25 maio 2010

Os "Amarelos" são os pais da democracia tailandesa

As pessoas gostam de repetir. Ouvem e repetem e tantas vezes repetem o que ouviram que ficam absolutamente blindadas às verdades que nunca lhes disseram ou não repetiram. Desde 2007, quando se deu o levantamento "Amarelo" contra o então governo "Vermelho" dos representantes de Thaksin, os "Amarelos" são apresentados como a quinta-essência do reaccionarismo "aristocrático", adeptos do golpe de Estado militar, liberticidas de primeira plana e responsáveis pela deriva "extremista" que levou ao crescendo vermelho agora jugulado. Como não querem nem gostam da história - essa suprema forma de conhecimento, sem a qual a teoria e os enunciados morrem à míngua de sustentabilidade - vão debitando frases feitas e compilam extensos comboios de adjectivos. É o refúgio da ignorância que não se quer ver ao espelho, a mais confortável e acabada forma da recusa de pensar.

Ora, os "Amarelos" (o PAD e o Conselho Privado) são dirigidos pelos dois mais destacados defensores do Governo Civil, talvez os homens que de forma mais impressiva marcaram a transição dos governos militares para a democracia nascente agora em processo de consolidação e dos poucos políticos neste país sobre os quais nunca recaiu a mais leve suspeita de corrupção. São eles, importa lembrar, os generais Prem Tinsulanonda e Chamlong Srimuang.

Chegado ao poder em 1980, Prem conseguiu desbaratar dois golpes militares (1981, 1985). Durante o seu longo governo, os guerrilheiros comunistas foram amnistiados, a economia conheceu o grande boom e foram dados passos decisivos para a restauração do governo representativo, mercê da promulgação da lei dos partidos políticos e da comunicação social livre de tutela militar, da abolição da Lei Marcial e da consagração dos tribunais civis para tratar de questões atinentes a crimes políticos. O trabalho de Prem foi coroado pelas eleições de 1988, consideradas as mais livres e participadas desde a década de 50. A abertura de Prem foi destruída por um golpe da direita extrema em 1991, quando o general Suchinda Kraprayoon se apossou do poder. O governo formado indicado pelos militares lançou mão de um artifício de legitimação e ganhou uma consulta eleitoral que ninguém reconheceu. Foi "eleito" primeiro-ministro um homem suspeito de envolvimento no tráfico de ópio, pelo que Suchinda, pressionado pelos seus aliados norte-americanos, foi forçado a encabeçar novo governo.

A oportunidade foi explorada pelo líder do partido Força Budista, o general Chamlong Srimuang, hoje líder do PAD, que apelou a todos os democratas para que saíssem à rua e impedissem a consumação do "golpe dentro do golpe" militar. Centenas de milhares de manifestantes tomaram conta do centro de Banguecoque e em 17 de Maio de 1992, impotente para negociar uma solução política, o ditador Suchinda mandou abrir fogo indiscriminado sobre a massa em protesto. Morreram centenas de pessoas, a lei marcial foi imposta, mas os manifestantes não arredaram pé. Nesses dias arderam dezenas de edifícios públicos e o país esteve na iminência de uma guerra civil. Por fim, o Rei chamou o ditador e deu-lhe ordem de demissão em frente das câmaras da tv. O grande artífice da restauração democrática, Chamlong, fora governador da capital no início dos anos 80. No desempenho do cargo, fez frente aos grandes interesses imobiliários, protegeu os vendedores de rua, lançou sucessivas campanhas anti-corrupção, fez os primeiros bairros sociais de Banguecoque, bem como as primeiras e bem sucedidas campanhas de sensibilização ambiental. Ficou, deste então, na mira dos plutocratas. Nos anos 90, julgando que Thaksin poderia ser um elemento importante no processo democrático, cometeu o grande erro de apoiar o multimilionário. Depressa, porém, se incompatibilizou com as medidas autoritárias e demagógicas de Thaksin, afirmando teatralmente que se penitenciava por haver trazido o dragão para dentro de casa.

Chamlong não está na política para fazer dinheiro. Dorme numa esteira, come uma refeição por dia, não possui propriedades nem bens, pois que ofereceu tudo o que tinha à seita budista de que é animador. É o mais ecologista dos tailandeses e vive numa "quinta orgânica", entregue à meditação e ao ensino do budismo. É, obviamente, a antítese do plutocrata. Acresce que as suas posições intransigentes no que à liberalização do aborto respeita o transformaram num alvo a abater pelas clínicas especializadas na destruição de vidas e a defesa de uma economia que recuse a fixação de multinacionais exploradoras o lançaram na lista negra dos grupos neo-colonialistas ocidentais.
O ódio contra os dois é explicável: são ambos incorruptíveis, são servidores leais da monarquia, são democratas e recusam o populismo e a demagogia, têm folha de serviços na luta anti-comunista, não são xenófilos e não estão ligados a nenhum grupo económico estrangeiro. Tudo razões para a sua diabolização. Estamos entendidos ?