18 maio 2010

Combustões nas últimas bolsas vermelhas


Em Anu Sawari Chai Samora Phum, importante nó rodoviário da capital, combate-se energicamente. Ali próximo, num bairro popular, os vermelhos possuem apoio e ocuparam posições desde sábado, reforçando-as com muitos efectivos. A população, não tomando parte nos confrontos, senta-se à porta das casas e vai assistindo aos combates. Na companhia de um jornalista thai-alemão, percorri a avenida entre o zumbido de tiros de um sniper vermelho que fazia guerra por conta própria a partir do 12º andar de um edifício em construção. Graças às explicações do meu companheiro de aventura, agora aprendi a ciência de evitar um sniper. Quando este se encontra num ponto alto, a arma, ao fazer fogo, emite uma vibração seca e há que escolher rapidamente protecção atrás de um poste de electricidade ou de um carro. Depois, ouve-se o impacto, o tempo suficiente para correr para uma nova protecção.


Em baixo de um viaduto, meia centena de vermelhos vai seguindo o desenrolar dos combates e preparando coctails molotov. O estrondo é imenso, os gritos e corrida dos milicianos indicia pânico, pois já não se atrevem abandonar a protecção garantida pelo betão. Ontem ainda controlavam por completo a zona. Hoje, estão imóveis e só se movimentam de rastos ou em corrida.


Os combates desfiguraram o bairro, que está convertido num amontoado de ferros calcinados, pneus fumegantes, casas literalmente queimadas e restos de munições, garrafas de cocktails espalhadas pelo chão e muito, muito lixo que tresanda. A municipalidade de Banguecoque deixou de recolher o lixo, pois os carros são atacados pelos vermelhos e utilizados depois como barricadas.


Uma grande explosão atroadora. O exército, cansado do franco-atirador, acaba de o eliminar com uma poderosa desgarga, para desconsolo dos milicianos vermelhos que da rua dizem em uníssono "óóó, nãooooo". Prosseguimos e entramos pelas traseiras do bairro popular. Aí, como se nada estivesse a acontecer, a população faz compras, as crianças correm e brincam, come-se e bebe-se.


O desnorte, a inexistência de uma cadeia de comando, o prazer de dar largas ao proibitivo parece ter tomado conta das milicias vermelhas. Ontem queimaram, saquearam e vandalizaram tudo a que puderam lançar mãos. Escombros de automóveis e motorizadas, caixas multibanco roubadas, cabinas telefónicas despedaçadas, eis o que ficou de uma noite de destruição. As imagens, não vá alguém dizer que foram inventadas, são cabal expressão da instalação do poder nu nos bairros controlados pelos vermelhos.



Chegamos à linha de fogo. Os vermelhos estão agachados e vão respondendo com tiros aos tiros do exército. Lançam um foguete artesanal enorme que tem por cabeça explosiva uma garrafa de cerveja carregada de pólvora e um líquido que não consegui saber ao certo o que era. A explosão é grande e eles gritam entusiasmados. Na rua, uma tabuleta rabiscada diz: antaray, hân ók = perigo, proibido sair. Atrás das barricadas, os vermelhos já nem se movimentam. O mais ligeiro gesto é presenteado com uma saraivada de tiros.



Aquele sítio é demasiado perigoso. Vistos os vermelhos, resolvemos passar para o campo das forças armadas reais. Lá chegamos após vinte minutos de avanços cautelosos por quintais, ruelas e casas. As pessoas deixam-nos passar através das suas casas e devem pensar que somos loucos. Finalmente, a primeira trincheira militar. Só nos pedem que mostremos os sacos e seguimos em frente, em direcção a Baioke - a maior torre de cidade - que ainda ontem estava sob controlo dos vermelhos.


Disse-me um soldado que os vermelhos tinham muitas armas de fogo e que ontem a sorte do confronto esteve indecisa. "Atiravam sobre tudo o que se movesse, pois controlavam os pontos altos circundantes". Um camião-cisterna foi abandonado no auge dos combates e ali está atravessado esperando um reboque. Uma carrinha que por ali passava foi varejada a tiro pelos snipers vermelhos e do ataque resultaram ferimentos graves em dois dos ocupantes. Manchas de sangue seco comprovam as suas palavras.


O exército está senhor da situação. Os soldados retiraram os casacos de combate, fumam, ouvem rádio ou dormem. A bolsa de resistência de Anu Sawari está isolada e os milicianos jamais poderão forçar a linha militar que impede o acesso ao campo vermelho de Rachaprasong, o acampamento vermelho. Dois soldados oferecem-nos água e um deles diz: "sí déng gêap péé = os vermelhos estão quase derrotados".


(Continua)



Rules of Engagement

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Hoje, o Daily News e o Times de Londres, atacam violentamente os reds. pelo menos, os comentadores parecem furiosos!

Daniel Azevedo disse...

E enquanto isso, noutra galáxia ...

http://www.lalibre.be/actu/international/article/583434/m-demotte-suspend-les-exportations-d-armes-en-thailande.html

São os mesmos que venderam armas à Libia e "perderam" os documentos duaneiros respectivos. Resultado: não sabem onde foram parar as armas.
Mas a Tailândia é que é "perigosa".
Enfim...