16 maio 2010

Dia D ? Dia V ?

Será hoje ? Amanhã de madrugada ? Amanhã à tarde ? Já não há outras questões relevantes. Tudo começa e acaba nos ponteiros de um relógio. Pelo caminho ficou a reconciliação generosamente estendida pelo governo, logo recusada pelos vermelhos. Pelo caminho ficou o movimento thaksinista, que poderia aceitar uma trégua política, ter as eleições que pedia, fazer o seu programa de reformas faseadas, acorrer às urnas e submeter-se ao veredicto popular e às regras da democracia que só aqui funciona e não existe em qualquer outro país do Sudeste-Asiático. Os estrangeiros, os seus lóbis, a sua diplomacia de canhoneira, o seu desrespeito pela soberania de um país livre e independente que falem, que se movimentem, façam as malas ou quedem-se, pois já nada disso é matéria relevante. Tudo depende agora da vontade do governo que, até na hora da vitória continua a pedir que os líderes vermelhos concedam a liberdde aos seus escudos-humanos e deixem sair mulheres, crianças e idosos que trancaram num acampamento que se tranformou lentamente na Tailândia sonhada pela "revolução" que jamais existiu.

Hoje pela manhã fiz novo périplo pela baixa de Banguecoque. O cerco está concluído. Já não entra nem sai um gato da área vermelha sem ser revistado, registado e convidado a não correr riscos desnecessários, pois esta não é a guerra do governo legítimo contra civis inocentes, mas do Estado e da lei contra perpetradores de actos de subversão. Silom e Sathorn são verdadeiros acampamentos miliares. Fui interceptado por três vezes para verificação da minha documentação e de todos os oficiais e sargentos recebi sempre largos sorrisos, explicações e conselhos. Disparos ouvem-se aqui e ali, demonstrando que os recontros continuam e importa manter a máxima prudência.

A baixa está deserta. O moto-táxi disse-me a brincar que gostaria que Banguecoque fosse sempre assim, sem congestionamento e sem carros. Pensei ser um fervoroso ambientalista, mas a desmenti-lo estão as colunas de fumo negro causadas pelos milhares de pneus que os vermelhos teimam em incendiar em todas as zonas ainda sob seu controlo. O cheiro da borracha queimada espalhou-se por todo o lado e é verdadeiramente incómodo. Do acampamento vermelho, um sorridente miliciano diz-me aos berros "farang, tem cuidado, aqui é muito perigoso".

Na esquina, sentado num banco plástico, um soldado boceja e pergunta-me se quero uma garrafa de água. Não posso recusar, pois já palmilhei quilómetros a pé e preciso de descanso. Diz-me que ontem foi um dia difícil e que esteve com os seus camaradas a "resolver um problema lá longe, depois do viaduto", mas que agora a zona estava "livre de vermelhos". Depois, vou a um 7-11 (loja de conveniência) e as prateleiras estão vazias. Com o anúncio do mais que provável recolher obrigatório, as pessoas tudo compram. Como não tenho alimentos em casa, desloco-me em motocicleta a um supermercado Lotus e aí sou confrontado com uma enchente.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

As imagens parecem-se com as da série do Canal de História, "A Vida depois de nós". Muito boas fotos. Tira mais, se conseguires.

Maria disse...

Excelentes reportagens e magníficas fotografias. Parabéns por ambas.
Maria

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Abraço e cuidado!

PQG

Gi disse...

Miguel, gostamos muito das suas reportagens mas por favor tenha cuidado.