maio 2010

Rotação precisa-se

O problema português não é de natureza económica, política ou educacional. É um problema de formação do carácter, pelo que todas as reformas serão baldadas se não se operar uma profunda rotação nos modos. Confesso que o que mais me chocou ao chegar a Portugal naquele distante 1974, confrontado com os meus colegas de escola, foi essa cultura do despeito e do palavrão, da maledicência, da incomunicabilidade, da inibição do afecto e da ausência do elogio; em suma, o analfabetismo na expressão de sentimentos positivos, o verde do riso escarninho, o deliciar-se pelas maleitas alheias e a aspereza com que se tratam as pessoas. A tudo isto alia-se uma imobilidade mortal, um conservantismo agressivo, um medo profundo por tudo o que possa expor as pessoas à liberdade. Incapazes de discutir ideias, os portugueses refugiam-se num consenso de imobilidade, frases feitas e lugares-comuns, abstrações vazias e sem aplicação, tiques de importância e tiques de vitimização. Num país onde todos são importantes, todos reclamam e ninguém dá o exemplo, despreza-se a criatividade, o oferecimento desinteressado é interpretado como trepadorismo, a iniciativa individual um pecado social, a expressão de convicções uma ofensa. É por isso que os portugueses não querem pensar, falam mas não dizem, agregam-se em cachos para se neutralizarem.

As relações entre portugueses são medianamente corteses, conquanto não ultrapassem o bom dia e o boa tarde, o estado do tempo, a conversa sobre as férias ou a última ida ao cinema. Tudo o mais é proibitivo. Como não sabem discutir, ofendem-se com posições contrárias e preferem o corte de relações ao perigo de dar seguimento a desinteligências construtivas.

Dizia-me há dias um deputado tailandês que conheci num jantar em casa de amigos, que já foi a Portugal por duas vezes e saiu sempre com a sensação de vazio. Isto é grave. Revela insegurança, incapacidade de realizar, infunde desconfiança e desconforto nos interlocutores e cobre-nos com o labéu de incapazes.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

E sobretudo, existe uma enorme capacidade de criar o vazio em torno de pessoas julgadas "perigosas". Uma outra forma de censura que também se sente na informação, por exemplo. No entanto, creio que cada um deve cumprir aquilo que pensa ser o seu caminho e não atribuir qualquer relevância a outro tipo de considerações alheias.

Pedro Leite Ribeiro disse...

É isso que me leva à convicção de que, para lá da legitimidade, não será a Monarquia a panaceia para os males de Portugal. O nosso problema é mental ( o meu é, talvez para além desse, o cepticismo). No entanto, é possível acontecer que a reposição da legalidade do Estado consiga reparar a auto-estima dos portugueses.