18 maio 2010

Débâcle vermelha: o que resta

Fim de tarde de terça-feira. Os vermelhos reabriram a porta de Pratunam, creio que para deixar sair as pessoas de Banguecoque que ainda se encontram no acampamento e para permitir apoio logístico, dado que na Praça Siam, perto de minha casa, o exército está a trinta metros dos sublevados. Reina uma calma tensa, pois a esperança desvaneceu-se em definitivo com a total recusa do governo em sentar-se à mesa das conversações com um cadáver político. O movimento vermelho foi derrotado e às autoridades só cumpre tratar com firmeza aqueles envolvidos em actividades terroristas, cuidar dos escudos-humanos, reenviando-os para as suas províncias de origem e começar a limpar a cidade do vandalismo que a varreu ao longo das últimas semanas.

Foi uma grande vitória do regime e da democracia. A tropa não excedeu os seus limites, actuou sempre com a máxima precaução, nunca tirou vantagem do poder de fogo, nunca mandou bombardear, não mandou avançar os blindados nem impediu que os feridos vermelhos, às centenas, recebessem nos hospitais civis o mesmo tratamento e atenções destinado aos soldados caídos ao serviço da lei e do Estado. Uma montanha de lixo fétido cria uma barricada-repelente, atestando a imensa logística vermelha e as necessidades diárias de um pequeno exército que não foi - não pode ter sido - alimentado pelas contribuições de "pobres camponeses" e do "proletariado de Banguecoque", como rezavam pias mentiras. Quando tudo terminar e se fizer a revelação de nomes, empresas, bancos, ONG's e países que alimentaram esta guerra, a fúria da população e a indignação de muitos far-se-á ouvir.


O palco continua a debitar protestos. Agora há grupúsculos trotsquistas vindos do Ocidente para apelar à "resistência contra a ditadura". Que ditadura ? Que resistência ? Pensei que melhor seria que estes excitados Garibaldis pelas revoluções e tragédias alheias aterrassem em Pequim, Rangún ou Hanói e aí dessem largas à sua combatividade por causas exóticas. Eu bem disse, há quase dois anos, que com este povo não se brinca, que aqui não haveria Bastilhas nem massas humanas ao assalto do palácio de inverno. Não estarão mais de 300 pessoas em frente do palco. Já lhes conheço as caras. Estão lá há quase dois meses. São os reféns, os escudos-humanos, agora utilizados para preencher as clareiras. São submetidos dia e noite à lavagem ao cérebro dos slogans, das canções, dos aplausos. Devem estar a viver um pesadelo sem fim e só espero que recebam o melhor tratamento do governo e possam retomar, sem caciques, o normal curso das suas vidas.

Sigo pela avenida Rachadamri, que leva a Silom e fico esclarecido. As pessoas debandaram. Não há ninguém. Quase envergonhado, um miliciano rapazola diz-nos que "estão a combater lá longe, perto da embaixada do Japão". Ora, não se consegue ouvir tiro algum. Ele sabe, como nós, que já não há combates, que o exército ocupou em definitivo aquela área, que está tudo perdido. Vi-lhe vergonha nos olhos ao mentir-nos e tive pena por ele e vergonha pelos que o trouxeram para esta aventura sem glória. Este nunca mais vai querer ouvir de marchas, de Thaksin ou de mesadas. É hora de regressar a casa, tomar um bom banho e descansar as pernas de vinte quilómetros de passeio numa cidade fantasma. Despeço-me do meu companheiro de jornada e retorno. No caminho cruzo-me com uns vinte homens de negro. Estes, sim, são os guerrilheiros e estão armados até aos dentes com espingardas de guerra, carregam M-79 envoltos em panos e outro tem um RPG-7 anti-carro enrolado numa flanela verde.

4 comentários:

Pedro Marcos disse...

Pelos vistos, o Infowars.com já abriu os olhos à realidade tailandesa e já se livrou do spin anti-monárquico.
Magnífico.

http://www.infowars.com/thailands-thaksin-shinwatra-marxists-and-the-nwo/

Frederico disse...

Boa noite!
Antes do mais, os meus sinceros parabéns pelas crónicas do seu dia-a-dia e a forma como aborda e revela todas as contradições políticas que nos chegam "oficialmente" pelos media.
Tenho acompanhado os seus posts com muita atenção, seja porque a informação dos media é mais do que insuficiente ou até porque acredito que só quem o vive realmente sabe do que fala. O meu interesse pessoal reside no facto de ter viagem marcada para o próximo dia 03 de Junho para Banguecoque há mais de 2 meses, julgava eu para conhecer uma cultura e uma cidade de sonho numa lua-de-mel que se queria perfeita! Com tudo o que se vê e escreve, só me resta "fugir" directamente para o Sul, em direcção à província de Krabi, que para mim, que desconheço totalmente o país, é a zona de praias e "relax" que mais me cativa.
Se possível, agradeço a sua opinião se estarei descansado nessa área e se é efectivamente a melhor zona para passar 15 dias de lua-de-mel. Mesmo assim será com muita tristeza que irei à Tailândia sem poder conhecer a cidade dos meus sonhos e locais emblemáticos a norte que tanto queria visitar, ficando-me pela praia e pouco mais, mas o medo a isso obriga.
Se puder, faça-me o ponto de situação desta área e de todos os conselhos possíveis, a melhor informação possível só pode vir de quem aí está.
Aqui fica o meu e-mail: fredericonovo@gmail.co
Agradeço antecipadamente e desejo que as perigosas incursões pelas ruas anárquicas de Banguecoque continuem a correr sem sobressaltos de maior!
Cumprimentos
Frederico Novo

Frederico disse...

a

Abel Cohen disse...

Parabéns pelo blog. Excelente acompanhamento da situação, análise interessante, óptimas fotos. Espero que o fim dos confrontos entre vermelhos e amarelos não abrande o ritmo dos posts.
abraço