14 maio 2010

Combustões no tiroteio

A morte lenta de um movimento
Disseram-me que não tentasse, pois o exército selara há muito as entradas de acesso ao campo vermelho e que era perigoso, pois desde a manhã se travavam combates ininterruptos na zona de Silom e do Parque Lumpini. As ruas estavam desertas e bloqueadas, mas não vi perto de casa quaisquer ajuntamentos militares dignos de nota. Um carro blindado e uma companhia de atiradores, era tudo o que queria para tentar passar. Passei pelos militares e continuei. Não mo impediram. Um sargento já entrado nos anos só me disse "tenha cuidado".
Aquilo que foi uma cidade em lona, com cozinhas, lojas, enfermarias, tendas para reuniões, centros de telecomunicações, refeitórios e centros de acolhimento para milhares de pessoas está reduzido a uma sombra. Os rostos fecharam-se, o riso desapareceu, o tom festivo, as palmas e gritos deram lugar a um silêncio de sepulcro, só interrompido de quando em vez por música e pedidos de socorro. Dos vinte ou trinta mil que foram em Abril, estarão no reduto não mais que duas mil pessoas: combatentes, milicianos e muitos escudos humanos. Ali já não se proclama a proximidade da vitória. Só se debitam desgraças: feridos, detenções e mortes.

As crianças ouvem os estrondos causados pelos disparos de granadas M79 e dos RPG-7, as rajadas e sorriem, como se estivessem a ver um filme na tv. Outras, abrem os braços e fazem "bouuummm". Os mais velhos, homens e mulheres, estão meditabundos ou disfarçam o nervosismo comendo e falando de ninharias, do calor que persiste, da chuva que teima em não chegar, da música que os altifalantes vão debitando.

Passo pelo palco, onde antes se acotovelavam os candidatos a governantes de uma Tailândia republicana e "revolucionária" e não vejo vestígios desse friso que ainda há três ou quatro semanas, de dedo em riste tudo exigia, tudo ameaçava e ia desfiando os nomes e as instituições a abater. O palco do espectáculo é a imagem do medo vermelho em expor-se, mas também da incapacidade em controlar os acontecimentos. Por fim, surgiu uma mulher e em tom pesaroso foi elencando os nomes dos caídos ao longo do dia. Instintivamente, as pessoas põem-se de pé e mostram o que lhes vai na alma: uma tristeza profunda, um inapelável vazio, o cheiro da derrota que lhes deve devorar o coração. Ali está, sem tirar, o rosto do pesar e o fim da esperança.

Milicianos de segunda linha: garotos
Prossigo e percorro a avenida Ratchadamri, que leva à linha da frente onde se têm travado intensa luta desde anteontem. Ao longo da longa avenida só vejo escudos-humanos e rapazolas com armas artesanais. Diz o governo que estes não são alvos e que tudo se fará para os poupar quando se der a arremetida marcada para este fim de semana. O porta-voz do governo garante-lhes transporte gratuito para as suas províncias de origem e assegura que nenhum destes soldados improvisados será alvo de qualquer procedimento criminal.

A frente
Percorridos dois quilómetros, estou perto das barricadas. Aí tudo muda. Os grupos fardados e armados estão organizados, movimentam-se e saltam de máscara em máscara como o fazem as esquadras de infantaria. O tiroteio é permanente de um lado e outro. Do campo vermelho são disparadas granadas anti-carro RPG-7 e uma meia dúzia de M-79. Ao explodirem no campo adversário, ouve-se um surdo e prolongado estrondo e os combatentes gritam "iéééé". Os atiradores estão a uns trinta metros, mas não me deixam prosseguir. Impactos de munições de armas automáticas do exército atingem um homem e sou obrigado a retroceder.

Ao tiroteio segue-se uma calma quase irreal. Aproveito e vou para as escadas de uma estação de Metro desactivada. Aí sou confrontado com uma verdadeira fábrida de coctails molotov. São às dezenas as garrafas e frascos com a mecha de pano embebido em gasolina. Os artistas estão encantados com os artefectos saídos das suas mãos. Riem-se e dizem que são muito mais potentes que o Red Bull. Cada garrafa contém a solução explosiva, à qual se adicionam pregos, pequenas pedras e areia. O efeito do rebentamento é equivalente ao de uma granada defensiva, mas pode ser usada contra carros de combate.


