28 maio 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia: o horticultor do Rei

Dr. José d'Almeida (dtª) no museu Singapore is my Family
A orquídea é a flor da Tailândia e ocupa lugar cativo nos elaborados arranjos decorativos presentes em todas as ocasiões festivas. É produzida industrialmente e exportada para os quatro cantos do planeta, sendo competidora das tulipas holandesas no mercado mundial de flores. A pródiga natureza dos solos e o clima húmido e quente desta região proporcionou a mais alta concentração de espécies florais do mundo (c. de 30.000), sendo que as Orchidaceae aqui conhecem uma diversidade e beleza sem paralelo.

Ao longo do século XX, muitos orquidiologistas de renome realizaram importantes estudos sobre a espécie no Sudeste-asiático - os dinamarqueses e Schmidt e Gunnar Seidenfaden, o irlandês Kerr - mas a primeira experiência de produção industrial coube a um tal Henry Alabaster, britânico chegado a Banguecoque em 1857, vice-cônsul britânico e amigo dos reis Rama IV e Rama V. Alabaster era um erudito e homem de múltiplas prendas, tendo escrito uma Roda da Lei, importante contributo para a compreensão do Budismo, bem como prestado assessoria sobre as relações do Sião com os vizinhos britânicos e franceses. A experiência como horticulturista parece não ter tido seguimento, pois Alabaster morreu precocemente, com ele levando os segredos que desvendara.


Em inícios de 1900, o Rei Chulalongkorn recebeu uma carta de Singapura assinada por José d'Almeida, "horticulturista e florista, importador, produtor e exportador de orquídeas". José era neto de um dos fundadores de Singapura, o Dr. José d'Almeida, que assentara praça na colónia como médico cirurgião naval, mas rapidamente se transformara num dos mais destacados empresários locais, animando a empresa José d'Almeida & Filhos, actividade que lhe trouxe cabedais e respeito. Na carta, José d'Almeida (neto) apresentava-se ao Rei e propunha-se desenvolver o cultivo sistemático de orquídeas siamesas segundo as técnicas ocidentais. O secretariado do rei mostrou-se interessado e sondou o empresário português sobre as possibilidades do negócio. Meses volvidos, Almeida era feito "horticulturista de S.M. o Rei do Sião" e iniciou a sua actividade, enviando por barco espécies de estufa por si criadas. Os viveiros de plantas exóticas do Rei receberam-nas e seguiram as instruções que o horticulturista fazia chegar a Banguecoque. A experiência singrou e o Sião, senhor dos mistérios da fascinante flor, passou a produzi-las para consumo das necessidades da Casa Real, para logo depois iniciar a exportação em grande escala para os mercados adjacentes. Outra história por contar, no rosário interminável das coisas portuguesas nesta parte do mundo.

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