15 maio 2010

Na terra de ninguém

(continuação)
Alguns soldados ajudaram-me a saltar os novelos de arame farpado que protegem Suanlum e um até me disse em tom de gozo para dar aos vermelhos os cumprimentos do exército. São setecentos ou oitocentos metros sem vivalma, salvo patéticos escombros de automóveis que fazem companhia a um autocarro ontem destruído durante os combates.

Nesta artéria lutou-se a sério durante horas, com sucessivas cargas da infantaria investindo contra os vermelhos que retiraram palmo a palmo e se foram entrincheirar no fim da avenida onde se situa o grande complexo da embaixada dos EUA, que aqui tem mais de dois mil funcionários a servir os interesses da maior potência mundial.

A vizinhança começa a sair à rua e junta-se para trocar impressões sobre os dias de fogo de que foram testemunhas. "Olha, um farang", diz um um homem sentado no dorso de uma motorizada. Sem que lhes pedisse, juntaram-se para a fotografia. Perguntei-lhes onde estavam os vermelhos, ao que me retorquiram que "estão mesmo ali ao fundo" e "até já cá vieram pedir água e fruta". Tinham razão. Os vermelhos encontravam-se no canto da rua. O primeiro grupo, inteiramente constituído por motoristas-taxi, não aguardava clientes. São os espiões vermelhos, uma espécie de pelotão de reconhecimento que se passeia pelas imediações do campo para localizar movimentos de tropas e informar de imediato as suas chefias. Como não trabalham, alguém lhes paga a diária.


Aqui está a entrada de Chitlom, que vim a saber ao fim da tarde que fechou definitivamente, por recearem os vermelhos que por ali entre o exército. Lembra uma paliçada antiga, daquelas em que eram especialistas os birmaneses, que só faziam a guerra atrás destes ouriços em bambú.

1 comentário:

Pedro Coimbra disse...

As suas crónicas dos acontecimentos na Tailândia dão uma imagem quase "in loco" do que está a acontecer.
Felicito-o por isso.
E creia que é arrepiante, mesmo a acompanhar aqui em Macau, olhar para as avenidas que costumam estar cheias de pesssoas e vê-las desertas.
Essa imagem, para quem já passou muitas vezes nessas avenidas e viu a vida que ali é normal, é realmente impressionante.
Estudei muito a ASEAN, e continuo a estudar.
As minhas primeiras impressões reforçam-se - uma série de burocratas que se juntam , de quando em vez, para tirar umas fotografias.
Enquanto organização internacional, especialmente ao nível político é virtualmente inexistente.