A palavra mágica de alarme soa: "sniper, sniper, tinán, tinán mi sniper khong thahan, song khon" (estão ali dois snipers do exército). De facto, no cimo de um alto prédio divizam-se dois vultos empunhando armas. A correria em busca de abrigo revela o número de milicianos vermelhos situados na barricada de pneus e obscáculos que limita o campo. Serão cerca de 300 ou 400 que correm e se protegem atrás dos muros do Parque Lumpini ou por detrás da estátua do Rei Rama VI.



Se os snipers o fossem de verdade, a matança teria sido generalizada. Mas não, julgo tratar-se um posto de observação do exército dando instruções por rádio às tropas e fazendo a sinalização das concentrações vermelhas, pois de imediato irrompe um verdadeiro de tiros dos dois lados. Um blindado parece estar a avançar sobre a linha vermelha. Ouço distintamente dois tiros anti-carro saídos das barricada vermelhas. O blindado terá sido atingido, pois ouvem-se dois rebentamentos surdos e uma coluna de fumo eleva-se no ar perante uivos de alegria dos vermelhos. Soube mais tarde, ao chegar a casa, que as munições haviam perfurado, mas sem destruir, um carro blindado e que um soldado da tripulação perdera a perna com o impacto.

Não queria arriscar mais. Esta não é a minha guerra. Curioso, notei depois, não haver ali um só dos temerários "repórteres de guerra", pagos a peso de ouro pelas agências de informação e enviados a Banguecoque para fazerem corta-cola de noticiário velho. São essas torres de precaução que espalham rumores e que fazem um jogo muito pouco ilustre dos boatos e do alarmismo. Na próxima vez candidato-me à Reuters !


Ao regressar a casa, despertou-me a atenção um monge budista. Com uma grandeza quase teatral, sentado e encerrado na sua dignidade, olhou-me e quase sorriu, mas um monge não deve exprimir sentimentos comuns, pelo que voltou ao seu esfíngico recolhimento. Assim vai Banguecoque, a "Veneza do Oriente", a "Cidade dos Anjos".


4 comentários:

NanBanJin disse...

Muigel, tenha cuidado.

As imagens que nos chegam até aqui, ao Japão, parecem, no essencial, confirmar tudo o que aqui, no COMBUSTÕES, o Miguel relata.
Em todo o caso, não são imagens nada, nada auspicosos. É medonho ver Bangkok a ferro e fogo.

Estranhamente, ou nem por isso, os repórteres Japoneses parecem, ter também, da sua parte, logrado penetrar ambos os lados das barricadas.
Como acima dizia, no essencial as imagens confirmam tudo o que o Miguel aqui descreve: do lado vermelho, milícias improvisadas, municiadas essencialmente com recurso a armas e engenhos artesanais, algum pandemónio, fogo, muita gritaria e gente a correr, enfim... aquilo a que todos nós já nos acostumámos a ver noutros lugares do mundo onde eventos semelhantes se desenrolaram ou desenrolam... Do lado governamental, o avanço cauteloso das leais forças militares, um ou outro carro-de-combate atingido e em chamas, alguns militares entricheirados em lugares altos, mas não aparentando tratar-se de snipers... Acabo de ver as imagens...

De muito temos todos a saudar o destemido empenho do Miguel em dar-nos a informação que pelas vias "legítimas" teima em não verter para fora.
Em todo o caso, peço-lhe que tenha cautela: não é nada de bom o que por aí vai, mete dó... e mete medo...

Muita falta nos fazem estas COMBUSTÕES, e mais falta ainda, muito mais falta, nos faz o Miguel.
Deus o guarde a salvo da tormenta.

Um sentido abraço do Japão,

L.F. Afonso, NBJ, Japão.

Green Toad disse...

Sei que tem experiencia militar e coragem fisica, mas mantenha-se em segurança. Pessoas desesperadas podem ter ideias desesperadas, e um "farang" à mão de semear pode dar para uma dessas situações...

De resto, obrigado pelos posts e, desculpe a curiosidade, já decidiu? Vai aceitar o desafio proposto para dar aulas na Tailandia?

Cumprimentos
J.Loureiro

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Obrigado Miguel pelo excelente texto Arriscou-se muito! Tem de ter cuidado!

Abraço do

Pedro Quartin Graça

Pedro Leite Ribeiro disse...

Daria um excelente repórter! Muito bom, tudo! Parabéns!